Poderes malignos, ou demoníacos podem ser facilmente encontrados em quase todos os tipos de religiosidades, em todas as épocas e lugares. É só observarmos na arte onde inúmeras imagens foram pintadas inspiradas em forças ameaçadoras da vida. Nestas obras, a imaginação popular tem a liberdade de criar figuras, cores, símbolos, na tentativa neurotizante de explicar e dominar o incompreensível: a origem do caos, da desordem, da desgraça, do mal, da doença e da morte.

Uma das exceções para tal fenômeno encontra-se exatamente na religiosidade judáica, a começar pelo termo “demônio” que não encontra lugar na língua hebráica, sendo este de origem grega. Não existe uma única palavra do Antigo Testamento para indicar o Mal e Satanás como personificação, sendo  sua imagem e identidade fruto de uma grande mistura cultural, religiosidade popular e simbolismo poético.

Na Septuaginta, versão grega do AT, e no Novo Testamento o termo diábolos(diabo), de raíz semita, significa literalmente “alguém que atira alguma coisa no caminho de alguém”, e Satanás remete apenas ao papel de adversário, ou ódio/ rancor entre irmãos (Gn. 27:41; 50:15), ou entre pastores de ovelhas (Gn. 26:20); em sua origem, a palavra satanás era somente um apelido comum para homens e mulheres,  o inimigo terreno, o adversário que ameaça. Satanás é, originalmente, um ser humano.

Ao lermos o AT percebemos Deus exigindo ser adorado por Israel como único Deus, tendo este, portanto, exclusividade. Sendo Javé único, Ele se apresenta como sendo tanto a origem do bem, como a do mal, “Eis que hoje eu ponho diante de vós a bênção e a maldição” (Dt. 11:26). Sendo assim, na tradição pré-israelita, a teologia oficial suprime os demônios transferindo os traços demoníacos a Javé. Os hebreus ainda não conhecem a noção de um poder do mal absoluto, independente, paralelo e antagônico a Deus.

Em Jó, Satanás aparece como um dos “filhos de Deus”, um membro de sua corte, do Seu conselho celestial que juntamente com Ele governa o mundo. Satanás seria uma espécie de “olheiro ou fiscal do Rei”, não sendo, portanto, inimigo ou adversário de Deus. Ele aje de acordo com as ordens divinas, sempre dentro do permitido por Deus. Portanto, ainda não existe a idéia de uma personificação do mal. Entretanto, aqui começa mudar a teologia hebraica. O mal não é mais atribuído à pessoa humana e começa a aparecer uma influência externa, ligada a Javé. Começa-se a questionar a afirmação de que Deus (Javé) é autor do bem e do mal. Mesmo assim, ainda não existe a idéia de uma personificação do mal.

Nos livros de Isaías e Ezequiel há quem relacione Satanás ou o Diabo com Lúcifer (“o portador da luz”), apoiado na sátira contra o rei da Babilônia (Is. 14:4-23) e do rei Tito (Ez. 28:1-19). Para estes dois textos vale ressaltar que ambos utilizam-se de um mito antigo do deus Attar (textos de Ugari), semelhante ao mito grego de Faeton, como metáfora ao que iria acontecer com estes reis concretos e reais, que acumularam riquezas e poder por intermédio da opressão e violência. Estas histórias nada têm a ver com histórias de anjos bons e maus ou da personificação do mal; os textos não mencionam Satanás ou Diabo.

Com o retorno dos hebreus do cativeiro babilônico, devido ao contato com outros povos e outras tradições religiosas, a compreensão que tinham sobre o papel de Satanás começa a mudar; de mensageiro de Deus, passa a ser o adversário de Deus, e vai se tranformando em inimigo de Deus. Aqui o mal transcende o humano tranformando-se em uma entidade autônoma e contraposta a Deus. Para exemplificarmos esta mudança de paradigma basta comparar os textos do censo populacional que Davi fez, registrado nos livros de Samuel e Crônicas. No livro de 2 Samuel, escrito antes do cativeiro babilônico, o autor afirma que “a ira do SENHOR se tornou a acender contra Israel; e incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai, numera a Israel e a Judá” (24:1); já no livro de 1 Crônicas, datado pós-cativeiro, escrito provavelmente por Esdras, o autor afirma sobre o mesmo fato que “Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar a Israel” (21:1). Você pode até se perguntar: “a bíblia se contradisse?”; eu responderia: “Não! A teologia do povo mudou!”.

Somente na época de Jesus, Satanás ou Mastema torna-se o princípio metafísico do mal, chefe de um reino, oposto ao de Deus, com súditos (demônios, espíritos malignos), podendo ser adorado como deus. Um dos motivos para isto, provavelmente, foi o contato dos judeus com o politeísmo e, principalmente, com o dualismo greco-romano. Podemos observar, mais uma vez, esta mudança de paradigma a partir dos muitos textos apocalípticos que já existiam (e eram famosos) na época de Jesus. Nestes textos, dava-se muita importância aos demônios, mas eram apenas histórias populares e literárias. Satanás aparece neles, como também no Apocalipse de João e na tentação de Jesus retratada nos evangelhos, como um ser abstrato, sem forma concreta.

Somente depois que os apóstolos morreram é que os cristãos demonizaram os deuses pagãos Asmodeu, Astaroth, Baal, Baal-Berith, Dagon, Moloch entre outros que, para os hebreus, eram apenas estátuas, transformando a figura abstrata de Satanás em algo concreto e personificado. Um exemplo disto é o deus Poseidon dos gregos que foi demonizado; e seu tridente, um mero instrumento de pesca, tornou-se um símbolo do mal.

Tudo isto me faz pensar que o diabo, tal como o compreendemos atualmente, é uma construção mítica e cultural na história judaico-cristã, não sendo, portanto, um ser compreendido desde sempre pelo povo hebreu e muito menos apresentado por Deus desde o Gêneses. Esta construção foi internalizada pelo cristianismo que soube (e sabe) muito bem aproveitar-se de Satanás como uma das armas mais eficientes de barbárie cristã (Morin). É só lembrar das mulhes (principalmente) e homens queimados na fogueira por estarem possuídos pelo diabo na Idade Média (em Bamberg, sede do episcopado, foram queimados cerca de 600 pessoas em um só ano); dos infiéis encapetados mulçumanos que foram massacrados durante as cruzadas cristãs a fim de Jerusalém ser finalmente “liberta” (mais de 70.000 assassinatos); a escravização e genocídio dos negros e indígenas sem almas e possessos de demônios oriundos de suas práticas religiosas pagãs, etc.

E quem acha que a barbárie dos cristãos em nome do Diabo acabou, engana-se. Pois, em nossos dias, até Deus toma as dores dos cristãos, servos fiéis por excelência, e manda catástrofes naturais arruinarem os povos idólatras, filhos da ira de Deus e, portanto, filhos do Diabo. Ou pior, existe ainda os que defendem a ideia de que é o Diabo mesmo que manda essas catástrofes, pois, conforme esse entendimento, o dito cujo veio para “matar, roubar e destruir”… tudo dentro da permissão de Deus! Me pergunto, que lógica doentia é esta que leva pessoas a acharem que Deus e o Diabo são ‘comparsas’ em espalhar horror sobre o mundo, principalmente se for pobre, negro, índio, crianças, velhos…??? Sinto muito, para com os que se escandalizam com minha opinião, mas abandonei esta lógica a muito tempo!

Claudinha

Ler:

  1. KILPP, Nelson. Os poderes demoníacos no Antigo Testamento. Estudos Bíblicos: Diabo, Demônio e Poderes Satânicos. Rio de Janeiro: Vozes, 2002, nº 74, p. 23-36.
  2. SCHIAVO, Luigi. O mal e suas representações simbólicas. Estudos de Religião: Apocalípticas e as Origens Cristãs. São Paulo: UMESP, 1985, vol. 1, p.65-83.