O ano de 2010 nos surpreendeu com a calamidade no Haiti. Uma tragédia que chamou a atenção de todas as mídias, televisão, rádio, revistas, jornais – que não falavam outra coisa – e principalmente a internet. Era só colocar no Google a palavra Haiti para que imediatamente nos deparássemos com uma profusão de noticias. Estas não apenas de sites, mas, blogs, orkut, twitter, Facebook, etc… todo mundo queria falar sua versão do ocorrido com direito a opiniões, criticas e sugestões. Não demorou muito para que se iniciasse toda aquela “tsuname” de discussões em torno da predestinação (soberania), versus livre arbítrio (contingência).

De um lado, os que defendiam que Deus tinha um propósito na morte de milhares de pessoas do Haiti, ou ainda os que diziam “os haitianos estão sob a maldição de Caim. A mão de Deus pesou nos incircuncisos feiticeiros. Foi só isso. Vai dormir!” (ipsis litteris de um usuário do Twitter), resumindo o fato em uma simples lógica de causa-efeito.

Do outro, os que defendem que Deus também sofreu com esta tragédia e que não poderia haver propósito na morte de crianças, velhos, homens e mulheres, independentes de quem sejam, ou os que ainda explicam que um fenômeno como este só atinge os mais pobres, os excluídos, os que não possuem tecnologia desenvolvida o bastante para amenizar os “efeitos colaterais” da natureza, enfim, os que acreditam na vida repleta de contingências.

Cheguei a pensar que veria um déjà vu de 2007! Não tive vontade nenhuma de escrever sobre o assunto… e muito menos de tomar partido entre estas posturas teológicas. Apenas acompanhei perplexa os acontecimentos, os resgates, o Geraldo aflito com o número crescente de mortos… e me senti impotente. Confesso que fui apenas uma telespectadora da catástrofe.

Mas um fato, com um impacto mundial bem menor, contudo, com um impacto emocional bem maior em minha vida, motivou-me a escrever sobre propósitos: o falecimento de um jovem pastor, Allison Ambrósio. Um artista como poucos no movimento evangélico (e fora dele), dono de um sorriso contagiante e de uma voz arrebatadora. Nesta semana a Betesda ficou de luto… e perplexa com o modo rápido de como tudo aconteceu.

Muita gente veio conversar comigo e a pergunta que não parava de ouvir era: como poderia morrer tão jovem? Tão cheio de vida? Confesso que me faltavam as palavras e ficava em silêncio (que num momento como este é a melhor palavra). Mas não deixei de escutar no decorrer destes dias “Deus tem os seus desígnios!”, “Deus quis levá-lo!”, “Deus sabe o que faz!” e o revoltante “Deus deve ter um propósito nisto!”.

Como Deus poderia ter propósito na morte, no sofrimento, na perda? Como poderia Ele ser glorificado em genocídios, nas epidemias, ou até mesmo na morte prematura de um poeta? Essa lógica é a contradição do Deus descrito nas Escrituras, um Deus generoso, amoroso, um Deus que chora pela morte do amigo, e que celebra a vida (“Eu sou… a vida”). Li um texto de Leonardo Boff intitulado “Um Deus que chora” e lembrei-me de um trecho:

Há uma outra imagem, presente na história das religiões e também na tradição judaico-cristã: ela fala do Deus que se faz criança, que não julga mas caminha junto, um Deus que chora pela morte do amigo, que tem pavor face à morte próxima e que finalmente morre, gritando, na cruz. Vários místicos cristãos se referem ao Deus que sofre com os que sofrem e que chora por aqueles que morrem. Juliana de Norwich, grande mística inglesa (+1413), viu a conexão existente entre a paixão de Cristo e a paixão do mundo. Numa de suas visões diz:”Então vi que, no meu entender, era uma grande união entre Cristo e nós; pois quando ele padecia, padecíamos também. E todas as criaturas que podiam sofrer sofriam com ele”.

A única certeza que temos nesta vida é que iremos morrer. Não acredito, contudo, que seja Deus que determina este momento e muito menos que Ele tenha propósitos que exaltem Sua glória na morte. A glória de Deus é plena, não precisa de um ‘plus’, um ‘upgrad’; ela se manifesta nas coisas simples da vida, no lírio do campo, nos pássaros do céu, na arte, na poesia, enfim, na beleza, parafraseando Borges “neste mundo a beleza é comum”, a glória de Deus está em todo lugar!

Creio que nesta semana Deus chorou conosco a morte do querido Allison, que Ele sofreu com a família a angústia da perda e que faltou-lhe palavras para explicar o que aconteceu… o que Ele nos oferece são seus braços de pai que nos conforta e fortalece para o dia de amanhã.

Fica a saudade e sensação estranha de que foi cedo demais…

É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais.

(…)

Eu continuo aqui,
Com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
Um dia de chuva, um dia de sol
E o que sinto não sei dizer.

(…)

Só que você foi embora cedo demais.
(Renato Russo)