Minha curiosidade para compreender a Graça de Deus vem desde o início de minha caminhada ‘religiosa’. Lembro-me muito claramente de quando fiz a Primeira Comunhão e da insistência em confessar-me; sem exagero, em dois dias procurei o padre umas cinco vezes!

O que uma criança com dez anos poderia fazer de tão pecaminoso? Mas o raciocínio era simples: ensinavam-nos que não poderíamos participar da celebração eucarística em pecado e que, na confissão, o padre poderia nos tornar aptos para tal rito. Mas, percebi que a confissão não tinha poderes mágicos; assim, depois de confessar-me, não conseguia ficar sem brigar com meu irmão, ou desobedecer minha mãe, ou querer possuir os papéis de carta da minha colega de sala, entre outras coisas que poderiam me contaminar e comprometer minha comunhão com Deus.

Naquela época acreditava que só existia uma igreja, uma maneira de crer e ver o mundo, uma só maneira de ter comunhão com Deus, uma única maneira de salvar-me. Quando cresci, percebi que existiam outros credos, outras manifestações religiosas – entre elas o movimento evangélico – outras culturas; e me espantei: eram belas! Saí do catolicismo romano por causa de sua arrogância, da sua falta de humildade em não perceber nas outras expressões a Graça de Deus.

Entrei na igreja evangélica ainda muito jovem, por volta dos vinte anos, e percebi que o discurso não era muito diferente. Ficava horas conversando com meu pastor sobre o destino final dos povos tribais africanos e indígenas, dos budistas, hindus, muçulmanos e dos homossexuais. A resposta obtida sempre era a mesma: o inferno! A construção para se chegar a esta brilhante conclusão era até bem feita, redondinha… seria perfeita se não fosse perversa, vingativa e mesquinha.

Durante anos ajudei a propagar esta lógica. Conforme este entendimento, Deus nos criou bons e pecamos; preferimos o mal. No entanto, Deus só nos aceita se o pedirmos desculpas. Mas, não serve qualquer desculpa; tem que ser de uma única forma, senão não vale. E a culpa não é de Deus, é nossa… Quem mandou vacilar? Não é Deus que nos condena, nós nos condenamos; a culpa é toda de Adão e Eva!

Esta explicação que por muito tempo fez a minha cabeça, não faz mais o menor sentido. Como consegui conciliar, durante tanto tempo, um Deus amoroso com essa lógica perversa? Talvez a resposta esteja com Comblim[1] quando nos explica que a religião está relacionada com o poder e este deixa as pessoas cegas…

Penso, hoje, que a questão da exclusividade e monopólio da salvação está muito mais relacionada com nossa intolerância religiosa, do que com o evangelho de Jesus, pois Deus revela-se em sua Palavra como aquele que mantém sua Graça gratuita destinada a todos. A intolerância nasce da dificuldade que a igreja tem (sempre teve) de compreender a implicação universalista da mensagem do evangelho.

Foi exatamente esta intolerância, a qual Morin[2] chamaria de barbárie religiosa, que fechou a escola de Atenas, matou inúmeros mouros e ‘bruxas’, destruiu civilização e culturas indígenas e africanas – tudo em nome da salvação da alma, com o intuito de limpar o mundo daqueles que poderiam, de alguma forma, contaminar esta salvação.

Aos que ousaram pensar diferente deste ‘puritanismo’ e tentaram (e tentam) trabalhar com interpretações diferentes do discurso hegemônico sobre a salvação da humanidade restou à perseguição, a imposição de uma ortodoxia impiedosa, numa tentativa neurotizante de tentar corrigir os ‘desvios’, isolando estes da comunidade e silenciando-os em nome da religião do amor.

Segundo Queiruga[3], podemos ter três posturas quanto a este tema: o exclusivismo que é admitir uma única revelação real e verdadeira; o inclusivismo que não exclui nem verdade nem salvação nas demais religiões (K. Rahner); e o pluralismo que considera que todas as religiões são iguais e equivalentes em seu valor salvífico. Prefiro, concordando com Queiruga, ficar com a segunda opção, que possibilita o diálogo sem cair num relativismo.

Não podemos mais defender uma salvação concentrada unicamente na tradição cristã ante um mundo carente da presença salvadora de Deus. Creio, com cada vez mais tranquilidade, que não existe religião que não tenha algo específico que seja alguma dimensão de Deus, pois o desejo dEle é se manifestar a todos. Neste contexto, faz sentido crer num Deus pessoal amoroso e que perdoa sem condições (inclusive os inimigos), que “faz nascer o sol sobre os bons e os maus” (Mt 5:45) e que “quer que todos os homens [e mulheres] se salvem” (1 Tm 2:4).

Neste sentido, não estamos mais diante da “lógica do privilégio” e sim diante da “estratégia do amor” (Queiruga). Um Deus que entrega sua existência a todos. A lógica do privilégio nasce da “eclesialização do cristianismo” fechado em si mesmo, pouco maleável e com uma teologia pouco aberta à novidade da história (Morin), a estratégia do amor nasce de um Deus que não faz acepção de pessoas.

Se realmente acreditarmos no amor imensurável de Deus e que Este se revela a todos, em todas as tradições e culturas, e que os povos recebem esta revelação em e através de sua sensibilidade religiosa, poderemos ter um cristianismo menos soberbo e mais humilde, e admitir que seja possível aprender e aperfeiçoar nossa espiritualidade a partir do outro, tirando Deus e a Sua infinita e radical salvação da possessão exclusivista dos cristãos.


[1] Quais os desafios dos temas atuais? (Editora Paulus)

[2] Cultura e barbárie européias. (Bertrand Editora)

[3] O diálogo das religiões (Editora Paulus)