Na Berlim pós-guerra, dois anjos perambulam pela cidade com a missão de acompanhar o dia-a-dia desta cidade. Invisíveis aos mortais, eles lêem seus pensamentos e tentam confortar a solidão e a depressão das almas que encontram. Entretanto, um dos anjos, ao se apaixonar por uma trapezista, deseja se tornar um humano para experimentar as alegrias de cada dia. Abdica assim da imortalidade angelical para experimentar, nem que por um espaço de tempo limitado, amar e ser amado – se permitir experimentar as últimas conseqüências do amor. Esta seria a sinopse do filme do diretor alemão Wim Wenders, Asas do Desejo. A história de um anjo que deixa sua visão de mundo preto e branco, para descobrir o colorido da vida através do amor.

Amor pode ser definido segundo um dicionário como afeição profunda; zelo, cuidado; Sentimento de apreciação por alguém, acompanhado do desejo de lhe fazer o bem (1Sm 20.17). O amor é a mais elevada qualidade cristã (1Co 13.13), devendo nortear todas as relações da vida com o próximo e com Deus (Mt 22.37-39). Esse amor envolve consagração a Deus (Jo 14.15) e confiança total nele (1Jo 4.17), incluindo compaixão pelos inimigos (Mt 5.43-48; 1Jo 4.20) e o sacrifício em favor dos necessitados (Ef 5.2; 1Jo 3.16). Todas as pessoas também possuem suas definições, as suas maneiras de enxergar o amor, sua maneira de sentir o significado desta palavra.

Uns dizem que é um sentimento e que por isso foge a nossa razão, daí as inúmeras loucuras de amor: marido que mata a esposa, namoradas possessivas, tatuagens no corpo como uma forma de eternizar a profundidade de tal sentimento; tudo vale em nome do amor; já parafraseando Fernando Pessoa que dizia “tudo vale a pena se a alma não é pequena”, poderia se dizer que “tudo vale a pena se o amor não é pequeno”.

A outros, todavia que são mais racionais não defendem o amor como sentimento, pois se assim fosse Deus não teria nos mandado, ordenado a nós amar as pessoas, uma vez que em relação a sentimentos não podemos dar ordens. Rubem Alves, por exemplo, tem uma visão de amor que me encantou muito (particularmente); ele diz que “a gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito… É na escuta que o amor começa”.

Seja como você encare o amor, sentimento ou não, algumas coisas podemos aprender sobre a arte de amar, o próprio Jesus nos deixou exemplo de amor quando morreu por todos nós sendo nós ainda pecadores e é pegando o exemplo de Cristo que eu quero compartilhar e tentar ver o amor por um outro prisma, que independente de ser sentimento ou não, amor é uma atitude.

Para tal, quero primeiramente defender que existem quatro tipos de pessoas e acima desses tipos de pessoas temos o exemplo de Cristo, que foi deixado como referencial a ser seguido (ou pelo menos tentado) por nós.

Existem as pessoas que não sabem amar e nem sabem ser amada. Geralmente, são os egocêntricos, aqueles que acham que estão no centro do universo, não precisam de ninguém e por isso as pessoas não têm importância. Não importa o que as pessoas façam nunca é o suficiente, não conseguem ver na simplicidade das coisas os atos de carinho e amor. Por outro lado, ela também acha que não precisa fazer nada, se as pessoas quiserem que venham ate ela, se não vierem quem está perdendo são elas.

 

O segundo grupo são aquelas que amam, mas não sabem receber amor. São os maus compreendidos, muitas vezes são taxados como secos, antipáticos. Amam profundamente, mas não sabem lhe dar com os atos de amor demonstrados para com ela, e por isso sofrem. Geralmente são pessoas que tem medo de se expor, medo de se decepcionar, tem dificuldade de entender que as pessoas tem capacidade dos mais lindos e ao mesmo tempo os mais terríveis atos para com o outro. Dificuldade de entender que a falha do outro não necessariamente significa falta de amor. Mas geralmente, esse tipo de pessoa tenta evitar receber qualquer demonstração de amor, pois teme que mais tarde venha a ter uma grande decepção com elas.

O terceiro grupo são aqueles que gostam de receber demonstrações de amor, mas não sabem amar, ou demonstrar amor para com o outro. Eu sempre defendo uma teoria que diz “trate o próximo como ele gostaria de ser tratado e não como você gostaria de ser tradada” pois o outro não é você, o que você gosta não necessariamente é o que o outro gosta. Geralmente esse grupo de pessoas é tido de certa forma como egoístas, que só esperam receber e nunca tem nada a oferecer ao outro. Como dizia a minha mãe é sempre “venha a nós o vosso reino”.

Mas ainda há um quarto grupo, que tenta observar o exemplo de Cristo e entende que o quanto é importante tanto o amar como o saber ser amado. Cristo tanto nos deu exemplo de como se deve amar, e como receber amor, para que assim a comunhão entre as pessoas seja plena. Não existe nada melhor do que amar e se sentir amado; nada melhor do que dar amor e saber receber cada gesto de amor, percebendo acima de tudo que amor é atitude, é uma ação que eu pratico para com o outro, e/ ou uma ação que identifico como tal para comigo. Vejamos o exemplo de Cristo:

CRISTO SOUBE RECEBER E PERCEBER AS DEMONSTRAÇÕES DE AMOR

Para saber receber demonstrações de amor é preciso primeiramente entender que qualquer pessoa é capaz de amar, e demonstrar isso para conosco, independente de raça, situação financeira, profissão, etc. mesmo que os outros digam que impossível que tal sentimento possa sair daquela pessoa.

Lucas 7:37-38 – E eis que uma mulher pecadora que havia na cidade, quando soube que ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com bálsamo; e estando por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas e os enxugava com os cabelos da sua cabeça; e beijava-lhe os pés e ungia-os com o bálsamo.

Jesus entendeu a atitude daquela mulher com um ato de amor, todos estavam admirados como Ele poderia permitir que uma mulher como aquela, prostituta, o tocasse daquela forma. Mas Jesus atentou não para que os outros diziam a respeito daquela mulher e sim para a sua atitude identificando amor e por isso recebeu tal gesto daquela mulher.

Saber receber amor é identificar o esforço do próximo em agradá-lo e com isso se aproximar dele, conversar e quem sabe ajudá-lo na sua dificuldade.

Lucas 19:2-9 – Havia ali um homem chamado Zaqueu, o qual era chefe de publicanos e era rico. Este procurava ver quem era Jesus, e não podia, por causa da multidão, porque era de pequena estatura. E correndo adiante, subiu a uma árvore a fim de vê-lo, porque havia de passar por ali. Quando Jesus chegou àquele lugar, olhou para cima e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa; porque importa que eu fique hoje em tua casa. Desceu, pois, a toda a pressa, e o recebeu com alegria. Ao verem isso, todos murmuravam, dizendo: Entrou para ser hóspede de um homem pecador. Zaqueu, porém, levantando-se, disse ao Senhor: Eis aqui, Senhor, dou aos pobres metade dos meus bens; e se em alguma coisa tenho defraudado alguém, eu lho restituo quadruplicado. Disse-lhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, porquanto também este é filho de Abraão.

Jesus viu o esforço de Zaqueu em querer vê-lo e identificou esta atitude como um ato de amor de Zaqueu por Ele. Sendo assim, foi ate a sua casa, mesmo com todos os comentários maldosos, e trouxe o auxilio que Zaqueu tanto precisava: a salvação.

Saber receber amor é ver nas coisas mais simples as mais lindas expressões de amor.

Mateus 19:13-14 – Então lhe trouxeram algumas crianças para que lhes impusesse as mãos, e orasse; mas os discípulos os repreenderam. Jesus, porém, disse: Deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, porque de tais é o reino dos céus.

Existe coisa mais simples do que os atos de uma criança? Jesus, diferentemente dos discípulos, viam nas atitudes das crianças uma verdadeira demonstração de amor, mesmo em sua simplicidade. Sem palavras elaboradas, dinheiro, independência, entre outras coisas, Jesus percebia nas pequenas atitudes demonstrações de amor.

CRISTO SOUBE AMAR AS PESSOAS

Quem ama não vê somente a sua condição, mas mesmo na dificuldade consegue ver a necessidade do outro e tenta ajudar, amor é atitude.

Mateus 14:14-16 – Jesus, saindo, viu uma grande multidão, e possuído de íntima compaixão para com ela, curou os seus enfermos. E, sendo chegada a tarde, os seus discípulos aproximaram-se dele, dizendo: O lugar é deserto, e a hora é já avançada; despede a multidão, para que vão pelas aldeias, e comprem comida para si. Jesus, porém, lhes disse: Não é mister que vão; dai-lhes vós de comer.

Jesus tinha acabado de receber a notícia de que seu primo João Batista havia sido degolado. Fico imaginando a dor que uma morte traz a gente e tento imaginar como deveria estar o coração de Jesus ao ouvir esta notícia. Mas mesmo diante da dor da perca do ente querido, Jesus reserva tempo para se compadecer da multidão. Jesus olha para a necessidade da multidão e a coloca como prioridade naquele momento. Moral da história, o seu problema nem é o maior e nem o único no mundo.

Quem ama não espera retorno. Ama incondicionalmente, seu amor não está baseado em troca de favores e sim em um bem estar consigo e com Deus.

Mateus 5:44 – Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;

Quando Jesus ministrou este ensino aos seus discípulos, Ele falava daquilo que lhe era próprio, não era uma frase pronta, mas Ele mesmo vivenciou e praticou este ensino em sua vida. Ele tinha vindo para os seus, porém os judeus não o receberam. Ele podia então acabar com tudo naquele instante, pela ingratidão do povo, mas Ele fez o contrário; onde abundou o pecado superabundou a graça, em vez dele revidar a ingratidão do povo, Ele estendeu o seu maravilhoso convite a TODOS o quanto o receberem.

Quem ama se doa para ver o bem estar do outro.

João 3:16 – Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

A humanidade estava condenada em seus pecados, não havia salvação para o ser humano, pois a queda o deixou de tal maneira que seria impossível ele dirigir-se a Deus pelos seus próprios méritos. Diante de tal situação, Deus envia Seu único Filho para que a condenação que estava sobre a humanidade fosse anulada. Jesus vem ao mundo encarnado, sabendo que o Seu papel era morrer, se entregar pela humanidade perdida, satisfazendo o princípio da substituição, já praticado desde Adão (Hb. 9:22). Esse amor era tanto que mesmo no momento da cruz, diante da dor, Ele olha p a humanidade se compadece dela e diz: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”.

Devemos observar o exemplo de Cristo, e aprender com Ele, é essencial para que uma igreja cresça sadia no amor fraternal. Devemos sempre estar disposto a demonstrar amor e abertos a receber e perceber as demonstrações de amor para que a igreja seja sempre o local onde todos nos sintamos bem acolhidos, um local onde sabemos que seremos bem recebidos e que podemos exercitar o amor.

Que possamos entender que todas as pessoas amam, que possamos observar o esforço das pessoas a nossa volta e perceber que na simplicidade o amor esta presente. Que o nosso amor não seja circunstancial, que possamos não esperar retorno e que possamos ser capazes de nos doar para o bem estar do próximo. Termino com a frase de Lord Alfred Tennyson, é melhor ter amado e perdido, o que nunca ter amado absolutamente.

O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem. (Romanos 12:9) Amém!

Cláudia Sales