Tenho a sensação de estarmos repetindo a história! Num culto, de repente veio me um pensamento: será que estamos voltamos a Idade Média?

Lógico que não me refiro ao sistema feudal que regia aquele período com base na terra (apesar de ainda hoje vermos inúmeros “senhores feudais”, mas isso é outra discussão), mas do sistema ideológico, e a maneira de se “sentir” a fé.

Vendo os caminhos pelos quais a história tomou ate chagar na Reforma, principalmente no que tange aos aspectos intelectuais e religiosos do ser humano, e vendo os caminhos que a nossa época estão traçando, veio me algumas indagações: Será que vamos chegar em um grau de absurdo incontrolável dentro das nossas igrejas que precisaremos de uma nova reforma?

Ora não é esse o lema da primeira reforma, “Uma igreja reformada sempre reformando”? Então porque a igreja (ao meu ver) parou de se auto analisar? De se auto revisar? De se auto reformar? Será que realmente precisamos chegar ao “fundo do poço” para enxergarmos o grau de misticismo que estamos vivendo? Você acha exagero? Então vamos observar três pontos que para mim são mais fáceis de serem enxergados.

Primeiro (e principal ao meu ver) é o “Mercado da fé”, qualquer semelhança com as relíquias e indulgências medievais são meras coincidências. Mezuzá, Água da Vida (quem beber dela não terá mais sede), sabonete ungido, a rosa de Saron, o sangue do cordeiro e até a mão impressa num pedaço de pano velho tá quebrando maldições e libertando vidas oprimidas por demônios. Aliás, tudo é demônio, eu queria saber onde fica a carne e o mundo. Milhares de pessoas estão correndo de igreja em igreja atrás de “porções mágicas” e rápidas que garantam a ida pro céu, se possível a de toda família, afinal de contas, para que compromisso com o Reino. Perece-lhe semelhante? Para mim também.

        Segundo é a falsa impressão que temos do real acesso a Palavra de Deus. Até porque Bíblia é artigo de luxo (com exceções do Pão Diário e dos Gidões), e o preço é tão caro que a “massa”[1] não tem como adquirir, aliás, a “massa” muitas vezes não tem nem o que comer (mas “nem só de pão vive o homem”) , e mesmo que alguém de alma caridosa doe um exemplar, a maioria das pessoas não tem instrução, quando sabem ler (no país existem cerca de 30 milhões de analfabetos funcionais[2], isto é, pessoas com menos de quatro anos de estudos). A “revelação” da Verdade fica então a cargo do líder espiritual, que repassa a suas ovelhas verdades que nem sempre se encontram na Verdade. O que isso gera? ALIENAÇÃO! As pessoas geralmente absorvem aquilo que escutam sem fazer nenhum questionamento, costumes tornam-se doutrina, e a doutrina foi esquecida. Tô sendo radical? Acho que não.

Lembro-me de uma amiga que ao ir a uma oração foi abordada por um irmão que dizia ter tido uma revelação de Deus, até ai tudo bem, o problema foi quando ele disse a “mensagem de Deus” – “Você tem o 666 na orelha!” – tudo isso porque a pobre da menina usava três brincos. Tudo bem, você pode argumentar, “mas foi um irmãozinho que não tem conhecimento da Bíblia, etc”. Pode até ser, mas quem ensinou a ele que usar brinco é sinal da besta? A falta de conhecimento está fazendo que o povo crie doutrinas a partir de experiências e do que é místico. Parece também semelhante? Para mim também, só falta a Santa Inquisição, “queima ele”.

Por ultimo quero questionar a forma de como cada vez mais Jesus está sumindo de nossas igrejas, da forma de que como a Cruz foi esquecida, de como a Graça foi ignorada. Como é raro ouvir falar de Jesus nos nossos púlpitos hoje… Também, o que lota as igrejas não é falar da Graça, do pecado, do arrependimento, da volta de Cristo e sim de “Como resolver seus problemas em dez dias”, ou “Como ficar rico freqüentando orações”, quem sabe ainda “Mais do que tudo aquilo que pedimos ou pensamos”. Meu Deus, aonde Tú fostes parar?

Podemos ainda observar em nossos dias mudanças “geográficas”, políticas, econômicas, sociais e intelectuais como foram observadas no século XV.

A globalização e a internet trouxeram consigo um novo conceito de espaço, um novo mundo, um mundo que agora é virtual. O local onde você está não importa mais, você pode trabalhar, conversar, fazer compras, namorar e até ter relações sexuais pelo computador e a internet. O www faz milagres…

Na política e economia, ao invés de nações-estado, temos formação de Blocos de Países, onde nações se unem para defender seus interesses políticos e econômicos, surgem então os Tigres Asiáticos, Nafta, a União Européia, e nosso Mercosul. O dólar não é mais único, o euro veio para competir: quem vale mais!

O humanismo[3] foi esquecido pela robótica. Estamos vivendo a era dos robôs, dos artigos eletrônicos, da telemática, pesquisas sobre o genoma humano, clonagem… quem é o homem nesse turbilhão de inovações?

Será que realmente estamos vivendo mais uma vez um momento propício para grandes mudanças? O que nos falta? Um líder como Lutero ou Calvino? Quando se dará o estopim de todas essas coisas? Gostaria de ter com exatidão as respostas destas perguntas, mas infelizmente estou próxima demais da realidade para conseguir discernir com real clareza estes questionamentos.

Mas se eu estiver correta, quero então acreditar que uma nova reforma está por vir, e que esta irá acontecer de forma diferente da primeira. Quero acreditar que esta não vai ser um movimento de elite, ou seja, que vem de cima para baixo e sim um movimento acadêmico, de dentro dos seminários. Não falo da estrutura de seminário existente que beneficia apenas uns (o que seria tão elitista quanto ao primeiro movimento), na maioria das vezes não por culpa dos seminários e sim das igrejas que não vêem com bons olhos “as letras”, afinal “a letra mata, mas o espírito vivifica“; sonho com um movimento acadêmico que invada de maneira maciça as igrejas, um movimento que conta com os jovens sem distinção de cor, dinheiro, raça, idade, sexo e denominação. Uma conscientização que contagiem as igrejas, e que estas contagiem as “massas”, nascendo uma nova fase no Cristianismo, para que assim possamos tomar posse do nosso lema: “Uma Igreja reformada e sempre reformando”.


[1] “Massa” aqui se refere às pessoas de baixa renda que não possuem dinheiro suficiente para comprar Bíblia, bons livros, freqüentar seminários, etc. Segundo dados do IBGE, censo de 2002, 65,9% da população brasileira possuem uma renda que varia de zero (sem renda) à dois salários mínimos (dos que declaram imposto de renda).

[2] Segundo dados do IBGE, censo de 2001, em média 30% da população brasileira são analfabetos funcionais.

[3] Humanismo aqui está sendo utilizado como um trocadilho e não uma referencia direta ao movimento filosófico desenvolvido na renascença. A minha intenção na verdade é mostrar a substituição do ser humano (quanto ao seu valor e credibilidade, principalmente ao que se refere ao mercado de trabalho) pelas máquinas.