Certo dia olhei no espelho e vi minha imagem muito nítida refletida. No dia anterior eu o tinha lavado com bastante capricho. Tirei manchas de batom e pasta de dente, a poeira e manchas que geralmente os respingos da água da torneira deixam. Ele estava simplesmente limpo! Foi aí que eu percebi… nossa, quanto eu mudei!

Não estou me referindo a crise dos trinta anos – que para ser sincera ainda não engoli – aquela sensação de não estar mais na casa dos vinte; nem estou falando dos quilinhos a mais que deixaram minhas formas mais ‘barrocas’; nem das linhas de expressão que antes eu nunca tinha notado. Olhava fixamente minha imagem no espelho e pensava: meu Deus, como eu mudei!

Não me reporto também aos apelos estéticos que geralmente nós mulheres fazemos. Não estava me referindo aos meus cabelos com menos cachos devido a “escova inteligente” que a dona Francisca fez; nem aos inumeros produtos para maquiar que tenho – rímel, lápis, sombra, blush, delineador, batom, gloss, pó compacto, base e tantos outros que não me recordo agora. Estava com a cara limpa e olhava para aquela imagem no espelho e quase não me reconheci.

Não era também culpa da luninosidade. Alguém pode estar pensando que tinha pouca luz, ou que a lâmpada não ajudava, ou ainda que teria naquele exato momento faltado energia elétrica – o que impossibilitaria de reconhecer minha imagem. Não! Definivamente, era uma bela manhã de sol cearense. O Sol estava perfeito naquele dia, tanto que notei o que nunca tinha percebido em mim.

Todos os dias quando acordo, olho para o lado esquerdo do colchão para ver se o marido já saiu para o trabalho, me levanto, falo com minhas cadelas e vou ao banheiro para escovar os dentes. Mas antes de escovar, me encosto na pia e me olho no espelho. Fico lá parada uns trinta segundos antes de pegar a escova. Diariamente via-me sem perceber nada diferente. Até aquela manhã.

Naquele dia percebi o quanto tinha mudado!

Vi no espelho uma imagem quase que deformada e perguntava:

– Por que fiquei assim? Por que quase não me reconheço mais? Por que deixei que meu semblante defigurasse a esse ponto? O que eu poderia ter feito? Que escolhas eu deixei de fazer? Em que figura estou me tranformando?

Fiquei estática. Imóvel. Catatônica. Simplesmente não aceitei o fato de ter me permitido ficar semelhante a tudo aquilo que outrora afirmava ser desprovido de beleza.

Eu pude ver!

Tinha me descuidado; tinha me deixado levar pelas palavras, sem ação. Como elas conseguem desfigurar um ser humano! Isso porque elas transformam um idealizador em um mentiroso; num hipocrita; num cínico. Meu Deus, não conseguia me ver!

Quando eu estava para desistir de me encarar no espelho veio em minha mente o seguinte pensamento: se ainda posso me reconhecer, mesmo que com dificuldades, é porque ainda estou lá! Algo de minha imagem ainda está preservada… que alívio! Respirei fundo. Nem tudo está perdido; nem tudo foi deformado; nem tudo foi desumanizado.

Naquele instante interroguei à imagem no espelho:

– Como eu posso recuperar minha imagem?

Foi aí que meu reflexo respondeu, quase que de modo imperseptível:

– Práxis!

Claro! Só a práxis transforma sonhos em realidades, ideologias em mudanças concretas, idealizadores em homens e mulheres de Deus. Apenas a teoria colocada em prática em nossa existência é que pode contribuir para uma real transformação da nossa realidade, ou seja da nossa imagem, e da sociedade.

Sabia então que não bastava acreditar num mundo melhor, eu tinha que fazer por onde o mundo ser melhor; não bastava discursar sobre preservação do meio ambiente, eu tinha que fazer minha coleta seletiva de lixo, cuidar melhor do meu jardim, não desperdiçar água, etc; não bastava eu pregar sobre amor, eu tinha que amar as pessoas respeitando-as, aceitando-as, acolhendo-as a exemplo de Jesus.

Naquela manhã percebi que minha imagem dependia muito mais das atitudes do que das alavras, das ações do que das  promessas. Uma boa proposta que não é colocada em prática, não passa de demagogia.

Fiquei ainda em pé de frente para o espelho me olhando mais alguns segundos. Pude ver um caminho longo que teria que pecorrer se quisesse ter meu reflexo no espelho restaurado. Sabia que não seira fácil, contudo tinha a certeza que seria facinante e reapaixonante.