Há alguns anos, por volta de 2001, fiz um curso para tornar-me evangelista de crianças e, assim, capacitar-me para trabalhar tanto no ministério infantil da igreja onde me congregava na época, como em um projeto missionário no qual investi quatro anos de minha juventude, entre os índios Tapebas, localizados em Caucaia, região metropolitana de Fortaleza.

Em tal curso (imagino que muitos já saibam qual é), aprendemos a escrever esboços para o culto infantil, tínhamos aulas de canto, comunicação visual (disciplina esta que no ano seguinte tornei-me professora na mesma instituição), evangelismo pessoal, memorização de versículos, etc… Além destas, tínhamos disciplinas de cunho dogmático: doutrina do Espirito Santo e doutrina da salvação.

Na disciplina de doutrina do Espírito Santo, a ênfase estava nos frutos do Espírito; já a que estudava a doutrina da salvação, era enfatizada a predestinação do ser humano e a inquestionável doutrina do pecado original, sendo esta última de maior peso, uma vez que ela fundamenta(va) a existência do referido curso.

A lógica era muito simples: todos nós nascemos em pecado, este herdado de Adão; logo, as crianças eram “adãozinhos” precisando de conversão urgente, para se livrarem do mármore do inferno! Para amenizar o show de horrores, os professores ensinavam que existia, entretanto, uma tal fase da inocência onde a criança não consciente ainda do seu pecado poderia ser salva. Mas a questão era: como saber se a criança ainda está na sua fase de inocência? Principalmente em nossos dias onde as crianças se “adultizam” mais rápido do que nunca antes? Daí a urgência das Boas Novas aos pequeninos. O pecado de Adão poderia levá-los ao inferno… Durante anos acreditei nisto.

A doutrina do pecado original pretende dar explicações sobre a origem da imperfeição humana, do sofrimento e da existência do mal; foi sistematizada por Agostinho, no século V, e tinha como fundamento a hereditariedade do pecado de Adão. Este, criado à imagem e semelhança de Deus, pecou e por isto, Deus tirou-lhe seus dons sobrenaturais, passando dali por diante a ser mortal, e seus dons naturais foram maculados.

Fundamentado no versículo paulino de Romanos 5:12, “Eis porque, como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram…” Agostinho declarou que a culpa de Adão era transmitida de geração à geração. Mais tarde a igreja oficial adotou esta ideia como um dogma – “pecado, que é morte da alma, se propaga de Adão a todos seus descendentes por geração e não por imitação, e que é inerente a cada indivíduo” – daí a necessidade do batismo infantil, ‘pro menino não morrer pagão’.

Para Agostinho e, consequentemente, para a Igreja Católica, o batismo das crianças é um sacramento impressindível. Ora, se o ser humano depois do pecado de Adão, trouxe para dentro de si o pecado original, ele precisa ser purificado, ser lavado. Nós, evangélicos, que temos horror a tudo que é católico, também demos nosso jeitinho para nos livrar do pecado original.

É verdade, não batizamos crianças, pois acreditamos que o batismo é uma decisão que se faz conscientemente, sabendo as implicações, responsabilidades e consequências (o que os católicos fazem no sacramento da crisma, ou seja, a confirmação do batismo), mas apresentamos as crianças à igreja, impomos as mão sobre elas como se aquele ato as purificassem de todo mal e as blindassem de problemas futuros (doenças e desastres). Não tenho problema nenhum com o ritual da apresentação de crianças na igreja, só questiono os objetivos que estão nas entrelinhas…

Hoje, sinceramente, não consigo mais olhar para um recém-nascido e ver um “adãozinho”. Um ser que precisa aceitar o quanto antes a Jesus por que pode, se morrer, ir para o inferno pelo pecado herdado de Adão. Como se o pecado fosse (como me ensinaram) um fator genético, por isso, passado de geração em geração; de pai para filho.

Partindo do princípio que Adão e Eva, de fato, existiram, o pecado que eles cometeram foi só deles, e nós não carregamos este carma conosco. Como posso pagar pelo que não cometi? Como ser condenado pelo que o outro fez? Daí a ideia de pensarmos que o que herdamos de Adão foi o seu mal exemplo, sua desobediência.

Adão foi criado como qualquer outro ser humano, com liberdade de escolha, mortal, sujeito às dores e males. Ele tinha livre-arbítrio para escolher o que queria fazer com sua vida. Pois, se assim não o fora, como explicar que um ser criado à imagem de Deus justo, poderia ser tentado? Ou pior como poderia ceder à tentação? Como um ser criado sem desejos maus poderia, de repente, ser mutável em relação ao pecado? Somente admitindo os desejos e a liberdade à condição humana.

Deus expulsou Adão e Eva do Jardim para que eles não comessem da Árvore da Vida e tornassem-se imortais; logo, eles eram mortais desde o início. Neste sentido, a morte não é o castigo do pecado, e sim parte natural de nossa existência, desde o início da criação. A morte é questão vital! Ela faz parte da condição humana, mesmo que para nós seja difícil aceitar este fato.

O ser humano é livre, a exemplo de Adão, sendo capaz de escolher entre o bem e o mal. A universalidade do pecado e do mal no mundo pode ser explicada pela fraqueza humana em escolher o que destrói, mata, fere e não, propriamente, pela corrupção da vontade humana pelo pecado.

Não herdamos o pecado original; contudo, percebemos que os pecados das gerações passadas tornam-se exemplos para a geração atual. A nossa vontade é livre para cooperar com Deus na busca da santificação e para poder seguir o exemplo de Cristo. Quanto às crianças, preocupo-me apenas em ensiná-las (e com elas aprender!) os valores do Reino de Deus e Sua justiça, porque sei que delas “já é o Reino dos céus”!

Cláudia Sales