janeiro 2010


Há alguns anos, por volta de 2001, fiz um curso para tornar-me evangelista de crianças e, assim, capacitar-me para trabalhar tanto no ministério infantil da igreja onde me congregava na época, como em um projeto missionário no qual investi quatro anos de minha juventude, entre os índios Tapebas, localizados em Caucaia, região metropolitana de Fortaleza.

Em tal curso (imagino que muitos já saibam qual é), aprendemos a escrever esboços para o culto infantil, tínhamos aulas de canto, comunicação visual (disciplina esta que no ano seguinte tornei-me professora na mesma instituição), evangelismo pessoal, memorização de versículos, etc… Além destas, tínhamos disciplinas de cunho dogmático: doutrina do Espirito Santo e doutrina da salvação.

Na disciplina de doutrina do Espírito Santo, a ênfase estava nos frutos do Espírito; já a que estudava a doutrina da salvação, era enfatizada a predestinação do ser humano e a inquestionável doutrina do pecado original, sendo esta última de maior peso, uma vez que ela fundamenta(va) a existência do referido curso.

A lógica era muito simples: todos nós nascemos em pecado, este herdado de Adão; logo, as crianças eram “adãozinhos” precisando de conversão urgente, para se livrarem do mármore do inferno! Para amenizar o show de horrores, os professores ensinavam que existia, entretanto, uma tal fase da inocência onde a criança não consciente ainda do seu pecado poderia ser salva. Mas a questão era: como saber se a criança ainda está na sua fase de inocência? Principalmente em nossos dias onde as crianças se “adultizam” mais rápido do que nunca antes? Daí a urgência das Boas Novas aos pequeninos. O pecado de Adão poderia levá-los ao inferno… Durante anos acreditei nisto.

A doutrina do pecado original pretende dar explicações sobre a origem da imperfeição humana, do sofrimento e da existência do mal; foi sistematizada por Agostinho, no século V, e tinha como fundamento a hereditariedade do pecado de Adão. Este, criado à imagem e semelhança de Deus, pecou e por isto, Deus tirou-lhe seus dons sobrenaturais, passando dali por diante a ser mortal, e seus dons naturais foram maculados.

Fundamentado no versículo paulino de Romanos 5:12, “Eis porque, como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram…” Agostinho declarou que a culpa de Adão era transmitida de geração à geração. Mais tarde a igreja oficial adotou esta ideia como um dogma – “pecado, que é morte da alma, se propaga de Adão a todos seus descendentes por geração e não por imitação, e que é inerente a cada indivíduo” – daí a necessidade do batismo infantil, ‘pro menino não morrer pagão’.

Para Agostinho e, consequentemente, para a Igreja Católica, o batismo das crianças é um sacramento impressindível. Ora, se o ser humano depois do pecado de Adão, trouxe para dentro de si o pecado original, ele precisa ser purificado, ser lavado. Nós, evangélicos, que temos horror a tudo que é católico, também demos nosso jeitinho para nos livrar do pecado original.

É verdade, não batizamos crianças, pois acreditamos que o batismo é uma decisão que se faz conscientemente, sabendo as implicações, responsabilidades e consequências (o que os católicos fazem no sacramento da crisma, ou seja, a confirmação do batismo), mas apresentamos as crianças à igreja, impomos as mão sobre elas como se aquele ato as purificassem de todo mal e as blindassem de problemas futuros (doenças e desastres). Não tenho problema nenhum com o ritual da apresentação de crianças na igreja, só questiono os objetivos que estão nas entrelinhas…

Hoje, sinceramente, não consigo mais olhar para um recém-nascido e ver um “adãozinho”. Um ser que precisa aceitar o quanto antes a Jesus por que pode, se morrer, ir para o inferno pelo pecado herdado de Adão. Como se o pecado fosse (como me ensinaram) um fator genético, por isso, passado de geração em geração; de pai para filho.

Partindo do princípio que Adão e Eva, de fato, existiram, o pecado que eles cometeram foi só deles, e nós não carregamos este carma conosco. Como posso pagar pelo que não cometi? Como ser condenado pelo que o outro fez? Daí a ideia de pensarmos que o que herdamos de Adão foi o seu mal exemplo, sua desobediência.

Adão foi criado como qualquer outro ser humano, com liberdade de escolha, mortal, sujeito às dores e males. Ele tinha livre-arbítrio para escolher o que queria fazer com sua vida. Pois, se assim não o fora, como explicar que um ser criado à imagem de Deus justo, poderia ser tentado? Ou pior como poderia ceder à tentação? Como um ser criado sem desejos maus poderia, de repente, ser mutável em relação ao pecado? Somente admitindo os desejos e a liberdade à condição humana.

Deus expulsou Adão e Eva do Jardim para que eles não comessem da Árvore da Vida e tornassem-se imortais; logo, eles eram mortais desde o início. Neste sentido, a morte não é o castigo do pecado, e sim parte natural de nossa existência, desde o início da criação. A morte é questão vital! Ela faz parte da condição humana, mesmo que para nós seja difícil aceitar este fato.

O ser humano é livre, a exemplo de Adão, sendo capaz de escolher entre o bem e o mal. A universalidade do pecado e do mal no mundo pode ser explicada pela fraqueza humana em escolher o que destrói, mata, fere e não, propriamente, pela corrupção da vontade humana pelo pecado.

Não herdamos o pecado original; contudo, percebemos que os pecados das gerações passadas tornam-se exemplos para a geração atual. A nossa vontade é livre para cooperar com Deus na busca da santificação e para poder seguir o exemplo de Cristo. Quanto às crianças, preocupo-me apenas em ensiná-las (e com elas aprender!) os valores do Reino de Deus e Sua justiça, porque sei que delas “já é o Reino dos céus”!

Cláudia Sales

Anúncios

Texto de Paulo Brabo

O Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça, mas tratamos muito rápido de corrigir essa sua peculiaridade. Miríades e miríades de edifícios ao redor do mundo, tendo pouco em comum seja por dentro ou por fora, seja em concepção ou execução, requerem austeramente para si o status de templos, igrejas e congregações cristãs. Esses edifícios a as assembléias que abrigam devem ser interpretadas, supõe-se, como evidência forte e palpável de que Jesus e sua mensagem permanecem relevantes para a nossa época – seriam evidência, para um mundo incrédulo, de que ele está no meio de nós.

De quem foi a idéia de chamar essas pequenas assembléias e seus lugares de reunião de “igrejas”? De quem foi a idéia de sugerir que essas pequenas assembléias deveriam durar indefinidamente? De quem foi a idéia de sugerir que o reino de Deus e a autoridade da sua boa nova deveriam ser de alguma forma comprovados ou evidenciados pelo número, pela devoção ou pelo nosso sucesso na multiplicação dessas unidades administrativas?

Do Novo Testamento não foi.

O Filho do Homem, como se sabe, gastava praticamente todo o seu tempo ensinando sobre a formidável natureza do reino de Deus e provendo evidência da sobrenatural proximidade desse reino da vida real. Ele não ofereceu mais do que comparações para definir a misteriosa natureza desse reinado de Deus, mas sabemos através dessas indicações que trata-se de projeto muitas vezes mais amplo, ambicioso e abrangente do que aquilo que o próprio Jesus chama, uma vez ou outra, de sua igreja – assim mesmo, sempre no singular.

A categórica ordem final de Jesus aos seus seguidores foi que saíssem pelo mundo fazendo discípulos – não plantando edifícios, não fundando assembléias, não multiplicando unidades administrativas. O livro de Atos e as cartas dão testemunho das soluções a que recorreram os seguidores de Jesus para colocar em prática essa convocação.

Sabemos por esses registros que, por razões estratégicas, os discípulos em construção reuniam-se em grupos, invariavelmente na casa de alguém. A esses agrupamentos as cartas dão ao nome de “a igreja que reúne-se na casa de [alguém]” ou “a igreja em [tal cidade]“. Estava em andamento a primeira fase de implantação (ou, talvez em melhores termos, do descobrimento) do reino de Deus na terra.

A questão é que com o tempo esses agrupamentos passaram de meio a fim. A inércia e a acomodação adiaram o reino: os ajuntamentos temporários e estratégicos da igreja passaram de alguma forma a ser conhecidos e reconhecidos como “igrejas”, entidades em si mesmas que requeriam manutenção e incessante validação para permanecerem relevantes. Logo esses entrepostos foram protegidos por uma camada do verniz da religiosidade que o próprio Jesus procurara demolir; seus edifícios passaram a ser conhecidos, anacronicamente, como “templos” e seus líderes como “sacerdotes”. Acabamos criando uma vaca sagrada que ao mesmo tempo nos embaraça e temos dó de imolar.

O que seria necessário para que os cristãos passassem a encarar a igreja local como meio precário para um fim cujo sucesso prescinde necessariamente do meio? O que seria necessário para que passassemos a ver as igrejas locais como bombas-relógio no sentido mais positivo do termo – empreendimentos projetados para terem um começo, um meio e um glorioso fim? O que seria necessário para que passassemos a ver o cenário de uma igreja fechando definitivamente as suas portas com esperança ao invés de horror – como evidência, na verdade, de que as portas do inferno não prevaleceram finalmente contra ela? Quando seremos capazes de dizer “é hora de descermos desse monte” ao invés de “façamos aqui tendas”? O que seria necessário para que reagíssemos ao anúncio do fim com a expectativa confiante de Jesus ao invés do “de modo nenhum isso aconteça” de Pedro?

O reino de Deus está no meio de nós, Jesus anunciava, por isso toda espécie de desintegração, mesmo daquilo que nos parece mais caro, deveria ser vista como bem-vinda. Na perspectiva mais ampla da boa nova, a mais bem intencionada estirpe de empreendimento espiritual deve ser capaz de abraçar e planejar integralmente a sua precariedade. Como o grupo dos doze discípulos, como a igreja de Jerusalém, como o próprio Jesus, deveríamos ser capazes de conviver de forma criativa e expectante com a perspectiva de uma morte anunciada.

Minha curiosidade para compreender a Graça de Deus vem desde o início de minha caminhada ‘religiosa’. Lembro-me muito claramente de quando fiz a Primeira Comunhão e da insistência em confessar-me; sem exagero, em dois dias procurei o padre umas cinco vezes!

O que uma criança com dez anos poderia fazer de tão pecaminoso? Mas o raciocínio era simples: ensinavam-nos que não poderíamos participar da celebração eucarística em pecado e que, na confissão, o padre poderia nos tornar aptos para tal rito. Mas, percebi que a confissão não tinha poderes mágicos; assim, depois de confessar-me, não conseguia ficar sem brigar com meu irmão, ou desobedecer minha mãe, ou querer possuir os papéis de carta da minha colega de sala, entre outras coisas que poderiam me contaminar e comprometer minha comunhão com Deus.

Naquela época acreditava que só existia uma igreja, uma maneira de crer e ver o mundo, uma só maneira de ter comunhão com Deus, uma única maneira de salvar-me. Quando cresci, percebi que existiam outros credos, outras manifestações religiosas – entre elas o movimento evangélico – outras culturas; e me espantei: eram belas! Saí do catolicismo romano por causa de sua arrogância, da sua falta de humildade em não perceber nas outras expressões a Graça de Deus.

Entrei na igreja evangélica ainda muito jovem, por volta dos vinte anos, e percebi que o discurso não era muito diferente. Ficava horas conversando com meu pastor sobre o destino final dos povos tribais africanos e indígenas, dos budistas, hindus, muçulmanos e dos homossexuais. A resposta obtida sempre era a mesma: o inferno! A construção para se chegar a esta brilhante conclusão era até bem feita, redondinha… seria perfeita se não fosse perversa, vingativa e mesquinha.

Durante anos ajudei a propagar esta lógica. Conforme este entendimento, Deus nos criou bons e pecamos; preferimos o mal. No entanto, Deus só nos aceita se o pedirmos desculpas. Mas, não serve qualquer desculpa; tem que ser de uma única forma, senão não vale. E a culpa não é de Deus, é nossa… Quem mandou vacilar? Não é Deus que nos condena, nós nos condenamos; a culpa é toda de Adão e Eva!

Esta explicação que por muito tempo fez a minha cabeça, não faz mais o menor sentido. Como consegui conciliar, durante tanto tempo, um Deus amoroso com essa lógica perversa? Talvez a resposta esteja com Comblim[1] quando nos explica que a religião está relacionada com o poder e este deixa as pessoas cegas…

Penso, hoje, que a questão da exclusividade e monopólio da salvação está muito mais relacionada com nossa intolerância religiosa, do que com o evangelho de Jesus, pois Deus revela-se em sua Palavra como aquele que mantém sua Graça gratuita destinada a todos. A intolerância nasce da dificuldade que a igreja tem (sempre teve) de compreender a implicação universalista da mensagem do evangelho.

Foi exatamente esta intolerância, a qual Morin[2] chamaria de barbárie religiosa, que fechou a escola de Atenas, matou inúmeros mouros e ‘bruxas’, destruiu civilização e culturas indígenas e africanas – tudo em nome da salvação da alma, com o intuito de limpar o mundo daqueles que poderiam, de alguma forma, contaminar esta salvação.

Aos que ousaram pensar diferente deste ‘puritanismo’ e tentaram (e tentam) trabalhar com interpretações diferentes do discurso hegemônico sobre a salvação da humanidade restou à perseguição, a imposição de uma ortodoxia impiedosa, numa tentativa neurotizante de tentar corrigir os ‘desvios’, isolando estes da comunidade e silenciando-os em nome da religião do amor.

Segundo Queiruga[3], podemos ter três posturas quanto a este tema: o exclusivismo que é admitir uma única revelação real e verdadeira; o inclusivismo que não exclui nem verdade nem salvação nas demais religiões (K. Rahner); e o pluralismo que considera que todas as religiões são iguais e equivalentes em seu valor salvífico. Prefiro, concordando com Queiruga, ficar com a segunda opção, que possibilita o diálogo sem cair num relativismo.

Não podemos mais defender uma salvação concentrada unicamente na tradição cristã ante um mundo carente da presença salvadora de Deus. Creio, com cada vez mais tranquilidade, que não existe religião que não tenha algo específico que seja alguma dimensão de Deus, pois o desejo dEle é se manifestar a todos. Neste contexto, faz sentido crer num Deus pessoal amoroso e que perdoa sem condições (inclusive os inimigos), que “faz nascer o sol sobre os bons e os maus” (Mt 5:45) e que “quer que todos os homens [e mulheres] se salvem” (1 Tm 2:4).

Neste sentido, não estamos mais diante da “lógica do privilégio” e sim diante da “estratégia do amor” (Queiruga). Um Deus que entrega sua existência a todos. A lógica do privilégio nasce da “eclesialização do cristianismo” fechado em si mesmo, pouco maleável e com uma teologia pouco aberta à novidade da história (Morin), a estratégia do amor nasce de um Deus que não faz acepção de pessoas.

Se realmente acreditarmos no amor imensurável de Deus e que Este se revela a todos, em todas as tradições e culturas, e que os povos recebem esta revelação em e através de sua sensibilidade religiosa, poderemos ter um cristianismo menos soberbo e mais humilde, e admitir que seja possível aprender e aperfeiçoar nossa espiritualidade a partir do outro, tirando Deus e a Sua infinita e radical salvação da possessão exclusivista dos cristãos.


[1] Quais os desafios dos temas atuais? (Editora Paulus)

[2] Cultura e barbárie européias. (Bertrand Editora)

[3] O diálogo das religiões (Editora Paulus)

Poderes malignos, ou demoníacos podem ser facilmente encontrados em quase todos os tipos de religiosidades, em todas as épocas e lugares. É só observarmos na arte onde inúmeras imagens foram pintadas inspiradas em forças ameaçadoras da vida. Nestas obras, a imaginação popular tem a liberdade de criar figuras, cores, símbolos, na tentativa neurotizante de explicar e dominar o incompreensível: a origem do caos, da desordem, da desgraça, do mal, da doença e da morte.

Uma das exceções para tal fenômeno encontra-se exatamente na religiosidade judáica, a começar pelo termo “demônio” que não encontra lugar na língua hebráica, sendo este de origem grega. Não existe uma única palavra do Antigo Testamento para indicar o Mal e Satanás como personificação, sendo  sua imagem e identidade fruto de uma grande mistura cultural, religiosidade popular e simbolismo poético.

Na Septuaginta, versão grega do AT, e no Novo Testamento o termo diábolos(diabo), de raíz semita, significa literalmente “alguém que atira alguma coisa no caminho de alguém”, e Satanás remete apenas ao papel de adversário, ou ódio/ rancor entre irmãos (Gn. 27:41; 50:15), ou entre pastores de ovelhas (Gn. 26:20); em sua origem, a palavra satanás era somente um apelido comum para homens e mulheres,  o inimigo terreno, o adversário que ameaça. Satanás é, originalmente, um ser humano.

Ao lermos o AT percebemos Deus exigindo ser adorado por Israel como único Deus, tendo este, portanto, exclusividade. Sendo Javé único, Ele se apresenta como sendo tanto a origem do bem, como a do mal, “Eis que hoje eu ponho diante de vós a bênção e a maldição” (Dt. 11:26). Sendo assim, na tradição pré-israelita, a teologia oficial suprime os demônios transferindo os traços demoníacos a Javé. Os hebreus ainda não conhecem a noção de um poder do mal absoluto, independente, paralelo e antagônico a Deus.

Em Jó, Satanás aparece como um dos “filhos de Deus”, um membro de sua corte, do Seu conselho celestial que juntamente com Ele governa o mundo. Satanás seria uma espécie de “olheiro ou fiscal do Rei”, não sendo, portanto, inimigo ou adversário de Deus. Ele aje de acordo com as ordens divinas, sempre dentro do permitido por Deus. Portanto, ainda não existe a idéia de uma personificação do mal. Entretanto, aqui começa mudar a teologia hebraica. O mal não é mais atribuído à pessoa humana e começa a aparecer uma influência externa, ligada a Javé. Começa-se a questionar a afirmação de que Deus (Javé) é autor do bem e do mal. Mesmo assim, ainda não existe a idéia de uma personificação do mal.

Nos livros de Isaías e Ezequiel há quem relacione Satanás ou o Diabo com Lúcifer (“o portador da luz”), apoiado na sátira contra o rei da Babilônia (Is. 14:4-23) e do rei Tito (Ez. 28:1-19). Para estes dois textos vale ressaltar que ambos utilizam-se de um mito antigo do deus Attar (textos de Ugari), semelhante ao mito grego de Faeton, como metáfora ao que iria acontecer com estes reis concretos e reais, que acumularam riquezas e poder por intermédio da opressão e violência. Estas histórias nada têm a ver com histórias de anjos bons e maus ou da personificação do mal; os textos não mencionam Satanás ou Diabo.

Com o retorno dos hebreus do cativeiro babilônico, devido ao contato com outros povos e outras tradições religiosas, a compreensão que tinham sobre o papel de Satanás começa a mudar; de mensageiro de Deus, passa a ser o adversário de Deus, e vai se tranformando em inimigo de Deus. Aqui o mal transcende o humano tranformando-se em uma entidade autônoma e contraposta a Deus. Para exemplificarmos esta mudança de paradigma basta comparar os textos do censo populacional que Davi fez, registrado nos livros de Samuel e Crônicas. No livro de 2 Samuel, escrito antes do cativeiro babilônico, o autor afirma que “a ira do SENHOR se tornou a acender contra Israel; e incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai, numera a Israel e a Judá” (24:1); já no livro de 1 Crônicas, datado pós-cativeiro, escrito provavelmente por Esdras, o autor afirma sobre o mesmo fato que “Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar a Israel” (21:1). Você pode até se perguntar: “a bíblia se contradisse?”; eu responderia: “Não! A teologia do povo mudou!”.

Somente na época de Jesus, Satanás ou Mastema torna-se o princípio metafísico do mal, chefe de um reino, oposto ao de Deus, com súditos (demônios, espíritos malignos), podendo ser adorado como deus. Um dos motivos para isto, provavelmente, foi o contato dos judeus com o politeísmo e, principalmente, com o dualismo greco-romano. Podemos observar, mais uma vez, esta mudança de paradigma a partir dos muitos textos apocalípticos que já existiam (e eram famosos) na época de Jesus. Nestes textos, dava-se muita importância aos demônios, mas eram apenas histórias populares e literárias. Satanás aparece neles, como também no Apocalipse de João e na tentação de Jesus retratada nos evangelhos, como um ser abstrato, sem forma concreta.

Somente depois que os apóstolos morreram é que os cristãos demonizaram os deuses pagãos Asmodeu, Astaroth, Baal, Baal-Berith, Dagon, Moloch entre outros que, para os hebreus, eram apenas estátuas, transformando a figura abstrata de Satanás em algo concreto e personificado. Um exemplo disto é o deus Poseidon dos gregos que foi demonizado; e seu tridente, um mero instrumento de pesca, tornou-se um símbolo do mal.

Tudo isto me faz pensar que o diabo, tal como o compreendemos atualmente, é uma construção mítica e cultural na história judaico-cristã, não sendo, portanto, um ser compreendido desde sempre pelo povo hebreu e muito menos apresentado por Deus desde o Gêneses. Esta construção foi internalizada pelo cristianismo que soube (e sabe) muito bem aproveitar-se de Satanás como uma das armas mais eficientes de barbárie cristã (Morin). É só lembrar das mulhes (principalmente) e homens queimados na fogueira por estarem possuídos pelo diabo na Idade Média (em Bamberg, sede do episcopado, foram queimados cerca de 600 pessoas em um só ano); dos infiéis encapetados mulçumanos que foram massacrados durante as cruzadas cristãs a fim de Jerusalém ser finalmente “liberta” (mais de 70.000 assassinatos); a escravização e genocídio dos negros e indígenas sem almas e possessos de demônios oriundos de suas práticas religiosas pagãs, etc.

E quem acha que a barbárie dos cristãos em nome do Diabo acabou, engana-se. Pois, em nossos dias, até Deus toma as dores dos cristãos, servos fiéis por excelência, e manda catástrofes naturais arruinarem os povos idólatras, filhos da ira de Deus e, portanto, filhos do Diabo. Ou pior, existe ainda os que defendem a ideia de que é o Diabo mesmo que manda essas catástrofes, pois, conforme esse entendimento, o dito cujo veio para “matar, roubar e destruir”… tudo dentro da permissão de Deus! Me pergunto, que lógica doentia é esta que leva pessoas a acharem que Deus e o Diabo são ‘comparsas’ em espalhar horror sobre o mundo, principalmente se for pobre, negro, índio, crianças, velhos…??? Sinto muito, para com os que se escandalizam com minha opinião, mas abandonei esta lógica a muito tempo!

Claudinha

Ler:

  1. KILPP, Nelson. Os poderes demoníacos no Antigo Testamento. Estudos Bíblicos: Diabo, Demônio e Poderes Satânicos. Rio de Janeiro: Vozes, 2002, nº 74, p. 23-36.
  2. SCHIAVO, Luigi. O mal e suas representações simbólicas. Estudos de Religião: Apocalípticas e as Origens Cristãs. São Paulo: UMESP, 1985, vol. 1, p.65-83.