janeiro 2008


FÉ, EXPRESSÃO E CULTURA:

Por uma liturgia de afirmação às raízes étnicas e culturais afro-descendentes.

Cláudia Sales de Alcântara[1]

A Liturgia é a expressão de situações concretas de pessoas e que, portanto, fala muito de seus sofrimentos, alegrias e esperanças, fazendo com que a fé assuma características próprias. Dessa forma, quanto mais elementos e matrizes culturais tiver uma liturgia, mais rica ela será.

Apesar do número significativo de negros na população brasileira, a igreja protestante, conhecida hoje como evangélica, não tem observado a riqueza cultural que esta matriz possui e pode proporcionar à liturgia dos cultos evangélicos. De modo geral, as liturgias das Igrejas ditas evangélicas no Brasil são brancas e o negro para ter acesso a elas tem que sofrer um processo de branqueamento.

É por isso que surge este artigo, uma proposta litúrgica de afirmação às raízes étnicas e culturais afro-descendentes, para que também as igrejas evangélicas possam avançar neste sentido e enriquecer seus cultos da beleza negra brasileira.

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Eu tava encostad’ali minha guitarra
No quadrado branco, vídeo, papelão
Eu era o enigma, uma interrogação
Olha que coisa mais, que coisa à toa, boa boa boa boa
Eu tava com graça…
Tava por acaso ali, não era nada
Bunda de mulata, muque de peão
Tava em Madureira, tava na Bahia
No Beaubourg, no Bronx, no Brás e eu e eu e eu e euneguinha_21.jpg
A me perguntar
Eu sou neguinha?
Era uma mensagem
Parece bobagem, mas não era não
Eu não decifrava, eu não conseguia
Mas aquilo ia e eu ia e eu ia e eu ia e eu ia
Eu me perguntava: era uma gesto hippie,
um desenho estranho
Homens trabalhando, pare, contramão
E era uma alegria, era uma esperança
E era dança e dança ou não ou não ou não
Tava perguntando: Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha! Eu sou neguinha!

Eu tava rezando ali completamente
Um crente, uma lente, era uma visão
Totalmente terceiro sexo, totalmente terceiro
mundo, terceiro milênio
Carne nua nua nua nua nua
Era tão gozado
Era um trio elétrico, era fantasia
Escola de samba na televisão
Cruz no fim túnel, becos sem saída
E eu era a saída, melodia, meio-dia, dia, dia
Era o que eu dizia: Eu sou neguinha?
Mas via outras coisas: via um moço forte
E a mulher macia den’da da escuridão
Via o que é visivel, via o que não via
E o que a poesia e a profecia não vêem, mas
vêem, vêem, vêem, vêem
É o que parecia
Que as coisas conversam coisas supreendentes
Fatalmente erram, acham solução
E que, o mesmo signo que eu tento ler e ser
É apenas o possível ou o impossível em mim em
mim em mil em mil
e a pergunta vinha:
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha…

composição: Caetano Veloso