FÉ, EXPRESSÃO E CULTURA:

Por uma liturgia de afirmação às raízes étnicas e culturais afro-descendentes.

Cláudia Sales de Alcântara[1]

A Liturgia é a expressão de situações concretas de pessoas e que, portanto, fala muito de seus sofrimentos, alegrias e esperanças, fazendo com que a fé assuma características próprias. Dessa forma, quanto mais elementos e matrizes culturais tiver uma liturgia, mais rica ela será.

Apesar do número significativo de negros na população brasileira, a igreja protestante, conhecida hoje como evangélica, não tem observado a riqueza cultural que esta matriz possui e pode proporcionar à liturgia dos cultos evangélicos. De modo geral, as liturgias das Igrejas ditas evangélicas no Brasil são brancas e o negro para ter acesso a elas tem que sofrer um processo de branqueamento.

É por isso que surge este artigo, uma proposta litúrgica de afirmação às raízes étnicas e culturais afro-descendentes, para que também as igrejas evangélicas possam avançar neste sentido e enriquecer seus cultos da beleza negra brasileira.

O BRASIL, UM PAÍS MESTIÇO

A nação brasileira foi basicamente formada pela miscigenação do branco europeu (principalmente o português), pelo índio e pelo negro. Ao lado dos elementos índio e negro, e o branco português, outros europeus vieram para cá, mas tiveram pouca vivência e influência, razão pela qual não serão abordados neste artigo. Ainda sobre assunto, Carl Joseph Hahn afirma:

Ao contrário das Américas, seu sangue europeu limitou-se, durante os três primeiros séculos, quase que exclusivamente ao português. Este sangue europeu, mais o africano e o indígena misturaram-se livremente numa nova linha sanguinea desde os inícios mesmos da imigração européia (HAHN, 1989, p. 47).

Os índios eram, sem dúvida, os primeiros habitantes do Brasil e estavam espalhados por todo país na época de seu “descobrimento”. Os portugueses, por sua vez, vieram de várias regiões de Portugal e também das ilhas dos Açores e da Madeira. Os negros, por fim, foram trazidos para o Brasil devido a utilização da mão-de-obra escrava, ainda no século XIV.

Em pouco tempo, índios (especificamente as índias), mulheres de portugueses, soldados, colonos e administradores criavam seus filhos mamelucos[2] em uma miscigenação de culturas e de crenças, religião e superstições. A religião animista indígena misturou-se facilmente com a macia e lírica religião católico-romana portuguesa, como diz Darcy Ribeiro:

Os iberos, ao contrário, se lançaram à aventura no além-mar (…) Certos de que eram novos cruzados cumprindo uma missão salvacionista de colocar o mundo inteiro sob a regência católico-romana. Desembarcavam sempre desabusados, acesos e atentos aos mundos novos, querendo fluí-los, recriá-los, convertê-los e mesclar-se racialmente com eles (…) (RIBEIRO, 2006, p. 60).

E para completar esse processo de miscigenação, os negros que foram trazidos ao Brasil de forma violenta, arrancados de seus lares, foram batizados em massa na fé portuguesa católico-romana, compartilhando seus talentos, crenças e características para as demais etnias existentes no Brasil.

Estas são as questões fundamentais para compreender o processo de formação da nação brasileira com todas as implicações que estão agregadas a ela, como dizia Darcy Ribeiro:

Nós, brasileiros, nesse quadro, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na ninguendade. Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros. Um povo, até hoje, em ser, na dura busca de seu destino. Olhando-os, ouvindo-os, é fácil perceber que são, de fato uma nova romanidade, uma romanidade tardia mas melhor, porque lavada em sangue índio e sangue negro (RIBEIRO, 2006, p. 410).

A nação brasileira é, portanto, uma nação mestiça e sincrética em suas práticas religiosas, uma nação presenteada com uma rica flora e fauna, uma nação multicor. Uma nação que possui um pouco de cada uma das civilizações que por aqui chegaram, como diz Gilberto Freyre, “todo brasileiro, mesmo o mais claro e louro, traz consigo, em sua alma, quando não no corpo também (…) a sombra, ou ao menos a marca de nascença do índio ou do negro” (FREYRE, apud: HAHN, 1989, p.53).

O NEGRO E AS IGREJAS PROTESTANTES

Os negros foram transportados da África para o Brasil em porões dos navios negreiros. Eles eram amontoados, mal-alimentados, sofriam castigos e eram mantidos em completa promiscuidade. Muitos morriam na viagem, somente os mais fortes conseguiam chegar em terras brasileiras; a força deles foram o preço de sua escravidão.

O Brasil recebeu 37% de todos os escravos africanos que foram trazidos para as Américas, totalizando mais de três milhões de pessoas. Durante o período colonial, a escravidão era a base que sustentava a economia do Brasil, principalmente na exploração de minas de ouro e nas lavouras de cana-de-açúcar. Por vários séculos, desde o ciclo da cana-de-açúcar (séculos XVI e XVII), até o ciclo do café (séculos XIX e XX), o negro foi o braço sustentador da economia brasileira, estando presente em todas as atividades econômicas fundamentais do país. Para termos uma idéia da importância da mão-de-obra escrava para a economia brasileira, somente no período de 1820 à 1860, o Brasil recebeu 1.200.000 negros escravizados, mais que o dobro da quantidade recebida por toda a América espanhola no mesmo período.

Os escravos assistiram à chegada dos primeiros protestantes (protestantismo de invasão), viram suas crenças, costumes e fé, contudo os primeiros protestantes que aqui chegaram viam o negro apenas como uma indispensável força de trabalho, barata e muito rentável.

Pelo fato de serem diferentes dos brancos, dos cristãos e dos europeus, foram tratados com desigualdade, discriminados. A diferença de raça, de religião e de cultura não foi vista pelos colonizadores como riqueza humana. Grande equívoco: a diferença foi considerada como inferioridade! (BOFF, 1997, p. 19).

Durante o período missionário protestante (protestantismo de missão), entre os anos de 1850 e 1900, os protestantes buscaram formar entre seus adeptos uma forte consciência de ser “diferente”, ou em outras palavras, “anticatólico”, o que gerou no meio do protestantismo uma tendência religiosa firmada na negação e oposição à religião tradicional, arcaica, praticada e vivenciada anteriormente, para abrir-se para o novo, para o moderno, entrando no mundo das letras, a Bíblia. Nessa nova visão religiosa as pessoas passavam a viver a experiência da conversão sinalizada por uma ruptura com o catolicismo (RIBEIRO).

Esses missionários que – introduziram também outra cultura, marcada pelo estilo de vida norte americana – vieram tanto do Norte como do Sul dos Estados Unidos, trouxeram consigo profundas divergências teológicas e políticas. Os do Norte tinham conceitos teológicos e idéias liberais, eram contra a escravidão. Os do Sul eram ortodoxos intérpretes das Escrituras Sagradas – “fundamentalistas” – a escravidão era tida como uma instituição ordenada por Deus. Para os missionários do Sul o negro era um descendente de Caim, amaldiçoado por Deus para sempre. O servo do servo de seus irmãos (VIEIRA). Nesse contexto, em meio a tantas divergências teológicas e políticas, muitos no Brasil foram convertidos através de uma pregação influenciada pelo fundamentalismo que além de resistir ao catolicismo, tinha conceitos e preconceitos contra os negros, o que levou as Igrejas Protestantes a estigmatizar e menosprezar a cultura e regiliosidade africana, tidas como satânicas. Veja o que diz o Pe. Antonio Aparecido da Silva:

Do púlpito à corte, as práticas religiosas de origem africana foram estigmatizadas e satanizadas, sofrendo, inclusive, a repressão policial. Graças unicamente à proteção divina e à resistência negra, permanecem hoje, mais florescentes que ontem. Mesmo com o clima mais favorável para o ecumenismo e o diálogo religioso que se criou após o Concílio Vaticano II, ainda são fortes os preconceitos e a distância de católicos e protestantes em relação à religiosidade de origem africana (SILVA, 1991, p. 99).

Até os dias de hoje, muitas igrejas protestantes conhecidas como históricas, não permitem que em seus cultos sejam utilizados instrumentos musicais ou ritmos que não sejam os trazidos pela tradição européia e norte-americana. O som do piano e do órgão é a música considerada a mais apreciada por Deus. Os ritmos, os sons de atabaques, tambores, chocalhos, são elementos profanos e pecaminosos, por originarem-se da cultura, e serem usados nos cultos afros, considerados inferiores e demoníacos. Esta visão tem suas raízes ideológicas na idéia de branqueamento que associava o negro a tudo o que é mau, feio e ruim, e o branco ao bom, bonito e perfeito. Como diz Marco Davi de Oliveira:

Assim, a liturgia constituiu outra barreira a que os negros no Brasil se aproximassem mais das Igrejas históricas. Com uma programação litúrgica que valorizava os ritmos europeus e norte-americanos, as denominações históricas demonstravam quanto se colocavam à margem da cultura negra do Brasil. (OLIVEIRA, 2004, p. 59).

Com o surgimento do pentecostalismo – com sua liturgia mas flexível, dinâmica e participativa – os negros encontraram tudo aquilo que eles precisavam para que se vissem como cidadãos e recuperassem a auto-estima. Ser negro e pentecostal no contexto pentecostal significava não ser mais praticante da macumba ou umbanda e aceito pelos demais “irmãos” brancos que o vê como um negro diferente dos demais, um negro de “alma branca”.

Mesmo as igrejas pentecostais possuindo como valores máximos a cultura ocidental européia e norte-americana, paradoxalmente, serão elas onde os negros mais se identificarão; é o pentecostalismo que proporcionará essa liberdade – de expressão e liturgia – a eles, fazendo com que os negros participem do culto, deixando de ser apenas meros ouvintes e espectadores. Entre as explicações para esse fenômeno, Marco Davi de Oliveira afirma que alguns aspectos contribuíram para isso:

(…) O primeiro, que salta aos olhos, é a utilização do corpo como instrumento de culto. Nas igrejas pentecostais, o corpo é usado livremente no momento da adoração, indo de palmas e danças até expressões incomuns, como rastejar no chão, abrir os braços numa posição de vôo, correr sem sair do lugar, etc. (…) O segundo aspecto que chama a atenção na liturgia pentecostal e que atrai os negros no Brasil é a musicalidade. (…) É muito difícil para um negro ouvir um ritmo que faça alusão à sua origem e ficar inerte. (…) Um último aspecto que pode ser identificado na liturgia pentecostal e que atinge, sobretudo, os negros é a força dos antepassados, embora essa questão não seja muito bem compreendida pela maioria dos evangélicos, tanto pentecostais quanto históricos.(…) Lembrar os antepassados – sem cultuá-los, naturalmente – é reconhecer a força cultural que privilegia os mais experientes, chamando-os sábios. (OLIVEIRA, 2004, p. 68-70).

São esses aspectos que vão constituir as “reminiscências” (OLIVEIRA), ou seja, as lembranças , os vestígios, de uma religiosidade africana, religiosidade esta, segundo Paulo Botas, antropocêntrica, pautada em experiências.

1. A epistemologia da teologia africana intui que a realidade só pode ser entendida por meio da experiência participativa (rituais e símbolos).

2. A ontologia intui que a realidade é holística – sem uma divisão clara entre matéria e espírito – e nela os poderes cósmicos da vida desempenham papel decisivo.

3. A hermenêutica intui que uma pessoa interpreta corretamente a sua religião e participa da experiência adequada. É fundamental interpretar as religiões outras a partir não apenas da experiência grega, européia ocidental, mas da africana, jamais contemplada para a leitura das outras religiões. (BOTAS, 1996, p. 23-24).

Apesar de tudo, vai ser o pentecostalismo que vai trazer uma liturgia mais próxima ao negro brasileiro, dando-lhe a oportunidade de cantar, dançar, orar, pregar, como todos os demais fiéis da congregação.

O BRANQUEAMENTO

A ideologia do branqueamento entrou em voga no Brasil, a partir na década de 30, com o objetivo de extinguir o seguimento negro brasileiro, pois existia um desejo que o país se tornasse branco o que seria conseguido com o cruzamento das raças. Durante muitos anos, o Brasil possuía a maioria da população negra, sendo assim, era visto como um país de mestiços. Por isso, foram usados vários instrumentos institucionais para que esta ideologia fosse implantada.

Um desses instrumentos foi a igreja protestante, conhecidas hoje como evangélica, que ainda é um instrumento de manutenção desta ideologia. A historia da igreja evangélica no Brasil sempre favoreceu os brancos em detrimento a tudo o que acontecia com os índios e negros. A igreja protestante chegou a solo brasileiro em plena escravidão e manteve-se omissa e conivente com as atrocidades que eram feitas.

Podemos analisar algumas estratégias que as igrejas protestantes, históricas e pentecostais, utilizaram para que se forjasse uma ideologia do branqueamento dentro das igrejas.

A Primeira delas é a teologia; teologia esta branca e racista, a começar por suas próprias origens – européia e norte-americana. Como exceção temos o Pentecostalismo que surge do avivamento iniciado pelo negro e filho de escravo William James Seymour, e que se aproximou dos mais pobres e negros logo que chegou no Brasil (OLIVEIRA), o que já mostra um certo avanço . Contudo, as igrejas pentecostais influenciadas pelo racismo demonizaram tudo o que era de origem negra. A nossa teologia é de origem racista. Por isto que até os dias de hoje vemos a descrição do pecado como a cor preta, o diabo da mesma forma, etc (é só ver algumas lições e cânticos infantis da APEC – Aliança Pró-Evangelização das Crianças).

A segunda coisa que podemos citar é a educação religiosa. Não se é falado em democracia racial em nossas escolas bíblicas, aliás, a educação religiosa de nossas igrejas passam longe de assuntos polêmicos que exijam o mínimo de reflexão; nossas igrejas fogem “como o diabo foge da cruz” de constrangimentos e de impossibilidade de respostas. Elas tentam sempre manter uma postura fundamentalista e dogmática de tudo. Isso não acontece apenas com a questão racial, mas com muitos outros assuntos tais como a sexualidade, o sexo, os desejos, atração e o prazer.

Uma última estratégia que poderíamos citar é a falta de referência, ou seja, poucos são os negros que ocupam posição de liderança, ou dirigem igrejas.

Todo esse contexto gerou, inclusive nas igrejas pentecostais, um grande número de casamentos inter-raciais. O desejo de aceitação em muitos casos fez com que se escolhesse o cônjuge pela cor de sua pele, falando mais alto do que o amor. Como afirma Marco Davi de Oliveira:

(…) o amor não tem raça, nem está preocupado com a cor da pele do ser amado. Quem ama, ama e pronto. Há a escolha pessoal, e isso é muito saudável. Porém é sabido que nem todos os casamentos nas igrejas pentecostais têm o amor como única motivação (…) a escolha de um cônjuge está, muitas vezes, circunscrita à cor da pele (2004, p. 87-88).

Esse tipo de ideologia fez com que por muito tempo se acreditasse que o branqueamento fosse o melhor caminho para se conquistar a ascensão social, inclusive dentro das igrejas.

O LADO “NEGRO” DO PENTECOSTALISMO

O pentecostalismo no Brasil é, apesar de negro, de origem norte-americana; sendo assim, sempre olhou de maneira preconceituosa as diversas manifestações culturais já existentes em solo brasileiro. O que aconteceu entre o pentecostalismo e os afro-descendentes no Brasil, equivale a imposição da cultura euro-americana pelos cristãos imperialistas aos países por eles colonizados, como afirma Brian McLaren:

(…) uma visão de substituição cultural; aniquilar as culturas associadas a outras religiões e substituir todas as memórias e artefatos delas com os ornamentos da religião dominante. É exatamente isso o que o cristianismo ocidental tem praticado de maneira menos explosiva, porém não menos real em nossa história. (2007, p. 280).

Ou ainda como foi citado David O. Moberg, em Missão Integral de C. René Padilla:

Temos equiparado o ‘americanismo’ com o cristianismo até o ponto de estarmos tentados a crer que as pessoas em outras culturas, ao converterem-se, devem adotar os padrões institucionais estadunidenses. Através de processos psicológicos naturais somos levados a crer inconscientemente que a essência de nosso American way of life é basicamente – senão totalmente – cristã (MOBERG apud: PADILLA, 1992, p. 28).

Desde sua gênese o pentecostalismo, e seu intuito de formar adeptos, possui uma forte característica que é a de “tirar” o fiel deste mundo, e isso implicava fortemente em ser contracultural, sectário e ascético. Com uma crença fundamentada na Segunda Vinda iminente de Cristo, e na dicotomia entre o bem e o mal, o céu e o inferno, o material e o espiritual, este não deveria jamais se interessar por “coisas mundanas”, se posicionando incisivamente contra a participação de cristãos em todo e qualquer tipo de manifestação artística e cultural. Para o pentecostalismo, a arte possuía como fator genético o pecado. Ser pentecostal nesse sentido, implicava em sacrifícios, penitências em troca de paz espiritual e certeza de salvação, devendo sempre estar alerta para uma série de proibições e tabus comportamentais.

Embora a igreja pentecostal possua uma origem negra, ela continuará a pensar como igreja estrangeira. Desta forma, além de ter aversão a tudo que é católico, vai também ojerizar todas as manifestações culturais brasileiras, indígenas e negras que vão ser confundidas com as manifestações católicas, logo consideradas ímpias, mundanas, diabólicas. Marco Davi de Oliveira afirma:

O primeiro princípio que notamos na Igreja Evangélica brasileira é que tudo que vem de matriz africana é coisa demoníaca. Na Igreja brasileira, já se convencionou considerar “do diabo” tudo que tem origem na África. (…) Outro princípio que tomou conta da Igreja brasileira em relação à origem africana dos negros é que os elementos que guardam semelhança com os aspectos culturais da África devem dar lugar àqueles originários de outros lugares, de outras culturas. (…) Um terceiro princípio que deve ser citado em relação à origem africana dos negros é que essa origem deve ser esquecida para não suscitar nenhuma divisão entre os evangélicos. Falar das questões raciais não é correto, nem se torna um testemunho adequado (2004, p. 94-96).

A proposta do pentecostalismo então, foi e é de um rompimento com o “velho homem”, deixando para trás toda herança cultural de origem, para se tornar uma “nova criatura”, abraçando a forma de celebrar e cultuar a Deus, importada culturalmente do hemisfério norte, o que não possibilita nenhuma forma de aceitação de elementos culturais afro-brasileiros, quer nas celebrações, quer na prática da vida diária. Arte, entretenimento e ociosidade formavam (ou ainda formam) o triângulo perfeito para a instalação da “oficina de Satanás”. Este conservadorismo exacerbado se estendeu por décadas e influenciou significativamente na formação de gerações completamente alienadas da arte e da cultura, de maneira geral, causando danos incalculáveis a cultura afro-descendente, que sofreu um processo de aculturação[3]

dentro dessas denominações, resultando em desvalorização, descaracterização e perca de identidade da cultura negra nas igrejas pentecostais.

O EVANGELHO, AS POLÍTICAS DE AÇÕES AFIRMATIVAS E A LITURGIA.

Ainda que a idéia de uma democracia racial seja um sonho não concretizado, atualmente, dentro de uma construção democrática das relações políticas e sociais, a nação brasileira esta implementando Políticas de Ações Afirmativas que possui o objetivo de reparar ou minimizar os danos historicamente causados aos afro-descendentes brasileiro, compensando-os no presente, pelos obstáculos que seus membros enfrentam, por motivo da discriminação e marginalização a que esses foram submetidos no passado

As igrejas de tradição protestante evangélica, tanto históricos, como pentecostais, contribuíram para que a situação de discriminação e marginalização dos negros no Brasil fossem por tanto tempo perpetuadas. Esta é uma dívida que temos que tentar contornar. Daí a idéia de uma liturgia de afirmação às raízes étnicas e culturais afro-descendentes, com o intuito de fazer valer o respeito cultural tão fundamental para a construção de uma sociedade igualitária, livre e democrática.

O evangelho é a revelação de Deus para o homem, ele é a expressão da redenção do homem através do relato da morte e ressurreição de Jesus. É a Palavra de Deus, escrita pelo homem dentro de um contexto e condicionada, como qualquer outra, aos aspectos culturais, literais e temporal. Contudo, como Palavra de Deus, contém todos os princípios éticos e morais que transcendem a qualquer época e cultura, pois se trata de princípios do Reino, que segundo Brian McLaren é “algo maior que a religião exclusiva territorial ou tribal e que está no cerne da mensagem de Jesus” (2007, p. 294).

Não encontramos na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento, Deus preferindo uma determinada raça ou etnia em detrimento de outra. Contudo, o cristianismo assimilou uma ideologia racista – negro como escravo do branco – do Império Romano, incorporando esse racismo à sua teologia, este pensamento era defendido inclusive pelos pais da Igreja.

Neste sentido, a inculturação[4] surge como algo necessário se quisermos que a nossa evangelização continue a ser um acontecimento de Boas Novas, e não um escândalo, ou ainda um veículo cultural estranho. Brian McLaren afirma:

(…) Falar sobre coisas diferentes não é contradizer um ao outro; é ter muito a oferecer um ao outro, pelo menos eventualmente.

Se como cristão devo amar meu próximo como a mim mesmo e tratar meu semelhante como gostaria de ser tratado, então, sem dúvida, uma de minhas tarefas em relação ao meu próximo de outra religião é valorizar tudo que é bom naquilo que ele me oferece como fruto de nossa proximidade – incluindo a oportunidade de aprender tudo o que eu poder sobre a sua religião. Outra tarefa é oferecer tudo o que eu tenho e que poderia ser de valor para ele – incluindo a oportunidade de aprender com a minha religião se ele puder. Isso não significa comprometer a minha fé ou a dele; trata-se de uma prática que ela mesma exige (2007, p. 282, 283).

Existem três áreas principais (desde o Concílio Vaticano II, no decreto sobre ecumenismo) onde devemos fazer esforços significativos para que a inculturação seja uma realidade: a liturgia, a espiritualidade e a reflexão teológica.

Inculturação não é adaptação. Está muito além de uma tradução da Bíblia de uma língua para outra. É uma reinterpretação dos conteúdos bíblicos, é um desafio que nos convida a estarmos abertos a novos e inusitados dinamismos hermenêuticos. Não é o engessamento da mensagem bíblica, através de tempos e épocas, culturas e costumes sem que haja permissão ao diálogo, da essência do conteúdo bíblico com a cultura a que se propõe o contato, sob pena de negar esta essência. Até pela razão inquestionável do aspecto encarnacional do evangelho, considerando que somos todos recipientes da mesma misericórdia, compartilhando do mesmo mistério. Portanto, no campo da reflexão sobre inculturação, a grande proposta está na prática do diálogo entre as diversas religiões. Como adverte Brian McLaren, a fim de evitarmos uma postura errada para com outra religião: “Nossa identidade cristã não deve nos deixar com medo, superiores, isolados, na defensiva, agressivos ou hostis às pessoas de outras religiões. Bem ao contrário.” (2007, p. 276). Significa cultivarmos um diálogo que se traduz em reciprocidade, igualdade de condições e de dignidade de parceiros. Como ele bem expressa:

Como um cristão generosamente ortodoxo, considero-me, não acima de budistas, muçulmanos e outros, mas abaixo deles, como um servo. Melhor ainda, considero-me com eles, como um próximo e um irmão. E estou aqui para amá-los, procurar compreendê-los e compartilhar com eles tudo de valor que encontrei ou recebi e que eles gostariam de receber também. Estou aqui para receber o dom deles para mim com igual alegria – desfrutar da vida no mundo de Deus com eles, rir, comer e trabalhar com eles, brincarmos uns com as crianças dos outros, segurar nos braços os bebês um do outro, dançar na festa de casamento um do outro e provar da hospitalidade um do outro. (…) No processo de nossa conversa contínua, espero que ambos, eles e eu, nos tornemos pessoas melhores, transformadas pelo Espírito de Deus, mais agradáveis a Deus, mais bênção para o mundo, para que o reino de Deus (que eu busco, mas não posso manipular) se estabeleça na terra assim como está estabelecido no céu (MCLAREN, 2007, p. 290, 291).

O Candomblé foi a religião trazida pelos escravos para o Brasil. De teologia essencialmente africana ela mantém o culto aos orixás[5], exercendo também um papel social de identidade para as comunidades negras no Brasil. É uma liturgia rica em suas celebrações e crenças e que ainda hoje conserva muitos símbolos africanos, tradições, e muitos elementos da cultura africana.

Contudo, apesar da riqueza que esta religião de origem africana possui, percebemos que ainda hoje existe muita discriminação da sociedade de um modo geral. O que vemos em nossos cultos é que, quando negros adentram no espaço litúrgico seja ele católico, ou evangélico, ele é embranquecido e dominado culturalmente. Isso fica claro pela ausência de traços afros na liturgia dessas denominações que adotam ainda hoje, os moldes culturais europeu e norte-americano. Um negro fiel não pode se reconhecer numa prática litúrgica que não assimila nada da sua cultura. Uma liturgia verticalizada e excessivamente racionalizada de matriz européia, ou norte-americana, não lhe diz nada a respeito às suas dores, seu cativeiro, suas lutas e resistência. Uma liturgia européia, norte-americana – do branco opressor – é a própria condenação, discriminação e domesticação do negro.

Uma liturgia para o negro é proporcionar um espaço de integração, reconciliação e harmonização, como acontece no terreiro de culto africano, espaço por excelência onde todas as pessoas, homens e mulheres, brancos, negros e amarelos, meninos e velhos, se reúnem em contato direto com a natureza, reconciliando-se com o Criador. São celebrações espontâneas, que foge da rigidez e simetria dos cultos tradicionais; não são livrescas, mas oral, sem explicações excessivas; ao som do atabaque, que para cultura negra é um instrumento sagrado, e muita dança.

Propomos uma Liturgia negra que vá além do instrumental – o que seria simples expressão folclórica – que assuma de fato os elementos culturais negros, alicerçada na vitória de Cristo, antecipando as alegrias da libertação. A Bíblia propõe então um cristianismo:

(…) acolhedor das outras religiões do mundo, e não uma ameaça. Deveríamos ser vistos como um protetor de suas heranças, um defensor de inimigos comuns, não um dos inimigos. Assim como Jesus veio originalmente não para destruir a lei, mas para cumpri-la, não para condenar as pessoas, mas para salvá-las, creio que ele vem hoje não para destruir ou condenar coisa alguma (nada, exceto o mal), mas para redimir e salvar todas as coisas que podem ser redimidas e salvas (McLAREN, 2007, p. 281).

Infelizmente, nas Igrejas pentecostais ainda não existe nenhum trabalho oficializado com relação ao negro. Existem algumas manifestações de pessoas e organizações oriundas dessas igrejas, mas sem nenhum vínculo com as denominações ou oficialização por suas lideranças. É um dado lastimável, uma vez que é nas igrejas pentecostais que se encontra a maior parcela de afro-descendentes, não por que esse segmento optou pelo negro, mais pelo negro ter optado pelo pentecostalismo, por paradoxalmente este ter se identificado melhor com essas denominações.

Precisamos, urgentemente, de uma leitura bíblica que desenvolva a cidadania à cultura negra afro-descendente. Para isso, devemos eliminar de uma vez por todas qualquer leitura que condene à população negra a escravidão e fazer uma leitura bíblica que afirme a igualdade de todas as raças e etnias, logo, contra a escravidão de qualquer indivíduo ou grupo étnico.

Este é o momento do negro descobrir e assumir sua negritude e assim, possuir uma nova postura diante de si, da vida e da sociedade refletindo numa fé, revolucionária e transformadora. Possuindo uma releitura bíblica, que percebe a proposta de Deus para a humanidade, onde os negros estão incluídos, poderemos ver Deus, no rosto negro cheio de esperança, esperança de libertação (SANT’ANA).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Concluímos que a nação brasileira é uma nação mestiça e sincrética em suas práticas religiosas, uma nação multicor que possui um pouco de cada uma das civilizações que por aqui chegaram e que o evangelho pode ser propagado sem abalar a cultura das etnias, povos e raças aqui existentes, pois o evangelho de Jesus não está contra a cultura de ninguém, mas reconhece e respeita as diferenças culturais, ressaltando-as, como prova da diversidade, da sabedoria e da criatividade de Deus na Criação.

Concluímos, também, que as igrejas de tradição protestante evangélica, tanto históricos como pentecostais, contribuíram para que a situação de discriminação e marginalização dos negros no Brasil fossem por tanto tempo perpetuadas e que temos uma dívida a pagar. Uma das maneiras de pagarmos essa dívida é propormos uma liturgia de afirmação às raízes étnicas e culturais afro-descendentes, com o intuito de fazer valer o respeito cultural tão fundamental para a construção de uma sociedade igualitária, livre e democrática.

Somente desta forma poderemos propor uma liturgia e uma teologia do negro, preocupada com o resgate de sua dignidade, criada à imagem e semelhança de Deus, para que possamos declarar que Deus que é contra toda injustiça e opressão e anseia por justiça, igualdade e liberdade.

REFERÊNCIAS

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[1] Arquiteta, teóloga e mestranda do curso de Educação Brasileira pela UFC.

[2] Mestiço de português e índio.

[3] Quando falamos de aculturação estamos nos referindo à absorção de uma cultura pela outra, onde essa nova cultura terá aspectos da cultura inicial e da cultura absorvida. Este conceito está fortemente associado à idéia de extinção, descaracterização ou desestruturação social-cultural e perda de identidade de um povo. Isso porque a aculturação supõe que uma cultura possui mais valor do que outra, do mesmo modo como a suposta superioridade de certas raças em face de outras. Sendo assim, esta se faz pela imposição ou insinuação de estilos de comportamento através de processos sociais formais e informais, diretos e indiretos.

Nesse contexto, o processo de aculturação é um molde social imposto por uma sociedade hegemônica sobre outra. Este molde pode acontecer de forma objetiva (imposição aberta, colonialista) ou de forma subjetiva (imposição baseada na atração e conseqüente desvalorização do sistema cultural materno em detrimento do apresentado), sendo ambas danosas.

[4] Inculturação é algo que sempre existiu na tradição bíblico-cristã, que nos nossos dias tem se tornado um dos temas centrais no contexto da renovação teológica, isso porque o cristianismo distanciou-se das realidades concretas da vida, tornando-se uma religião, ao mesmo tempo, anacrônica em relação à modernidade, e não respeitadora das múltiplas culturas existentes.

De maneira elementar refere-se a um método de acrescentar à sua cultura, aspectos culturais de um determinado povo, resgatando e acatando os elementos próprios da cultura, a fim de favorecer o surgimento, de seu próprio interior, de “expressões originais” da experiência cristã.

[5] Orixá quer dizer “Coroa Iluminada”; “Espírito de Luz”. O princípio mais evoluído existente em nosso sistema, manifestado através das forças da natureza. Existem sete orixás básicos: Oxoce (orixá da saúde, prosperidade, força, energia (ligada a saúde), farmacopéia (farmácia), nutrição), Ogum (orixá da energia (ligada a atitude), perseverança, vencedor de demanda, persistência, tenacidade, renascimento), Xangô (orixá da justiça e do conhecimento (estudo de maneira geral), equilíbrio das forças de um modo geral, ligadas a questões de Justiça), Omulu (orixá de transformação energética, de toda energia produzida de forma natural ou artificial, quer dizer, a energia natural é toda aquela emanada da natureza ou do nosso próprio pensamento e a artificial é a fabricada – oferendas), Iansã (orixá dos ventos, raios e tempestades. Responsável pelas transformações, (mutações e mudanças) ligadas às coisas materiais, fluidez de raciocínio e verbal, orixá intimamente ligada aos avanços tecnológicos), Iemanjá (orixá dos mares. Responsável pelos bens materiais, grande provedora e mãe. Senhora da Calunga Maior, portanto grande absorvedora de energias negativas) e Oxum (orixá do amor, da harmonia e da concórdia. Equilíbrio emocional. Senhora das águas doces, rios e cachoeiras).