março 2010


Sempre me inquietou a representação clássica do inferno, um lugar de tormento eterno, que Deus teria criado para o Diabo e seus anjos, mas que também abrigará todos aqueles que não andam conforme a Sua vontade, ou melhor, a todos que não aceitaram a Jesus como Senhor de suas vidas (leia-se “aceitar Jesus” como sinônimo de congregar-se em uma igreja evangélica).

Daí surge dois questionamentos: O primeiro é com relação aos que nunca ouviram (e os que nunca ouvirão) falar sobre Jesus, estes também iriam ser condenados por sua ignorância no assunto? Como todo bom crente, uma resposta com um versículo bíblico na ponta da língua, era quase que imediata: “Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas, de modo que eles são inescusáveis” (Rm. 1:20), ou seja, não existe desculpa para a ignorância humana uma vez que já nascemos sob condenação, pois “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm. 3:23). Inferno neles!

A outra questão é sobre a salvação pela graça. Se a graça é favor imerecido (definição mais simples e básica, impossível), ou seja, algo que recebo mesmo não tendo feito por onde ser digno, então, porque é preciso fazer um monte de coisa para ser salvo e aceito por Deus? Se é necessário arrepender-me, ir lá na frente da igreja, mudar de atitude, mostrar bons frutos e “ser fiel até a morte” para livrar-me da condenação, então esta salvação não é graciosa e sim meritória!

Muitos são os argumentos buscando conciliar a crença em um local criado por Deus para condenação eterna, com a proposta do Deus-Homem que entrega Sua vida, Sua história, para que todos tenham o pleno conhecimento da verdade e concretize Seu maior desejo: que todas as pessoas se salvem.

Um princípio básico para quem defende “com unhas e dentes” um local assim para os “rebeldes de Deus” é que o inferno serve para manter o cristão nos eixos! Serve para quando faltar ao indivíduo o amor de Deus, o temor dos castigos infernais o empeçam dos desvios e pecados. Escuto muito: se não existir inferno, o povo vai fazer o que quiser! Não se terá mais regra, temor… Ninguém virá mais à igreja! Ou seja, o motivo pelo qual o cristão deve caminhar com Deus é o medo do inferno, e não o desejo de ser amigo de Deus, de aprender com Ele e ser Seu imitador, a Sua semelhança.

O outro argumento está relacionado com o exercício da liberdade humana, ou simplesmente, livre-arbítrio. Estes gostam de afirmar que se Deus, no final de tudo, perdoar a todos, nossa existência terá sido um mero passatempo divino e, nós, marionetes em suas mãos, pois o final já estaria definido! Não importa o que você faça Maktub, está escrito! Estaremos salvos! Assim, para os defensores, o inferno seria o resultado último da minha livre escolha em negar a Deus! O radical cumprimento da minha vontade de viver sem a Sua graciosa presença.

Contudo, fico a me perguntar: existiria um lugar criado por Deus onde Sua presença não se faça presente? (Faria Deus uma pedra tão grande que não consiga levantar?) Poderíamos nós, cristãos piedosos que somos, celebrar eternamente sabendo que existem milhares de pessoas sofrendo para todo sempre? Ou pior, poderá Deus alegrar-se em meio ao sofrimento eterno de seus filhos? Por acaso, o céu eterno nos tornará insensíveis e indiferentes à dor do outro?

Estas questões fizeram-me repensar o que seria inferno – sim, porque não descarto sua existência, contudo, preciso resignificá-la com as lentes do amor imensurável de Deus, tentar enxergar através dos “óculos” chamado Jesus de Nazaré.

Antes de repensar o conceito de inferno, compreendi que somos limitados em nossas decisões. Temos muita dificuldade em concretizar nossos desejos, projetos e sonhos, sejam eles admiráveis, ou não; seria a crise paulina de Romanos 7, “Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto” (v.15). A esta limitação Karl Rahner chama de concupiscência; nossa incapacidade de sermos plenamente bons, ou maus. De acordo com este raciocínio, todo o ser humano possui coisas positivas… Mesmo o mais vilão dos vilões, não consegue ser mal o tempo todo! Isto pode ser observado, por exemplo, nos muitos soldados da SS nazistas que conseguiam ser excelentes pais e maridos, carinhosos com seus familiares e amigos e, ao mesmo tempo, torturadores inclementes, assassinos brutais.

Neste sentido, compartilho com a idéia de Juan Luís Segundo de que o inferno é toda a maldade! Nas próprias palavras de Segundo, “o ‘Inferno’ é – nada mais, nada menos – a dor com que atingimos os outros, ou a que, podendo-a evitar, não o fazemos por temor, preguiça ou costume; numa palavra: por egoísmo”. É o extremo oposto ao amor, fruto de nossas decisões limitadas e finitas. A este estado, Segundo chama de “Absoluto menos”.

Acredito na liberdade e tenho o livre-arbítrio como o maior presente de Deus para a humanidade; sermos responsáveis por nossos atos é uma dádiva! Sei também que Deus respeita nossas decisões e sofre amargamente com nossas escolhas erradas. Contudo, acredito que Deus também conhece nossa estrutura, da concupiscência que é inerente a nós e que nos torna imperfeito, somos bons e maus, luzes e trevas, doces e amargos, céu e terra, tudo inseparavelmente ao mesmo tempo!

Por isto, acredito que sempre existirá o que ser salvo em nós! Aquela pontinha de bondade que ninguém vê Deus enxerga de longe e resgata! Citando Segundo: “o que há de vida divina no ser humano é indestrutível, irreversível, fiel”. Pois, como nossas ações limitadas e finitas poderiam resultar em uma condenação ilimitada e eterna? Poderia haver justiça nisto? A graça de Deus nos ensina que a gravidade última do mal sempre será vencida pela mínima partícula do amor, que “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm. 5:20). Nesse contexto, podemos confiar firmemente no versículo Paulino que diz “agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm. 8:1)!

Quem vai para o inferno, ou melhor, o que irá para o inferno? Parafraseando Andrés Torres Queiruga: ao inferno está condenado tudo o que existe de mal em nós! Paulo nos esclarece isto quando diz aos Coríntios que “se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia, como que através do fogo” (3:15); ou seja, se nossas obras não forem de amor, ainda assim existe salvação para nós. Desta forma, o inferno é salvação definitiva do real, é a condenação e aniquilação de todo mal que reside em nós. Deixa de ser condenação eterna do ser humano, para ser a eliminação de sua negatividade. A condenação definitiva do mal que existe em cada um de nós.

Só assim consegui contemplar a belíssima visão de João.

“Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos” (Ap. 7:9).

Cláudia Sales

Anúncios

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Ou nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Almir Sater


Por: Paulo Brabo


Tenho um amigo que é um santo secular, absolutamente sem religião, que concilia as façanhas de ser homem de família, artista irretocável e portador das boas novas aos pobres (sendo que eu, naturalmente, não sou nenhuma dessas coisas). «E você, Paulo, tem heróis?»Certa vez esse sujeito estava falando comigo sobre outro cara, amigo dele, que ele considera ser ao mesmo tempo artista mais notável e muito mais engajado nas questões sociais do que ele mesmo, um cara que meu amigo tem por seu herói pessoal.

Nesse momento ele parou o seu relato para perguntar:

– E você, Paulo, tem heróis?

Apanhado de surpresa, ocorreu-me responder de modo ao mesmo tempo provocativo e sincero. Ergui uma sobrancelha e arrisquei, como se estivesse em grande dúvida:

– Jesus?

– Jesus não vale – exigiu meu amigo. – Jesus é o herói de todo mundo.

Achei aquilo fascinante, tanto a noção de que Jesus pudesse ser o herói secreto daqueles que não usurpam o seu nome quanto a ideia subjacente, de que mesmo quem admira Jesus carece sensualizá-lo, encontrar-se efetivamente com ele numa pessoa de carne e osso que adequadamente encarne os seus valores e desafios. Eu conhecia uma pessoa assim, o Néviton Marci, mas antes que pudesse mencionar o nome dele meu amigo avançou seu argumento. Sabendo que minha menção a Jesus tinha sido em grande parte uma provocação sobre sua postura arreligiosa, ele prosseguiu:

– E você sabe muito bem que eu tenho um relacionamento de amor platônico com o cristianismo – e, para explorar todas as possibilidades da metáfora, arrematou: – eu não fodo com o cristianismo como vocês fazem.

Eu, que nunca tinha visto meu amigo recorrer a um palavrão, tive de render-me imediatamente a sua lógica, sua lucidez e sua indignação. Porque quanto mais nós cristãos tentamos foder com o cristianismo, no sentido de conhecê-lo (biblicamente falando) e de nos relacionarmos intimamente com ele, mais acabamos fodendo com ele, no sentido de arruiná-lo juntamente com a sua reputação. Deveria nos parecer evidente que ler, escrever, estudar e tagarelar incessantemente sobre Deus e sobre a Bíblia, seja em livros ou blogs, no rádio ou na tv, na igreja ou no local de trabalho, não tem absolutamente qualquer relação de fidelidade com a herança de Jesus ou com os desafios deixados pela sua mensagem. Gente sem religião como meu amigo e seu herói, que não usurpa publicamente o nome do Filho do Homem, é capaz de levar adiante a sua boa nova e honrar a sua herança de forma muito mais aperfeiçoada do que o mais inatacável e articulado dos cristãos. Porque, muito evidentemente, o reino de Deus não consiste em palavra, mas em poder.

Aplica-se aqui, de forma irretocável e como sempre, a parábola do fariseu e do cobrador de impostos. Por um lado, os cristãos somos os fariseus que agradecem em voz alta, na luz de um palco que construímos para nós mesmos, a dádiva de não sermos pecadores como os irreligiosos; por outro, os irreligiosos que fazem avançar secretamente o reino são como o cobrador de impostos, que não ousam assumir a ribalta e não se consideram dignos de levantar a cabeça nem mesmo para proferir o nome do herói cuja herança poluímos. Fique muito claro, porque esse mesmo Jesus deixou-o muito claro, que não seremos nós a merecer o abraço de confidência do mestre.

O que fode com o cristianismo somos nós.