dezembro 2006


Vivemos em uma sociedade carente de Deus. Diariamente os telejornais, revistas, programas de rádio, bombardeiam as nossas mentes com violência, drogas, corrupção, guerras, intolerância. Em uma primeira análise poderíamos até pensar se realmente vale a pena viver em um mundo tão caótico. Muitos estão fragilizados com tanta desesperança.

Dentro deste contexto lembro-me então de um versículo que Paulo escreve aos crentes de Corinto que diz assim: Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens (1Co. 15:19). Ou seja, se a nossa confiança em Cristo depender apenas da nossa existência neste mundo, que é passageiro, nos tornamos os mais miseráveis seres humanos. Paulo nos trás à lembrança, que por mais que as circunstâncias a nossa volta nos traga desesperança, a nossa existência não se limita a esta vida terrena, a nossa esperança está em Cristo e na certeza de que nEle temos vida e vida em abundância, uma vida eterna.

Por isso, aquele que está cheio da esperança outorgada por Deus tem uma visão de mundo completamente transformada e transformadora, pois como o apóstolo Paulo, entende que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada através de sua vida (Rm. 8:18).

A igreja por sua vez, deveria ser o local onde esta esperança se faria mais forte. Infelizmente o que observamos nos dias atuais são pessoas que procuram a igreja como uma espécie de mosteiro, um local onde elas possam exercer a sua religiosidade, sem precisar se envolver com vidas, isoladas do mundo; queremos diariamente ser transformados, ter a nossa esperança sempre restaurada, mas não queremos usar o nosso caráter transformado para transformar o mundo a nossa volta apregoando a verdadeira esperança que há em nós. O individualismo, conseqüência desta sociedade desestruturada, nos alcançou.

Precisamos urgentemente fazer uma auto-análise, ser aquilo que Deus espera que sejamos, a saber, imitadores de Cristo, para que a esperança que há em nós transborde em vida e transforme o mundo a nossa volta.

O apóstolo Paulo através dos seus ensinos, nos orienta a usar a esperança que há em nós como meio transformador de vidas, do mundo a nossa volta. Vejamos o conselho que Paulo dirige a Timóteo (1Tm. 4:10 – 16):

Ora, é para esse fim que labutamos e nos esforçamos sobremodo, porquanto temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis.

Ordena e ensina estas coisas.

Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza.

Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino.

Não te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério.

Medita estas coisas e nelas sê diligente, para que o teu progresso a todos seja manifesto.

Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes.

Paulo começa falando àqueles que tem colocado a sua esperança no Deus vivo. A estes, que inclui ele próprio e Timóteo, Paulo recomenda e espera que sejam padrão dos fieis, ou seja, um exemplo a ser imitado:

 

  • Na palavra – ou seja, no ensinar, no exortar, no aconselhar, no falar com pessoas; para que a nossa palavra não suscite ira, mas sim seja um refrigério para aqueles que a escutam.

  • No procedimento – ou seja, que o nosso modo de vida, conduta, comportamento, possa glorificar a Deus como está escrito em 1 Pedro 2:12: “O procedimento de vocês entre os pagãos deve ser boa, para que, quando eles os acusarem de criminosos, tenham de reconhecer que vocês praticam boas ações, e assim louvem a Deus no dia da sua vinda”.

  • No amor – amor é atitude, é uma ação que eu pratico para com o outro. Quem ama não vê somente a sua condição, mas mesmo na dificuldade consegue ver a necessidade do outro e tenta ser um auxílio. Quem ama não espera retorno. Ama incondicionalmente, seu amor não está baseado em troca de favores e sim em um bem estar consigo e com Deus. Quem ama se doa para ver o bem estar do outro, a exemplo de Cristo.

  • Na fé – ter convicção no relacionamento do homem com Deus, a convicção de que Deus existe e é o criador e governador de todas as coisas, o provedor e doador da salvação eterna em Cristo, a convicção de que Jesus é o Messias, através do qual nós obtemos a salvação eterna no reino de Deus.

  • Na pureza – que possamos ser na nossa vida diária e nas nossas decisões respeitáveis, modestos, prudentes e discretos.

Paulo recomenda ainda que sejamos aplicados a leitura das Escrituras a exemplo do salmo 1 que diz Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite. Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido” e que não devemos ser descuidados com os dons que a nós foi dado pelo próprio Deus.

Fazendo assim, nós que temos a verdadeira esperança e que fomos transformados por ela, poderemos ser agentes transformadores de vida, distribuindo esperança a um mundo tão carente de paz e amor. Que possamos ser como está escrito na oração de São Francisco este instrumento da paz e do amor divino.
“…Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

“…fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes.”

Uma reflexão do papel da instituição cristã em uma sociedade ocidental secularizada.

            O artigo visa analisar o significado de religião (ou religiosidade) e o papel da instituição religiosa, especificamente o cristianismo, mostrando suas relações e significados na sociedade pós-moderna ocidental. Será que realmente caminhamos para o fim da religião? A sociedade pós-moderna esvaziou-se do que chamamos de sentimento religioso? Porque mesmo em meio a uma sociedade secularizada podemos perceber uma renovação do interesse na religião? A religião ainda exerce uma coerção social?

        A partir da compreensão dos desdobramentos que tiveram a passagem de uma era feudal para uma era moderna centrada no surgimento do capital, da reflexão sobre a pós-modernidade e dos conceitos de religiosidade, dessacralização e instituição pretende-se mostrar que o sentimento religioso ainda se faz presente na atualidade como instrumento que influi sobre os fundamentos sociais, mas que, contudo, perdeu o seu sentido ordenador da realidade e do social; ou seja, a religião e suas instituições de representação perderam poder de dar sentido e dominar no mundo (pós) moderno.

            Para melhor compreensão, o artigo será dividido em quatro partes. Na primeira parte, A experiência religiosa e a institucionalização da religião, será mostrado como o sentimento religioso, que fornece ordem, sentido e eficácia simbólica ao ser humano, foi aos poucos se institucionalizando, tornando-se detentor da experiência religiosa; na segunda parte, A instituição religiosa como instrumento de coerção social, será apresentada como a religião cristã tornou-se um mecanismo de coerção na sociedade feudal (Durkheim[1]); na terceira parte, A modernidade e a secularização da sociedade, será feita uma reflexão sobre o surgimento da modernidade, e o processo de secularização e dessacralização da sociedade; na ultima parte, A instituição religiosa em meio à pós-modernidade, finalizará mostrando que a religião não termina com esta, mas recebe novas formas e sabores bem particulares, a partir da própria lógica autônoma e racional da modernidade.


[1] Émile Durkheim (18581917) é considerado um dos pais da sociologia moderna. Durkheim foi o fundador da escola francesa de sociologia, posterior a Marx, que combinava a pesquisa empírica com a teoria sociológica. É reconhecido amplamente como um dos melhores teóricos do conceito da coerção social.

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“Eu, eu mesmo…
Eu, cheio de todos os cansaçoseu2.jpg
Quantos o mundo pode dar. —
Eu…
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças…
Que crianças não sei…
Eu…
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei…
Eu…
Tive um passado? Sem dúvida…
Tenho um presente? Sem dúvida…
Terei um futuro? Sem dúvida…
A vida que pare de aqui a pouco…
Mas eu, eu…
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu…”

Álvaro de Campos

Tenho a sensação de estarmos repetindo a história! Num culto, de repente veio me um pensamento: será que estamos voltamos a Idade Média?

Lógico que não me refiro ao sistema feudal que regia aquele período com base na terra (apesar de ainda hoje vermos inúmeros “senhores feudais”, mas isso é outra discussão), mas do sistema ideológico, e a maneira de se “sentir” a fé.

Vendo os caminhos pelos quais a história tomou ate chagar na Reforma, principalmente no que tange aos aspectos intelectuais e religiosos do ser humano, e vendo os caminhos que a nossa época estão traçando, veio me algumas indagações: Será que vamos chegar em um grau de absurdo incontrolável dentro das nossas igrejas que precisaremos de uma nova reforma?

Ora não é esse o lema da primeira reforma, “Uma igreja reformada sempre reformando”? Então porque a igreja (ao meu ver) parou de se auto analisar? De se auto revisar? De se auto reformar? Será que realmente precisamos chegar ao “fundo do poço” para enxergarmos o grau de misticismo que estamos vivendo? Você acha exagero? Então vamos observar três pontos que para mim são mais fáceis de serem enxergados.

Primeiro (e principal ao meu ver) é o “Mercado da fé”, qualquer semelhança com as relíquias e indulgências medievais são meras coincidências. Mezuzá, Água da Vida (quem beber dela não terá mais sede), sabonete ungido, a rosa de Saron, o sangue do cordeiro e até a mão impressa num pedaço de pano velho tá quebrando maldições e libertando vidas oprimidas por demônios. Aliás, tudo é demônio, eu queria saber onde fica a carne e o mundo. Milhares de pessoas estão correndo de igreja em igreja atrás de “porções mágicas” e rápidas que garantam a ida pro céu, se possível a de toda família, afinal de contas, para que compromisso com o Reino. Perece-lhe semelhante? Para mim também.

        Segundo é a falsa impressão que temos do real acesso a Palavra de Deus. Até porque Bíblia é artigo de luxo (com exceções do Pão Diário e dos Gidões), e o preço é tão caro que a “massa”[1] não tem como adquirir, aliás, a “massa” muitas vezes não tem nem o que comer (mas “nem só de pão vive o homem”) , e mesmo que alguém de alma caridosa doe um exemplar, a maioria das pessoas não tem instrução, quando sabem ler (no país existem cerca de 30 milhões de analfabetos funcionais[2], isto é, pessoas com menos de quatro anos de estudos). A “revelação” da Verdade fica então a cargo do líder espiritual, que repassa a suas ovelhas verdades que nem sempre se encontram na Verdade. O que isso gera? ALIENAÇÃO! As pessoas geralmente absorvem aquilo que escutam sem fazer nenhum questionamento, costumes tornam-se doutrina, e a doutrina foi esquecida. Tô sendo radical? Acho que não.

Lembro-me de uma amiga que ao ir a uma oração foi abordada por um irmão que dizia ter tido uma revelação de Deus, até ai tudo bem, o problema foi quando ele disse a “mensagem de Deus” – “Você tem o 666 na orelha!” – tudo isso porque a pobre da menina usava três brincos. Tudo bem, você pode argumentar, “mas foi um irmãozinho que não tem conhecimento da Bíblia, etc”. Pode até ser, mas quem ensinou a ele que usar brinco é sinal da besta? A falta de conhecimento está fazendo que o povo crie doutrinas a partir de experiências e do que é místico. Parece também semelhante? Para mim também, só falta a Santa Inquisição, “queima ele”.

Por ultimo quero questionar a forma de como cada vez mais Jesus está sumindo de nossas igrejas, da forma de que como a Cruz foi esquecida, de como a Graça foi ignorada. Como é raro ouvir falar de Jesus nos nossos púlpitos hoje… Também, o que lota as igrejas não é falar da Graça, do pecado, do arrependimento, da volta de Cristo e sim de “Como resolver seus problemas em dez dias”, ou “Como ficar rico freqüentando orações”, quem sabe ainda “Mais do que tudo aquilo que pedimos ou pensamos”. Meu Deus, aonde Tú fostes parar?

Podemos ainda observar em nossos dias mudanças “geográficas”, políticas, econômicas, sociais e intelectuais como foram observadas no século XV.

A globalização e a internet trouxeram consigo um novo conceito de espaço, um novo mundo, um mundo que agora é virtual. O local onde você está não importa mais, você pode trabalhar, conversar, fazer compras, namorar e até ter relações sexuais pelo computador e a internet. O www faz milagres…

Na política e economia, ao invés de nações-estado, temos formação de Blocos de Países, onde nações se unem para defender seus interesses políticos e econômicos, surgem então os Tigres Asiáticos, Nafta, a União Européia, e nosso Mercosul. O dólar não é mais único, o euro veio para competir: quem vale mais!

O humanismo[3] foi esquecido pela robótica. Estamos vivendo a era dos robôs, dos artigos eletrônicos, da telemática, pesquisas sobre o genoma humano, clonagem… quem é o homem nesse turbilhão de inovações?

Será que realmente estamos vivendo mais uma vez um momento propício para grandes mudanças? O que nos falta? Um líder como Lutero ou Calvino? Quando se dará o estopim de todas essas coisas? Gostaria de ter com exatidão as respostas destas perguntas, mas infelizmente estou próxima demais da realidade para conseguir discernir com real clareza estes questionamentos.

Mas se eu estiver correta, quero então acreditar que uma nova reforma está por vir, e que esta irá acontecer de forma diferente da primeira. Quero acreditar que esta não vai ser um movimento de elite, ou seja, que vem de cima para baixo e sim um movimento acadêmico, de dentro dos seminários. Não falo da estrutura de seminário existente que beneficia apenas uns (o que seria tão elitista quanto ao primeiro movimento), na maioria das vezes não por culpa dos seminários e sim das igrejas que não vêem com bons olhos “as letras”, afinal “a letra mata, mas o espírito vivifica“; sonho com um movimento acadêmico que invada de maneira maciça as igrejas, um movimento que conta com os jovens sem distinção de cor, dinheiro, raça, idade, sexo e denominação. Uma conscientização que contagiem as igrejas, e que estas contagiem as “massas”, nascendo uma nova fase no Cristianismo, para que assim possamos tomar posse do nosso lema: “Uma Igreja reformada e sempre reformando”.


[1] “Massa” aqui se refere às pessoas de baixa renda que não possuem dinheiro suficiente para comprar Bíblia, bons livros, freqüentar seminários, etc. Segundo dados do IBGE, censo de 2002, 65,9% da população brasileira possuem uma renda que varia de zero (sem renda) à dois salários mínimos (dos que declaram imposto de renda).

[2] Segundo dados do IBGE, censo de 2001, em média 30% da população brasileira são analfabetos funcionais.

[3] Humanismo aqui está sendo utilizado como um trocadilho e não uma referencia direta ao movimento filosófico desenvolvido na renascença. A minha intenção na verdade é mostrar a substituição do ser humano (quanto ao seu valor e credibilidade, principalmente ao que se refere ao mercado de trabalho) pelas máquinas.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado de seus princípios: ‘ Nós acreditamos que esta verdade seja evidente, que todos os homens são criados iguais.’ … Eu tenho um sonho que um dia minhas quatro crianças viverão em uma nação onde não serão julgadas pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter.”

Martin Luther King Jr.

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A beleza intrínseca da criança,

sua pureza e inocência,

seus temores e ousadia,

sua doçura e suavidade,

lhe enchem de dignidade,

por simplesmente ser criança!

Magela de Oliveira