Fiquei “matutando” nesta semana  – depois de ver tanta doidice gospel na net – sobre a identidade do movimento evangélico. Percebo a preocupação de muitos com esta questão: a identidade. Na Betesda mesmo, tenho escutado que estamos passando por uma “crise de identidade” e que temos que “reforçar as trincheiras” para a construção de uma “identidade sólida”! Pois bem, é sobre a identidade que eu quero conversar um pouco.

Relacionamos a identidade a tudo aquilo que somos – eu sou negra; eu sou flamenguista; eu sou casada – contudo esquecemos que quando afirmamos que somos algo, implicitamente também dizemos o que não somos – não sou branca; não sou botafoguense; não sou solteira. Por que é importante perceber isto? Porque toda vez que eu falo de identidade, tenho que falar de diferença.

Identidade e diferença estão interligados. São categorias do mundo cultural e social, sistemas simbólicos criados por nós e resultados de atos de criação linguistica, ou seja, pela fala, pela linguagem. Sem linguagem não existe identidade, nem diferença.

A linguagem por sua vez é formada por signos que não fazem sentido isoladamente, que não possuem valor absoluto e por isto é uma estrutura instável, frágil (Derrida). Posso dar um exemplo bem simples: quando eu digo MESA – junção de quatro letras (signos) – por mais que eu entenda o seu significado, o conceito nunca irá substituir o objeto ao qual ele se refere. A palavra MESA é uma espécie de marca, ou sinal que está no lugar do objeto mas nunca coincide com ele. Daí a fragilidade da linguagem e, por consequência, da identidade.

Além disto, identidade e diferença não são processos definidos aprioristicamente, são impostos; não convivem de modo harmônico, são disputados a fim de garantir o acesso aos bens sociais, aos benefícios e privilégios; estão ligados às relações de poder. Por intermédio da identidade e diferença eu me distinguo dos demais e assim posso dizer quem pertence e quem não pertence ao grupo, quem fica dentro e quem fica fora, classificamos (somos os melhores!) e normatizamos (processo este mais sutil do poder que tem a pretensa ideia de homogenealização).

Por isto, em vez de tentarmos fixar, estabilizar uma identidade para a Betesda (algo complicado ao meu ver pelos motivos já citados), pergunto-me se não seria possível subverter cada vez mais a identidade, desestabilizá-la, ou melhor desorganizá-la para possibilitar o questionamento dos sistemas que lhe dão suporte (sustentação), evitando assim o engessamento de nossas propostas e ideias, proporcionando espaços para a contestação do que tem se mostrado de modo hegemônico e naturalizado no contexto evangélico; evitando classificações, separações sejam ela de gênero, raça/etnia, a fim de produzir novas e renovadas (muitas) identidades, sem medo da diversidade.

O problema não está na busca de uma identidade, mas no risco (e tentação) de tentar estabilizá-la, naturalizá-la tornando-a instrumento de manipulação e segregação. Daí o nosso cuidado de permitir que esta permaneça sempre em movimento, dialogando com outras identidades, pemitindo ser sempre revisitada, questionada e reconfigurada.

Cláudia Sales