Vivemos em um país em que o mito da democracia racial ainda é muito forte. Escuto muito de familiares, amigos, colegas de doutorado que no Brasil não existe racismo; que todos possuem as mesmas oportunidades e que se você realmente quiser superar os conflitos e injustiças sociais você consegue. Simples assim! Apenas uma questão de boa vontade.

Quando ouço coisas deste tipo, lembro-me dos tempos de criança, quando uma amiga de minha mãe olhava para mim e para o meu irmão e dizia: “-Que lindo seus filhos! Mas se ela fosse da cor do menino, seria mais linda ainda!”. Ou ainda em minha adolescência quando a mãe do meu namoradinho disse que não aprovava o nosso relacionamento por eu ser “escurinha”. Estas duas situações são difíceis de serem esquecidas e ignoradas… e mostra de como o racismo de maneira sutil, o que o torna mais difícil de ser combatido, ainda é bem presente em nossa “Pátria Mãe Gentil”!

Quando pensamos na igreja, achamos que este tipo de problema também não existe. Com um discurso de que “somos todos iguais” ou ainda “um só em Cristo Jesus”, somos levados a não refletir sobre as questões de raça e etnia nos espaços religiosos. Outro engano… Nossas igrejas, na grande maioria das vezes, pregam de maneira oculta o que chamamos de “racismo institucional”, ou seja, “quando uma organização ou instituição coletivamente deixa de oferecer um serviço adequado e profissional às pessoas por causa da cor, cultura ou origem étnica” (Conselho Mundial de Igrejas, 2004, p. 12-13[1]).

Marco Davi de Oliveira[2] explica que o racismo institucional pode ocorrer em nossas igrejas por intermédio da teologia, da educação e pela falta de referências; ou seja, possuímos uma teologia centrada na cultura euro-estadunidense que demonizou e tornou inferior tudo o que poderia lembrar a cultura africana, negra; nossa educação religiosa não reflete sobre temas polêmicos, como os que envolvem a sexualidade e o racismo, como se eles simplesmente não existissem, ou ainda, não tivessem tanta importância; e por fim, é notória a pouquíssima referência de homens e mulheres negras na liderança das igrejas.

Precisamos urgentemente tentar fazer um diálogo com esta questão tão pouco debatida no cenário evangélico. Nossas igrejas contribuíram para que a situação de discriminação e marginalização dos negros no Brasil fosse por tanto tempo perpetuadas e por isso, temos uma dívida a pagar. Acredito que um primeiro passo está sendo dado… Alguns nomes do cenário evangélico estão escrevendo e posicionando-se quanto esta questão, o reconhecimento da existência do problema é o primeiro passo para superá-lo.

Precisamos, urgentemente, de uma leitura bíblica que desenvolva a cidadania à cultura negra afro-descendente e uma teologia que reflita “criticamente sobre os fundamentos e a coerência interna de sua própria tradição de fé” (SOARES, 2008, p. 34[3]) se quisermos que a nossa evangelização continue a ser um acontecimento de Boas Novas, e não um escândalo, ou ainda um veículo cultural estranho.

E você? Já pensou sobre isto? Sua igreja, seu pastor, professor de escola bíblica já conversou com você sobre esta questão? Não? Que tal começar agora?


[1] Conselho Mundial de Igrejas. Justiça Transformadora: Ser Igreja e Superar o Racismo. Geneva, Suíça, 2004.

[2] OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil. São Paulo, SP: Mundo Cristão, 2004.

[3] SOARES, Afonso M. L. No espírito do Abbá: fé, revelação e vivências plurais. São Paulo, SP: Paulinas, 2008.