Uma reflexão do papel da instituição cristã em uma sociedade ocidental secularizada.

            O artigo visa analisar o significado de religião (ou religiosidade) e o papel da instituição religiosa, especificamente o cristianismo, mostrando suas relações e significados na sociedade pós-moderna ocidental. Será que realmente caminhamos para o fim da religião? A sociedade pós-moderna esvaziou-se do que chamamos de sentimento religioso? Porque mesmo em meio a uma sociedade secularizada podemos perceber uma renovação do interesse na religião? A religião ainda exerce uma coerção social?

        A partir da compreensão dos desdobramentos que tiveram a passagem de uma era feudal para uma era moderna centrada no surgimento do capital, da reflexão sobre a pós-modernidade e dos conceitos de religiosidade, dessacralização e instituição pretende-se mostrar que o sentimento religioso ainda se faz presente na atualidade como instrumento que influi sobre os fundamentos sociais, mas que, contudo, perdeu o seu sentido ordenador da realidade e do social; ou seja, a religião e suas instituições de representação perderam poder de dar sentido e dominar no mundo (pós) moderno.

            Para melhor compreensão, o artigo será dividido em quatro partes. Na primeira parte, A experiência religiosa e a institucionalização da religião, será mostrado como o sentimento religioso, que fornece ordem, sentido e eficácia simbólica ao ser humano, foi aos poucos se institucionalizando, tornando-se detentor da experiência religiosa; na segunda parte, A instituição religiosa como instrumento de coerção social, será apresentada como a religião cristã tornou-se um mecanismo de coerção na sociedade feudal (Durkheim[1]); na terceira parte, A modernidade e a secularização da sociedade, será feita uma reflexão sobre o surgimento da modernidade, e o processo de secularização e dessacralização da sociedade; na ultima parte, A instituição religiosa em meio à pós-modernidade, finalizará mostrando que a religião não termina com esta, mas recebe novas formas e sabores bem particulares, a partir da própria lógica autônoma e racional da modernidade.


[1] Émile Durkheim (18581917) é considerado um dos pais da sociologia moderna. Durkheim foi o fundador da escola francesa de sociologia, posterior a Marx, que combinava a pesquisa empírica com a teoria sociológica. É reconhecido amplamente como um dos melhores teóricos do conceito da coerção social.

I – A experiência religiosa e a institucionalização da religião.

            A experiência religiosa (religiosidade) é mais do que um simples fenômeno. É antes de tudo um modo primário do indivíduo que emerge a partir da própria consciência que o ser humano é um ser finito, limitado, imperfeito, e se descobre num mundo que não criou e cujo sentido desconhece. É desenvolvida através de uma busca pessoal e nunca por imposição. Pode se manifestar através da crença[1] de uma fé e ritos[2], como também pode se manifestar em outras atitudes não diretamente relacionadas com uma religião. A religiosidade não tem a pretensão de exercer uma influência social, pois chega ao ser humano como resposta às questões existenciais da vida, trazendo referenciais que transcendem a sociedade. Está muito mais associada a vivências particulares, como os fenômenos sobrenaturais, que despertam os homens para outras dimensões da realidade.

Quando a experiência religiosa é experimentada de forma coletiva surge a religião. A religião é uma manifestação coletiva, geradora de fortes sentimentos de identidade entre os seus membros, gerando assim uma unidade (Budismo, Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, etc.). Contudo, quando no seio da coletividade tentamos “aprisionar” a experiência religiosa, limitando ou regulamentando, colocando-a sob custódia, inicia-se então o processo de institucionalização da mesma.

           A instituição religiosa, ao contrário da experiência religiosa, procura não apenas manter seus ritos, mas também influenciar o curso dos acontecimentos sociais garantindo a sua perpetuação, expansão, e manutenção da ortodoxia por intermédio dos dogmas, da tradição e manipulação do poder. Afirmando ter a solução dos problemas existenciais do ser humano, oferece um contexto em que o indivíduo sente-se protegido (psicologicamente ou materialmente), conseguindo projetar seus conflitos mal resolvidos para uma ordem simbólica (criando uma situação de dependência); torna-se, portanto, o refúgio ideal de muitas pessoas.


[1] As crenças são representações sobre o sagrado elaboradas de forma mais ou menos complexa, podendo ou não ser escritas. Estas crenças definem uma concepção particular do sagrado, os seus poderes e virtudes.

[2] Os ritos são um conjunto de práticas simbólicas através das quais o ser humano entra em contacto com o sagrado, transcendendo a sua condição profana.

II – A instituição religiosa como instrumento de coerção social.

            Com a queda do Império Romano do Ocidente, em meados do século V, as inúmeras invasões bárbaras, que obrigaram os nobres romanos e seus camponeses a se afastarem das cidades, e as más políticas econômicas dos imperadores, geradores de mortes, doenças e insegurança, a Europa iniciou um período de baixa densidade populacional e baixo desenvolvimento econômico. Com a dominação dos povos bárbaros no território europeu, tornou-se impossível que os descendentes dos nobres romanos, que eram donos de pequenos agrupamentos de terra, unificassem-se a estes. Estes acontecimentos proporcionaram mudanças econômicas e sociais. Descortinou um novo sistema econômico, político e social chamado Feudalismo.

            A política ficou fortemente marcada pela descentralização do poder; a economia torna-se arraigada à terra (feudo[1]), de subsistência, agro-pastoril e de mão-de-obra servil; com a ausência quase total do comércio e de intercâmbios monetários, as relações comerciais eram realizadas através de escambo[2], não mais com dinheiro. As cidades deixaram de ser centros econômicos e a sociedade passou a ser composta de três grupos sociais com status fixo: os clérigos, os senhores feudais e os servos. Os clérigos possuíam função oficial de rezar, os senhores feudais (nobres) guerrear e os servos (maior parte da população camponesa) presos à terra, de trabalhar, prestando serviço ao senhor e a pagar-lhe diversos tributos em troca da permissão de utilizar-se da terra e de proteção militar. Devido esta estrutura social, o servo (que era explorado) não se sentia estimulado a aumentar a sua produção com inovações tecnológicas, ocasionando um pequeno desenvolvimento tecnológico neste período.

            A igreja, no caso Católica Apostólica Romana, exerceu uma grande influência sobre a população medieval que ultrapassava as questões religiosas e espirituais. Tornou-se a maior “senhora feudal”, proprietária de terras e de riquezas doadas pelos reis, atuava em todos os setores: econômico, pedagógico, político e mental, tornando-se o principal centro irradiador da cultura na Idade Média. A igreja partia de uma centralizada e bem organizada estrutura, sua expansão foi facilitada pela expansão dos mosteiros, abadias e conventos, e sua consolidação foi viabilizada pelos monarcas francos e seus decretos (capitulares), como podemos ler em uma capitular para os territórios saxões:

“Se alguém procura asilo numa Igreja, ninguém deve fazê-lo sair pela força; seja deixado aí até que ele queira sair espontaneamente.

Aquele que penetra numa Igreja com violência e aí comete roubo ou saque ou incendeia a Igreja será punido com a morte.

Aquele que mata um bispo, um padre ou um diácono também será punido com a morte.
Aquele que conforme o costume pagão faz queimar um cadáver e incinerá-lo será punido com a morte.

Aquele que sacrifica um ser humano ao diabo e o oferece, segundo rito pagão, aos demônios será punido com a morte.

Aquele que fizer voto junto de uma fonte, de uma árvore, de um bosque, ou tiver sacrificado algo à moda dos pagãos (…) pagará multas e, se não o puder, entrará no serviço da Igreja até que pague”. (MONUMENTA GERMANIAE HISTÓRICA, Leges, I, 48-50. Citado por FROHLICH, p.56)

           Possuía também grandes rendimentos através do dízimo, contudo, criou normas econômicas condenando o lucro e os empréstimos de dinheiro a juros. O papa, chefe supremo da igreja, era visto como representante direto de Deus na terra, superior aos reis e imperadores, como podemos observar no pronunciamento do papa Inocêncio III:

“Deus, criador do mundo, pôs no firmamento dois grandes astros para o iluminar: o Sol que preside ao dia, e a Lua que preside à noite. Do mesmo modo, no firmamento da Igreja universal instituiu Ele duas altas dignidades: o Papado, que reina sobre as almas, e a Realeza, que domina os corpos. Mas o primeiro é muito superior à segunda”. (Pronunciamento do papa Inocêncio III. Citado por FREITAS, p. 204).

            Em virtude destas transformações, a mentalidade racionalista e humanista da cultura greco-romana, foi lentamente sendo substituída por uma inabalável fé em Deus. Toda a explicação existencial somente poderia ser respondida pela fé; apenas ela poderia garantir a vitória e proteção sobre Demônio, símbolo do Mal e uma salvação após a morte. A religião agora pautava a vida e a morte do homem medieval através dos sacramentos (batismo, matrimônio, extrema-unção). O homem medieval estava nas “mãos de Deus”. Atemorizado pela condenação, submetia-se às penas e ameaças de caráter religioso impostas pela igreja (podendo até chegar à excomunhão). A máxima grega “o homem é a medida de todas as coisas” (antropocentrismo[3]) transformou-se em “Deus é a medida de todas as coisas” (teocentrismo[4]). A igreja atingiu o máximo em sua construção dogmática, formou uma poderosa elite intelectual capaz não somente de sustentar seus símbolos, mas também de oferecerem alternativas quando esses símbolos fossem contestados. A gestão do sagrado, ou sentimento religioso pela igreja assegurou sua continuidade sob a forma de comemoração, de uma memória ou tradição; contudo, impediu que inovações e novos discursos fossem aceitos pela ortodoxia, aprisionando o sentimento religioso.

          Este período, fortemente marcado por uma “pressão” cultural-social ditada pela religião (compreendida em suas instituições oficiais de representação – a Igreja – que dava sentido orientador da realidade social), proporcionou através da moral[5], dos dogmas e da tradição o refreamento da racionalidade e da possibilidade de escolha do indivíduo, que aos poucos perdia a sua autonomia.

Esta estrutura reforça o pensamento de coerção social de Durkheim. Afirmava ele que, quando o ser humano vive em sociedade, a maioria de suas ações não são resultado de suas decisões isoladas, mas também de princípios exteriores à sua vontade. Esses princípios na verdade, são valores e comportamentos que são convenientes a uma sociedade e que ela tenta infundir em seus integrantes. É exatamente essa “pressão” que a sociedade exerce sobre os seus integrantes para adequar-lhes à conduta, que Durkheim chama de coerção social. Como podemos observar no pensamento de Durkheim:

“De maneira geral, não há dúvida de que uma sociedade tem tudo o que é preciso para despertar nos espíritos, unicamente pela ação que ele exerce sobre eles, a sensação do divino; porque ela é para os seus membros o que um deus é para os seus fiéis. Um deus, com efeito, é antes de tudo um ser que o homem imagina, em determinados aspectos, como superior a si mesmo e de quem acredita depender. Quer se trate de personalidade consciente, como Zeus ou Javé, ou então de forças abstratas como as que estão presentes no totemismo, o fiel, tanto num caso como no outro, acredita-se obrigado a determinadas maneiras de agir que lhe são impostas pela natureza do princípio sagrado com o qual se sente em relação. Ora, a sociedade também alimenta em nós a sensação de contínua dependência. Como tem natureza que lhe é própria, diferente da nossa natureza de indivíduo, ela visa a fins que lhe são igualmente especiais: mas, como só pode atingi-los por nosso intermédio, reclama imperiosamente nosso concurso. Ela exige que, esquecidos de nossos interesses, nos tornemos seus servidores e nos impõe toda espécie de incômodos, de privações e de sacrifícios sem os quais a vida social seria impossível. É por isso que a cada instante somos obrigados a nos submeter a regras de comportamento e de pensamento que não fizemos nem quisemos, e que às vezes são até contrárias às nossas tendências e aos nossos instintos fundamentais.

Todavia, se a sociedade só obtivesse de nós essas concessões e esses sacrifícios por imposição material, não poderia despertar em nós senão a idéia de força física à qual devemos ceder por necessidade, e não a idéia de força moral do gênero das que as religiões adoram. Mas na realidade, o domínio que ela exerce sobre as consciências vincula-se muito menos à supremacia física de que tem o privilégio do que à autoridade moral de que está investida. Se nos submetemos às suas ordens, não é simplesmente porque está armada de maneira a triunfar das nossas resistências, é, antes de tudo, porque constitui o objeto de autêntico respeito.” (DURKHEIM, 1989, p. 260-261).

Contudo, no século XI, inicia-se um novo processo na Europa. Muitas cidades européias tornaram-se livres do domínio dos senhores feudais. Essas cidades chamavam-se burgos. Os burgueses (habitantes dos burgos) recebiam o apoio dos reis, que tiveram seu poder enfraquecido pelo sistema feudal. O surgimento dos burgos desencadeou um renascimento do comércio e um aumento da circulação monetária, trazendo uma revalorização da importância social das cidades, e um aumento da população urbana. Com a expansão do comércio e o surgimento de novas oportunidades de trabalho, houve uma atração dos servos para as cidades, minando o sistema feudal, abrindo caminho para uma nova era: a Modernidade.


[1] Feudo: Principal unidade econômica de produção.

[2] Escambo (ou troca direta) consiste na troca de bens por outros bens consoante a necessidade dos proprietários dos bens, especialmente quando não existia a moeda.

[3] Antropocentrismo vem a ser o pensamento ou a organização que faz do ser humano o centro de um determinado universo, ou do Universo todo, em cujo redor (ou órbita) gravitam os demais seres, em papel meramente subalterno e condicionado. É a consideração do ser humano como eixo principal de um determinado sistema, ou ainda, do mundo conhecido. Tanto a concepção quanto o termo provêm da Filosofia.

[4] O teocentrismo (do grego θεóς, theos, “Deus”; e κέντρον, kentron, “centro”) é a concepção segundo a qual Deus é o centro do universo, tudo foi criado por ele, por ele é dirigido e não há outra razão além do desejo divino sobre a vontade humana.

[5] Aqui me aproprio do significado que Durkheim atribui a moral, “um sistema de regras de ação que predeterminam a conduta” (…) “e bem agir é obedecer bem” (DURKHEIM, 1925: p. 21). “A moral não é, pois apenas um sistema de hábitos, é um sistema de comando” (id., ibid. p. 27).

III – A modernidade e a secularização[1] da sociedade.

            A religião institucionalizada não conseguiu tornar a sociedade mais justa, livre e igualitária e nem conseguiu responder às questões existenciais da humanidade, fazendo com que o ser humano, insatisfeito com as imposições feitas pela igreja, buscasse encontrar explicações concretas para o que antes era explicado de forma abstrata. O aumento do comércio e, por conseguinte, o surgimento do capitalismo, o descobrimento de novos “mundos”, o aparecimento da imprensa (século XV) e de novas tecnologias, abalaram de vez o sistema feudal. A fragmentada sociedade feudal da Idade Média transforma-se então, em uma sociedade dominada, progressivamente, por instituições políticas centralizadas, com uma economia urbana e mercantil. Estas novas mudanças foram aos poucos modificando a mentalidade teocêntrica da humanidade; a célebre frase de René Descartes[2], “Cogito, ergo sum” (Penso, logo existo), resume o resultado dessas transformações.

        O Renascimento (século XIV) e o Iluminismo (século XVIII), a Reforma Protestante (século XVI) e a Revolução Industrial (século XVIII), consolidaram de vez o novo sistema que substituiria o antigo regime feudal: o Capitalismo. No campo do pensamento, o mito e a religião foram aos poucos substituídos pelo mito do progresso científico e tecnológico (positivismo[3] de Comte[4]). A ascensão da burguesia e de sua ideologia (Iluminismo) levou a humanidade a utilizar-se da razão não somente para descobrir o mundo, mas também, para entenderem a si mesmos no contexto da sociedade; surgia uma cultura laica, ou seja, sem a interferência da igreja. O homem agora voltaria a ser a medida de todas as coisas. Estas concepções, contudo, estavam carregadas de esperança, com a responsabilidade de propor novas cosmovisões em substituição as antigas representações religiosas.

A desmistificação dos dogmas pelo racionalismo, proporcionando a possibilidade de uma interpretação pessoal dos textos sagrados, e a necessidade de uma nova moral religiosa que atendesse aos interesses econômicos da burguesia em ascensão (já que a Igreja Católica condenava a usura, a avareza, a cobiça, e defendia a doutrina do “justo preço”, o que contrariava o ideal burguês de obtenção do maior lucro possível), possibilitou a chamada Reforma Protestante.

A ética protestante, ao contrário da católica, valorizava a competitividade e a busca do lucro, ajustando-se, portanto, aos ideais burgueses daquele momento histórico em que se desenvolvia o capitalismo, como afirma Max Weber[5]:

Mas o que era ainda mais importante: a avaliação religiosa do infatigável, constante e sistemático labor vocacional secular, como o mais alto instrumento de ascese, e ao mesmo tempo, como o mais seguro meio de preservação da redenção da fé e do homem, deve ter sido presumivelmente a mais poderosa alavanca da expressão dessa concepção de vida que aqui apontamos como espírito do capitalismo“. (WEBER, 1989, p. 123).

            Por este motivo, aos poucos, a Igreja Católica Romana precisou rever suas concepções e adequar-se a essa nova estrutura social, política e econômica com uma nova mentalidade, cada vez mais distante da medieval (Contra Reforma). Estas mudanças caracterizaram-se por um movimento de reafirmação dos princípios da doutrina e da estrutura da Igreja, corrigindo, desde o seio da Igreja, as fontes de descontentamento que alimentavam a Reforma Protestante.

         As instituições religiosas, contudo, perdem o poder de dar “as cartas” no mundo moderno; já não possuem a hegemonia da cultura, do Estado e das instâncias reguladoras do cotidiano. Nesta nova realidade, não era mais a religião que dava sentido ordenador da realidade social, com suas mediações, mas a própria interdependência de escolha racional centrada no ser humano. Deus estava agora presente na natureza, portanto no próprio homem, que poderia agora descobri-lo através da razão. Para encontrar Deus, bastaria levar uma vida piedosa e virtuosa (moral kantiana); a Igreja torna-se dispensável.


[1] A secularização de uma sociedade, em seu sentido radical, pode ser entendida como um processo pelo qual a religião deixa de ser a forma de integração da cultura, particularizando-se. Ela faz com que tal sociedade já não esteja mais determinada pela religião, mas restrita a um âmbito particularíssimo do ser humano.

[2] René Descartes (15961650), também conhecido como Cartesius, foi um filósofo, um físico e matemático francês. Notabilizou-se sobre tudo pelo seu trabalho revolucionário da Filosofia, tendo também sido famoso por ser o inventor do sistema de coordenadas cartesiano, que influenciou o desenvolvimento do Cálculo moderno.

[3] A filosofia positiva de Comte nega que a explicação dos fenômenos naturais, assim como sociais, provenha de um só princípio. A visão positiva dos factos abandona a consideração das causas dos fenômenos (Deus ou natureza) e torna-se pesquisa de suas leis, vistas como relações abstratas e constantes entre fenômenos observáveis.

[4] Isidore Auguste Marie François Xavier Comte (17981857) foi um filósofo francês e o pai da Sociologia.

[5] Ele foi, juntamente com Karl Marx e Emile Durkheim, um dos modernos fundadores da Sociologia. É conhecido, sobretudo pelo seu trabalho sobre a Sociologia da religião. Escreveu a Ética protestante e o espírito do Capitalismo, nesse seu trabalho ele tinha a intenção de examinar as implicações das orientações religiosas na conduta econômica dos homens, procurando avaliar a contribuição da ética protestante, em especial o calvinismo, na promoção do moderno sistema econômico.

IV – A instituição religiosa em meio à pós-modernidade.

            Mircea Eliade, em seu livro O sagrado e o Profano, a essência das religiões, afirma que “seja qual for o grau de dessacralização[1] que o mundo tenha chegado, o homem que optou por uma vida profana não consegue abolir completamente o comportamento religioso” (Mircea Eliade, 2001, p. 27).

A moderna humanidade que passou por um grande processo de dessacralização e secularização, não conseguiu proporcionar um mundo mais justo através da razão. O avanço teológico e a ciência, em vez de proporcionarem a solução de todos os males da sociedade, mostraram-se incapazes de superar as contradições da convivência social. O desenvolvimento do capitalismo “selvagem”, as duas grandes guerras mundiais, a utilização da bomba atômica, os riscos da industrialização para a ecologia, entre outros, mostrou a ineficácia da razão como “salvadora da pátria”, fez-se então necessário um retorno aos antigos referenciais que tinham sido ignorados na modernidade; é neste contexto que nasce o que chamamos de pós-modernismo, como afirma Eduardo Subirats:

“Em torno de todo jargão do Pós-moderno desenvolvem-se atitudes culturais de signo regressivo. Assim se passa com o nacionalismo que se ampara por detrás dos historicismos nostálgicos ou dos diferentes regionalismos; assim, a busca de valores substanciais, de uma ordem ética ou estética transcendente, através da reivindicação do tradicional, do retorno a formas de pensamento religioso e da defesa de uma autonomia de princípios morais também de signo transcendente”. (SUBIRATS, 1991.).

            As igrejas tinham encastelado Deus a tal ponto que ele se tornou impotente diante das necessidades do mundo. Este período é então caracterizado pelo aumento da insegurança (pois todas as certezas em que estava embasada a sociedade “caíram por terra”), do relativismo de qualquer conhecimento (negação de verdades universais da racionalidade), da globalização e da retomada do interesse pelas concepções religiosas, como uma tentativa de “achar um sentido do mundo acessível à compreensão humana” (Max Weber 1922, p. 625). O retorno da religião (sentimento religioso) neste aspecto pode ser visto como um fenômeno periódico que se utiliza à religião em função de exigências de natureza social, como afirma Franco Crespi:

“De fato, a religião se apresenta como uma forma de mediação especifica, que leva em conta o caráter ilimitado do desejo humano e explica o mundo finito, colocando-o em relação com o horizonte infinito de um além-mundo, que assim se torna parte constitutiva da própria vida terrena”. (CRESPI, 1999, p. 15).

            Embora as instituições religiosas, neste momento, continuassem não possuindo poder de regular o universo cultural, social e pessoal, os indivíduos continuaram a viver dimensões do sagrado de formas bem particulares (subjetividade), podendo ser estas dimensões observadas nas atitudes políticas, esportivas e culturais, ganhando assim uma nova dinâmica fora das Igrejas, tornando-se mais presente do que nunca na sociedade contemporânea ( nas Ong’s, manifestações culturais, associações comunitárias, no Greenpeace, nos clubes esportivos, etc.). Esta dimensão do sagrado é fortemente caracterizada por um retorno ao sentimento religioso (mostrado na primeira parte deste artigo), ou seja, um retorno às experiências emocionais, mesmo que o individuo não seja consciente do fato, como podemos observar na colocação de Mircea Eliade:

“Existem, por exemplo, locais privilegiados, qualitativamente diferente dos outros: a paisagem natal ou sítios dos primeiros amores, ou certos lugares na primeira cidade estrangeira visitada na juventude (…) são os “lugares sagrados” do seu universo privado (…)” (Mircea Eliade, 2001, p. 28).

Com o enfraquecimento da religião institucional, já pré-anunciada pelos teólogos da morte de Deus[2], o ser humano sente-se agora livre para buscar, de forma autônoma, seu próprio universo de significações em um mundo fragmentado (sincretismo[3]). “Assim, o pluralismo religioso torna-se, simultaneamente, fator e resultado da secularização” (PIERUCCI, 1997, p. 115), abrindo caminho para a concorrência entre diversas instituições religiosas que se lançam em uma competitividade, utilizando-se das mesmas operações da economia de mercado capitalista e fazendo com que a religião, que no período medieval moldava o mundo, seja moldada pelo “gosto do freguês”.

          O que resta na sociedade pós-modernista é a presença simultânea de várias instituições religiosas (cristãs ou não), convivendo entre si, não mais influenciando o todo social, pois os seres humanos não se identificam mais com discursos universais, mas atuando de maneira coadjuvante, influindo, ainda que em menor escala, os fundamentos da sociedade.

São nesses momentos de “morte” institucional que a experiência religiosa ganha novos sabores.


[1] A dessacralização do mundo é uma característica fundamental da Modernidade, já que impulsiona o processo de secularização.

[2] Nos anos 60 surgiu nos Estados Unidos uma formulação teológica conhecida exatamente como “teologia da morte de Deus”. A frase “Deus está morto”, aponta para uma constatação, a saber, a morte de valores absolutos na sociedade.

[3] Sincretismo Palavra originada do grego; significa sistema que consiste em conciliar os princípios de várias doutrinas ou filosofias.

Considerações finais

            Como foi dito, a religião continua a existir na pós-modernidade nos ritos, crenças e atividades, grupos e projetos não explicitamente religiosos. As tradições continuam atuando conforme a subjetividade de cada indivíduo. A religião passa a existir na intimidade, produto da construção pessoal subjetiva e autônoma que não necessita prestar contas a uma instituição. É o fim da religião totalizante da sociedade, contudo, não significa o fim da religião na particularidade de cada indivíduo.