Era uma vez, em um lugar mais perto do que possamos imaginar, um lindo reino; que como todo reino que se preze, tinha um rei e uma rainha que para a tristeza da corte, não podiam ter filhos. Porém, após anos de espera, a fada marinha das rainhas desoladas (e porque não dizer das causas impossíveis), resolveu visitar aquele reino e conceder o desejo mais profundo do coração daqueles soberanos. Desse desejo nasceu uma linda princesinha.

Para proteger tal princesinha, e poupá-la dos males da vida, poupá-la de contemplar a fome, a miséria, as desigualdades, as injustiças, a violência e a discriminação, esta foi colocada em uma torre bem alta, feita com pedras resistentes, que faziam suas paredes medirem mais de dois metros de espessura. Possuía esta torre terrível, no entanto, uma linda janela onde se podia contemplar uma vista maravilhosa: rio, montanhas, árvores frutíferas, flores desabrochando na primavera, animais no pasto, o nascer e o pôr-do-sol, a lua e as estrelas.

Desde a mais tenra infância, a princesinha só conhecia como mundo a sua torre, onde se sentia segura e onde o tempo parecia não fazer muita diferença… muitos aniversários, páscoas, natais foram celebrados ali e sem perceber a princesinha ia se tornando uma linda jovem.

Para passar o tempo, a jovem princesinha se deliciava de incríveis livros que contavam histórias fabulosas de heróis que roubavam dos ricos para dar aos pobres, de um menino que se recusava a tornar-se adulto e de bruxas malvadas que envenenavam princesinhas com deliciosas maçãs. Com tudo isso, porém, a jovem princesinha tinha um vazio inexplicável, vazio este semelhante à saudade do que nunca possuímos…

Certo dia, de sua janela, ela pôde contemplar um jovem camponês. Seu coração foi então imediatamente arrebatado. Experimentou um sentimento nunca antes imaginado, suava frio, suas pernas tremiam, seus olhos marejaram de lágrimas; algo inexplicável, contudo, a muito esperado…

Havia uma tradição, por ocasião de seu aniversário, em que a jovem princesinha poderia pedir o que quisesse, seu desejo era uma ordem a ser realizada. Poderia pedir tudo: palácios, riquezas, jóias, roupas, brinquedos, livros… tudo poderia ser seu com apenas uma ordem. No entanto, naquele ano, ela não pediu jóias, nem roupas, nem livros, nem palácios. Seu desejo era conhecer aquele camponês que outra hora arrebatara seu coração, e a permitiu experimentar do inexplicável sentido do que é viver.

O soberano rei e sua rainha falaram a jovem princesinha dos inúmeros perigos que poderiam acontecer a ela caso resolvesse sair de sua torre e da tristeza que então sobreviria sobre aquele reino. Mas irredutível, ela ousou correr o risco de abandonar aquelas velhas e robustas paredes que a protegiam, a fim de experimentar nem que por uma só tarde, o sentimento outrora aflorado.

O jovem camponês levou a princesinha a lugares que antes ela só podia contemplar de sua janela. Ela pode descobrir o prazer refrescante de um banho de rio, a alegria marota de subir em uma árvore e se deliciar de seus frutos, sentir o calor contagiante dos animais do campo – pássaros, borboletas, cavalos, coelhos, etc. Contemplou o mais lindo pôr-do-sol que já tinha visto acalentada pelo calor de um beijo e a maciez dos braços daquele camponês que a fez descobrir o prazer de amar.

De volta ao seu lar, a jovem princesinha não sentia mais satisfação na torre que a privava das maravilhosas delícias da vida, descobre que por trás de tamanha proteção se estabelecia uma verdadeira prisão. Prisão esta semelhante ao sono profundo da Branca de Neve, onde se constatou que, uma linda suculenta e inofensiva maçã, poderia na verdade esconder um letal veneno.

Ousadamente pediu aos seus pais que a deixassem viver com aquele jovem camponês que lhe mostrou a beleza da vida na simplicidade de um banho de rio, na brincadeira de subir em árvores, de comer de seus frutos, de assistir o pôr-do-sol ao lado de quem se ama.

Contrariados, porém, seus pais tentaram, sem sucesso, mostrar que a torre na qual ela vivia era mais segura e demonstrava o amor e o cuidado que eles tinham para com ela. Disseram que se ela abandonasse de vez a torre, deixaria de ser uma princesinha e não seria mais permitido a sua volta, seria considerada então por todos da corte uma rebelde.

No entanto, acordada agora pelo beijo de seu príncipe encantado, a jovem princesinha, que agora deixara de ser princesa, saiu à procura de seu amor… mas ele não estava mais lá… Descobriu que o jovem camponês tinha sido assassinado por seus próprios pais a fim de protegê-la e trazê-la de volta ao reinado. A princesinha então descobriu que por trás de muitos discursos de amor e cuidado existe muita maldade e opressão, muita morte ao invés de vida, muita dor ao invés de alegria.

Todos os dias a princesinha, que já não era mais princesa, ia para a margem do rio descansar a sombra de uma árvore para esperar o pôr-do-sol. Ela sabia de uma lenda antiga que dizia que alguém contemplasse uma estrela cadente caindo nas águas durante o pôr-do-sol, o desejo mais profundo do coração dessa pessoa poderia ser realizado.

E o sonho mais desejado da jovem princesinha era esse: que um dia ela pudesse sentir, nem que por mais uma vez, o sabor ardente do beijo apaixonado do seu camponês, que lhe ensinou a sentir a vida com intensidade ao invés de deixá-la simplesmente passar despercebida. E para isso acontecer, valeria a pena viver todos os dias que a restassem, valeria sonhar todos os sonhos um dia idealizados a eles, valeria continuar acreditando que mais vale o sabor e a dor de amar intensamente, do que nunca ter amado.

Cláudia Sales