Estive nesta última semana em Vitória, capital do Espírito Santo, para participar do II  Seminário Nacional de Africanidades e Afrodescendência que tinha como tema “ Formação de Professores e Histórias de Vida”.

Participei deste seminário com um mini-curso de três dias intitulado “Fé, Expressão E Cultura: Por Um Resgate Da Negritude Na Liturgia Brasileira”. Confesso que de início fiquei muito temerosa, mas fui tão bem acolhida e recebida por todos de seminário que me senti em casa! Ao final do curso mais de 80 pessoas passaram pelo auditório onde eu estava e ficaram encantados com a novidade da temática, que tem como categorias pricipais o dialógo interreligioso, inculturação, liturgia e evangelho. Aproveitei o momento para divulgar também a ANNEB – Aliança de Negros e Negras Evangélicos do Brasil.

Saí de Vitória repleta de novas amizades, pastores e pastoras, padre e outros religiosos católicos, sacerdotes e participantes de religiões de matrizes africana e indígena, e pessoas que não professavam nenhum tipo de religiosidade. Sem dúvida, foi um evento com poucos e uma experiência maravilhosa da qual nunca me esquecerei.

Muitos me solicitaram os texto que utilizei durante os três dias de mini-curso. Então resolvi disponibilizá-los aqui no blog; segue logo abaixo.

TEXTO 1:

PROTESTANTES E CULTURA AFRO-DESCENDENTE: UMA RELAÇÃO CONTURBADA

Introdução

Apesar do número significativo de negros na população brasileira, a igreja protestante (histórica e pentecostal), conhecida hoje como evangélica, não tem observado a riqueza cultural que esta matriz possui e pode proporcionar à cultura evangélica. De modo geral, a liturgia, a música e a educação das igrejas ditas evangélicas no Brasil são brancas e o negro, para ter acesso a elas, tem que sofrer um processo de branqueamento.

Ser negro e pentecostal significa em muito casos, ainda hoje, não ser mais praticante da macumba ou umbanda e aceito pelos demais “irmãos” brancos que o vê como um negro diferente dos demais, um negro de “alma branca”. Podemos analisar algumas estratégias que as igrejas, tradicionais e pentecostais, utilizaram para que se forjasse uma ideologia do branqueamento dentro de suas igrejas: a teologia, branca e racista, a começar por suas próprias origens – euro-americana; a educação, onde o tema democracia racial não é discutido nas escolas bíblicas; aliás, a educação religiosa dessas igrejas passam longe de assuntos polêmicos que exijam o mínimo de reflexão; e a falta de referência, ou seja, poucos são os negros que ocupam posição de liderança, ou dirigem igrejas.

O negro e as igrejas protestantes

Os negros foram transportados da África para o Brasil em porões dos navios negreiros. Eles eram amontoados, mal-alimentados, sofriam castigos e eram mantidos em completa promiscuidade. Muitos morriam na viagem, somente os mais fortes conseguiam chegar em terras brasileiras; a força deles foram o preço de sua escravidão.

O Brasil recebeu 37% de todos os escravos africanos que foram trazidos para as Américas, totalizando mais de três milhões de pessoas. Durante o período colonial, a escravidão era a base que sustentava a economia do Brasil, principalmente na exploração de minas de ouro e nas lavouras de cana-de-açúcar. Por vários séculos, desde o ciclo da cana-de-açúcar (séculos XVI e XVII),  até o ciclo do café (séculos XIX e XX), o negro foi o braço sustentador da economia brasileira, estando presente em todas as atividades econômicas fundamentais do país. Para termos uma idéia da importância da mão-de-obra escrava para a economia brasileira, somente no período de 1820 à 1860, o Brasil recebeu 1.200.000 negros escravizados, mais que o dobro da quantidade recebida por toda a América espanhola no mesmo período.

Os escravos assistiram à chegada dos primeiros protestantes (protestantismo de invasão), viram suas crenças, costumes e fé, contudo os primeiros protestantes que aqui chegaram – através dos huguenotes, dos holandeses e flamengos durante o período colonial –viam o negro apenas como uma indispensável força de trabalho, barata e muito rentável.

Com a independência do Brasil, houve grande interesse por parte de imigrantes, inclusive protestantes, de virem tentar uma vida melhor no “novo mundo”. O protestantismo de imigração inicia-se na primeira metade do século XIX, com a chegada de imigrantes alemães, onde fundam, em 1824, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil. A igreja luterana era uma igreja étnica, ou seja, voltada apenas para os imigrantes e seus descendentes. A Igreja Metodista Episcopal foi então a primeira denominação a iniciar atividades missionárias junto aos brasileiros. Eles fundaram no Rio de Janeiro a primeira escola dominical do Brasil em 1828. Contudo, a sua atuação foi destinada aos grupos de classe média e a alta burguesia, através de um discurso elitizado. Desta forma, o negro, segundo Leonardo Boff:

Pelo fato de serem diferentes dos brancos, dos cristãos e dos europeus, foram tratados com desigualdade, discriminados. A diferença de raça, de religião e de cultura não foi vista pelos colonizadores como riqueza humana. Grande equívoco: a diferença foi considerada como inferioridade! (BOFF, 1997, p. 19).

Durante o período missionário protestante (protestantismo de missão), entre os anos de 1850 e 1900, os protestantes buscaram formar entre seus adeptos uma forte consciência de ser “diferente”, ou em outras palavras, “anticatólico”, o que gerou no meio do protestantismo uma tendência religiosa firmada na negação e oposição à religião tradicional, arcaica, praticada e vivenciada anteriormente, para abrir-se para o novo, para o moderno, entrando no mundo das letras, a Bíblia. Nessa nova visão religiosa as pessoas passavam a viver a experiência da conversão sinalizada por uma ruptura com o catolicismo (RIBEIRO).

Esses missionários que – introduziram também outra cultura, marcada pelo estilo de vida norte americana – vieram tanto do Norte como do Sul dos Estados Unidos, trouxeram consigo profundas divergências teológicas e políticas. Os do Norte tinham conceitos teológicos e idéias liberais, eram contra a escravidão. Os do Sul eram ortodoxos intérpretes das Escrituras Sagradas – “fundamentalistas” – a escravidão era tida como uma instituição ordenada por Deus. Para os missionários do Sul o negro era um descendente de Caim, amaldiçoado por Deus para sempre. O servo do servo de seus irmãos (VIEIRA). Nesse contexto, em meio a tantas divergências teológicas e políticas, muitos no Brasil foram convertidos através de uma pregação influenciada pelo fundamentalismo que além de resistir ao catolicismo, tinha conceitos e preconceitos contra os negros, o que levou as Igrejas Protestantes a estigmatizar e menosprezar a cultura e regiliosidade africana, tidas como satânicas. Veja o que diz o Padre Antonio Aparecido da Silva:

Do púlpito à corte, as práticas religiosas de origem africana foram estigmatizadas e satanizadas, sofrendo, inclusive, a repressão policial. Graças unicamente à proteção divina e à resistência negra, permanecem hoje, mais florescentes que ontem. Mesmo com o clima mais favorável para o ecumenismo e o diálogo religioso que se criou após o Concílio Vaticano II, ainda são fortes os preconceitos e a distância de católicos e protestantes em relação à religiosidade de origem africana (SILVA, 1991, p. 99).

Até os dias de hoje, muitas igrejas protestantes conhecidas como históricas, não permitem que em seus cultos sejam utilizados instrumentos musicais ou ritmos que não sejam os trazidos pela tradição européia e norte-americana. O som do piano e do órgão é a música considerada a mais apreciada por Deus. Os ritmos, os sons de atabaques, tambores, chocalhos, são elementos profanos e pecaminosos, por originarem-se da cultura, e serem usados nos cultos afros, considerados inferiores e demoníacos. Esta visão tem suas raízes ideológicas na idéia de branqueamento que associava o negro a tudo o que é mau, feio e ruim, e o branco ao bom, bonito e perfeito. Como diz Marco Davi de Oliveira:

Assim, a liturgia constituiu outra barreira a que os negros no Brasil se aproximassem mais das igrejas históricas. Com uma programação litúrgica que valorizava os ritmos europeus e norte-americanos, as denominações históricas demonstravam quanto se colocavam à margem da cultura negra do Brasil. (OLIVEIRA, 2004, p. 59).

Com o surgimento do pentecostalismo – com sua liturgia mas flexível, dinâmica e participativa – os negros encontraram tudo aquilo que eles precisavam para que se vissem como cidadãos e recuperassem a auto-estima. Ser negro e pentecostal no contexto pentecostal significava não ser mais praticante da macumba ou umbanda e aceito pelos demais “irmãos” brancos que o vê como um negro diferente dos demais, um negro de “alma branca”.

Mesmo as igrejas pentecostais possuindo como valores máximos a cultura ocidental européia e norte-americana, paradoxalmente, serão elas onde os negros mais se identificarão; é o pentecostalismo que proporcionará essa liberdade a eles, fazendo com que os negros participem do culto, deixando de ser apenas meros ouvintes e espectadores. Entre as explicações para esse fenômeno, Marco Davi de Oliveira afirma que alguns aspectos contribuíram para isso:

(…) O primeiro, que salta aos olhos, é a utilização do corpo como instrumento de culto. Nas igrejas pentecostais, o corpo é usado livremente no momento da adoração, indo de palmas e danças até expressões incomuns, como rastejar no chão, abrir os braços numa posição de vôo, correr sem sair do lugar, etc. (…) O segundo aspecto que chama a atenção na liturgia pentecostal e que atrai os negros no Brasil é a musicalidade. (…) É muito difícil para um negro ouvir um ritmo que faça alusão à sua origem e ficar inerte. (…) Um último aspecto que pode ser identificado na liturgia pentecostal e que atinge, sobretudo, os negros é a força dos antepassados, embora essa questão não seja muito bem compreendida pela maioria dos evangélicos, tanto pentecostais quanto históricos.(…) Lembrar os antepassados – sem cultuá-los, naturalmente – é reconhecer a força cultural que privilegia os mais experientes, chamando-os sábios. (OLIVEIRA, 2004, p. 68-70).

São esses aspectos que vão constituir as “reminiscências” (OLIVEIRA), ou seja, as lembranças , os vestígios, de uma religiosidade africana, religiosidade esta, segundo Paulo Botas, antropocêntrica, pautada em experiências.

  1. A epistemologia da teologia africana intui que a realidade só pode ser entendida por meio da experiência participativa (rituais e símbolos).
  2. A ontologia intui que a realidade é holística – sem uma divisão clara entre matéria e espírito – e nela os poderes cósmicos da vida desempenham papel decisivo.
  3. A hermenêutica intui que uma pessoa interpreta corretamente a sua religião e participa da experiência adequada. É fundamental interpretar as religiões outras a partir não apenas da experiência grega, européia ocidental, mas da africana, jamais contemplada para a leitura das outras religiões. (BOTAS, 1996, p. 23-24).

Contudo, observamos que, apesar do movimento pentecostal ser de origem negra e atrair os negro brasileiros, ele possuia como valores e referencial do divino, para todos os povos, a cultura ocidental (européia ou norte-americana), tratando as demais culturas, inclusive a cultura africana, como de origem diabólica. Tudo isso fez com que a cultura africana fosse cada vez mais distanciada da identidade do negro pentecostal.

O lado “negro” do pentecostalismo

O pentecostalismo no Brasil é, apesar de negro, de origem norte-americana; sendo assim, sempre olhou de maneira preconceituosa as diversas manifestações culturais já existentes em solo brasileiro. O que aconteceu entre o pentecostalismo e os afro-descendentes no Brasil, equivale a imposição da cultura euro-americana pelos cristãos imperialistas aos países por eles colonizados, como afirma Brian McLaren:

(…) uma visão de substituição cultural; aniquilar as culturas associadas a outras religiões e substituir todas as memórias e artefatos delas com os ornamentos da religião dominante. É exatamente isso o que o cristianismo ocidental tem praticado de maneira menos explosiva, porém não menos real em nossa história. (2007, p. 280).

Ou ainda como foi citado David O. Moberg, em Missão Integral de C. René Padilla:

Temos equiparado o ‘americanismo’ com o cristianismo até o ponto de estarmos tentados a crer que as pessoas em outras culturas, ao  converterem-se, devem adotar os padrões institucionais estadunidenses. Através de processos psicológicos naturais somos levados a crer inconscientemente que a essência de nosso American way of life é basicamente – senão totalmente – cristã (MOBERG apud: PADILLA, 1992, p. 28).

Desde sua gênese o pentecostalismo, e seu intuito de formar adeptos, possui uma forte característica que é a de “tirar” o fiel deste mundo, e isso implicava fortemente em ser contracultural, sectário e ascético. Com uma crença fundamentada na Segunda Vinda iminente de Cristo, e na dicotomia entre o bem e o mal, o céu e o inferno, o material e o espiritual, este não deveria jamais se interessar por “coisas mundanas”, se posicionando incisivamente contra a participação de cristãos em todo e qualquer tipo de manifestação artística e cultural. Para o pentecostalismo, a arte possuía como fator genético o pecado. Ser pentecostal nesse sentido, implicava em sacrifícios, penitências em troca de paz espiritual e certeza de salvação, devendo sempre estar alerta para uma série de proibições e tabus comportamentais.

Embora a igreja pentecostal possua uma origem negra, ela continuará a pensar como igreja estrangeira. Desta forma, além de ter aversão a tudo que é católico, vai também ojerizar todas as manifestações culturais brasileiras, indígenas e negras que vão ser confundidas com as manifestações católicas, logo consideradas ímpias, mundanas, diabólicas. Marco Davi de Oliveira afirma:

O primeiro princípio que notamos na Igreja Evangélica brasileira é que tudo que vem de matriz africana é coisa demoníaca. Na Igreja brasileira, já se convencionou considerar “do diabo” tudo que tem origem na África. (…) Outro princípio que tomou conta da igreja brasileira em relação à origem africana dos negros é que os elementos que guardam semelhança com os aspectos culturais da África devem dar lugar àqueles originários de outros lugares, de outras culturas. (…) Um terceiro princípio que deve ser citado em relação à origem africana dos negros é que essa origem deve ser esquecida para não suscitar nenhuma divisão entre os evangélicos. Falar das questões raciais não é correto, nem se torna um testemunho adequado (2004, p. 94-96).

A proposta do pentecostalismo então, foi e é de um rompimento com o “velho homem”, deixando para trás toda herança cultural de origem, para se tornar uma “nova criatura”, abraçando a forma de celebrar e cultuar a Deus, importada culturalmente do hemisfério norte, o que não possibilita nenhuma forma de aceitação de elementos culturais afro-brasileiros, quer nas celebrações, quer na prática da vida diária. Arte, entretenimento e ociosidade formavam (ou ainda formam) o triângulo perfeito para a instalação da “oficina de Satanás”. Este conservadorismo exacerbado se estendeu por décadas e influenciou significativamente na formação de gerações completamente alienadas da arte e da cultura, de maneira geral, causando danos incalculáveis à cultura afro-descendente, que sofreu um processo de aculturação[1] dentro dessas denominações, resultando em desvalorização, descaracterização e perca de identidade da cultura negra nas igrejas pentecostais.

O branqueamento

A ideologia do branqueamento entrou em voga no Brasil a partir na década de 30, com o objetivo de extinguir o seguimento negro brasileiro, pois existia um desejo que o país se tornasse branco o que seria conseguido com o cruzamento das raças. Durante muitos anos, o Brasil possuía a maioria da população negra, sendo assim, era visto como um país de mestiços. Por isso, foram usados vários instrumentos institucionais para que esta ideologia fosse implantada.

Um desses instrumentos foi a igreja protestante, conhecida hoje como evangélica, que ainda é um instrumento de manutenção desta ideologia. A história da igreja evangélica no Brasil sempre favoreceu aos brancos em detrimento a tudo o que acontecia com os índios e negros. A igreja protestante chegou a solo brasileiro em plena escravidão e manteve-se omissa e conivente com as atrocidades que eram feitas.

Podemos analisar algumas estratégias que as igrejas protestantes, históricas e pentecostais, utilizaram para que se forjasse uma ideologia do branqueamento dentro das igrejas.

A Primeira delas é a teologia; teologia esta branca e racista, a começar por suas próprias origens – européia e norte-americana. Como exceção temos o Pentecostalismo que surge do avivamento iniciado pelo negro e filho de escravo William James Seymour, e que se aproximou dos mais pobres e negros logo que chegou no Brasil (OLIVEIRA), o que já mostra um certo avanço . Contudo, as igrejas pentecostais influenciadas pelo racismo demonizaram tudo o que era de origem negra. A nossa teologia é de origem racista. Por isto que até os dias de hoje vemos a descrição do pecado como a cor preta, o diabo da mesma forma, etc.

A segunda coisa que podemos citar é a educação religiosa – objeto do nosso estudo. Não se é falado em democracia racial em nossas escolas bíblicas, aliás, a educação religiosa de nossas igrejas passam longe de assuntos polêmicos que exijam o mínimo de reflexão; nossas igrejas fogem “como o diabo foge da cruz” de constrangimentos e de impossibilidade de respostas. Elas tentam sempre manter uma postura fundamentalista e dogmática de tudo. Isso não acontece apenas com a questão racial, mas com muitos outros assuntos tais como a sexualidade, o sexo, os desejos, atração e o prazer.

Uma última estratégia que poderíamos citar é a falta de referência, ou seja, poucos são os negros que ocupam posição de liderança, ou dirigem igrejas.

Todo esse contexto gerou, inclusive nas igrejas pentecostais, um grande número de casamentos inter-raciais. O desejo de aceitação em muitos casos fez com que se escolhesse o cônjuge pela cor de sua pele, falando mais alto do que o amor. Como afirma Marco Davi de Oliveira:

(…) o amor não tem raça, nem está preocupado com a cor da pele do ser amado. Quem ama, ama e pronto. Há a escolha pessoal, e isso é muito saudável. Porém é sabido que nem todos os casamentos nas igrejas pentecostais têm o amor como única motivação (…) a escolha de um cônjuge está, muitas vezes, circunscrita à cor da pele (2004, p. 87-88).

Esse tipo de ideologia fez com que por muito tempo se acreditasse que o branqueamento fosse o melhor caminho para se conquistar a ascensão social, inclusive dentro das igrejas.

Referências

BOTAS, Paulo. Carne do sagrado – edun ara. Devaneios sobre a espiritualidade dos orixás. Rio de Janeiro: Vozes, 1996.

MCLAREN, Brian D. Uma ortodoxia generosa: a Igreja em tempos de pós-modernidade. Trad. Jorge Camargo. Brasília: Palavra, 2007.

OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil. São Paulo: Mundo Cristão, 2004.

PADILLA, C. René. Missão integral: ensaios sobre o Reino e a igreja. Trad. Emil Albert Sobottka. São Paulo: FTL-B / Temática Publicações, 1992.

RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. 3ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

SILVA, Antônio Aparecido da. Cultura Negra e Evangelização. São Paulo: Paulinas, 1991.


[1] Quando falamos de aculturação estamos nos referindo à absorção de uma cultura pela outra, onde essa nova cultura terá aspectos da cultura inicial e da cultura absorvida. Este conceito está fortemente associado à idéia de extinção, descaracterização ou desestruturação social-cultural e perda de identidade de um povo. Isso porque a aculturação supõe que uma cultura possui mais valor do que outra, do mesmo modo como a suposta superioridade de certas raças em face de outras. Sendo assim, esta se faz pela imposição ou insinuação de estilos de comportamento através de processos sociais formais e informais, diretos e indiretos.

Nesse contexto, o processo de aculturação é um molde social imposto por uma sociedade hegemônica sobre outra. Este molde pode acontecer de forma objetiva (imposição aberta, colonialista) ou de forma subjetiva (imposição baseada na atração e conseqüente desvalorização do sistema cultural materno em detrimento do apresentado), sendo ambas danosas.

TEXTO 2:

INCULTURAÇÃO DO EVANGELHO:

DESAFIO MISSIOLÓGICO JUNTO AOS AFRODESCENDENTES (1)

Introdução

Ainda que a idéia de uma democracia racial seja um sonho não concretizado, atualmente, dentro de uma construção democrática das relações políticas e sociais, a nação brasileira está implementando políticas de ações afirmativas que possuem o objetivo de reparar ou minimizar os danos historicamente causados aos afro-descendentes brasileiros, compensando-os no presente, pelos obstáculos que enfrentaram (e enfrentam), por motivo da discriminação e marginalização a que foram submetidos no passado.

A expressão “ação afirmativa” foi utilizada pela primeira vez em 1961, numa Ordem Executiva do Presidente norte-americano John Kennedy, ao se referir a necessidade de promover a igualdade entre negros e brancos nos Estados Unidos. Embora este seja um termo norte-americano, está subjacente em muitas práticas implementadas em sociedades tão diferentes quanto a Índia, Malásia, Nigéria, China, as antigas Iugoslávia e União Soviética, a Nova África do Sul, a Colômbia, a Alemanha e outros países europeus.

Ações Afirmativas são, portanto, uma série de medidas especiais e temporárias, tomadas ou determinadas pelo Estado, espontânea ou compulsoriamente, que têm como objetivo eliminar desigualdades historicamente acumuladas, garantindo a igualdade de oportunidade e tratamento, bem como de compensar perdas provocadas pela discriminação e marginalização, decorrentes de motivos raciais.

Em virtude da triste realidade vivida pela comunidade negra no Brasil fica evidenciado que democracia e crescimento econômico são importantes, mas, respeito cultural é fundamental; respeito este entendido no contexto mais amplo possível da construção humana, inclusive no tocante às especificidades religiosas.

As igrejas de tradição protestante evangélica, tanto históricas, como pentecostais, contribuíram para que a situação de discriminação e marginalização dos negros no Brasil fosse por tanto tempo perpetuada. Esta é uma dívida que temos que tentar contornar. Daí a ideia de uma liturgia de afirmação às raízes étnicas e culturais afrodescendentes, com o intuito de fazer valer o respeito cultural tão fundamental para a construção de uma sociedade igualitária, livre e democrática.

A Inculturação

Inculturação é algo que sempre existiu na tradição bíblico-cristã, que nos nossos dias tem se tornado um dos temas centrais no contexto da renovação teológica, isso porque o cristianismo distanciou-se das realidades concretas da vida, tornando-se uma religião, ao mesmo tempo, anacrônica em relação à modernidade, e não respeitadora das múltiplas culturas existentes.

De maneira elementar, refere-se a um método de acrescentar à sua cultura, aspectos culturais de um determinado povo, resgatando e acatando os elementos próprios da cultura, a fim de favorecer o surgimento, de seu próprio interior, de “expressões originais” da experiência cristã.

A partir da XXXII Congregação Geral da Companhia de Jesus, ocorrida nos anos de 1974-1975, o termo inculturação começou a fazer parte do repertório usual da teologia e da pastoral. Uma referência importante foi a carta do então Superior Geral dos jesuítas, Pedro Arrupe, sobre a inculturação (1985, pp.169,170):

A inculturação é a encarnação da vida e da mensagem cristãs em uma área cultural concreta, de modo que não somente esta experiência se exprima com os elementos próprios da cultura em questão (o que ainda não seria senão uma adaptação), mas que esta mesma experiência se transforme em um princípio de inspiração, a um tempo norma e força de unificação, que transforma e recria esta cultura, encontrando-se assim na origem de uma “nova criação”.

No mesmo sentido, compreendemos que há a necessidade de diálogo inter-religioso; e mais, uma atitude atenciosa de escuta precisa ser cultivada, para que haja uma aprendizagem significativa, buscando vivenciar “tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor”[1], mesmo em outras religiões, deverá fazer parte de nossa realidade. Para esta compreensão, Manzatto (1994, p. 299) explica:

Isso significa também que o cristianismo ainda não desenvolveu todas as suas potencialidades históricas; nesse diálogo com a realidade, com as culturas e com as outras religiões, ele pode descobrir potencialidades suas que, até então, não haviam sido colocadas em evidência.

Complementando esta ideia, do respeito às religiões, Vivekananda (citado por Bello, 1998, p.176) ressalta:

Não acredito que elas sejam contraditórias, pelo contrário, são complementares. Cada religião, assim como se apresenta, assume uma grande parte da grande verdade universal, e investe todas as suas energias para indicar e realizar num tipo específico, uma determinada parte da grande verdade. Portanto, trata-se de um acréscimo, não de uma exclusão, Esta é a idéia.

Existem três áreas principais, desde o Concílio Vaticano II, no decreto sobre ecumenismo, onde devemos fazer esforços significativos para que a inculturação seja uma realidade: a liturgia, a espiritualidade e a reflexão teológica. Contudo, o medo do sincretismo religioso tem dificultado progressos mais significativos nessas áreas, principalmente quando nos referimos a inculturação da cultura afrodescendente.

Então, compreendemos que mesmo havendo riscos nesse processo dialógico com outras culturas, ao que se refere a questão do sincretismo, principalmente se este torna-se possibilidade de perda da identidade cristã, não devemos  hesitar e recolhermo-nos na presunção de vivermos uma “pureza cultural”, inexistente, em virtude do próprio caráter dinâmico e vivo da cultura, sempre em mutação e evolução; ainda mais se considerarmos a natureza comunitária do ser humano e, por consequência, das culturas, pois interpenetram-se e relacionam-se constantemente.  Sobre esse aspecto, Manzatto (1994, p. 275) nos convida à atitude de “desprivatizar a fé”, para fazer valer o autêntico testemunho cristão:

A comunidade que crê é, ela também, convidada a ultrapassar os limites de um possível “individualismo coletivo”, no qual a comunidade fecha-se sobre si mesma, sobre sua vida e seus problemas, a fim de alcançar dimensões sociais no seu testemunho de fé e amor.

É ilusório, então, pensarmos que existe uma identidade cristã “intocavelmente pura”, tentando nos resguardar por meio de atitudes reacionárias, posturas intolerantes, interpretações bíblicas anacrônicas e fundamentamentalistas, ou mesmo por uma santidade bairrista; pois, como evidencia Manzatto (1994, p. 285) sobre a identidade cristã:

Ela constitui-se e caracteriza-se sempre a partir da história e, dessa forma, sempre sincretizada. Não existe uma identidade cristã que venha pronta das mãos de Deus. Por isso, torna-se difícil falar dessa identidade cristã prescindindo de suas concretizações e objetivações históricas estabelecidas nos parâmetros da cultura ocidental.

Ao invés de termos medo, devemos seguir o modelo da encarnação de Cristo, que não hesitou fazer-se homem entre os homens, como expressa Filipenses 2: 5-8, mesmo tendo que enfrentar o “fracasso” da cruz. A encarnação é para nós a garantia da companhia divina e de sua presença até mesmo em meio aos iminentes fracassos da vida.

Portanto, inculturação não é adaptação, ou seja, está muito além de uma tradução da Bíblia de uma língua para outra. É uma reinterpretação dos conteúdos bíblicos, é um desafio que nos convida a estarmos abertos a novos e inusitados dinamismos hermenêuticos. Não é o engessamento da mensagem bíblica, através de tempos e épocas, culturas e costumes sem que haja permissão ao diálogo, da essência do conteúdo bíblico com a cultura a que se propõe o contato, sob pena de negar esta essência. Logo, no campo da reflexão sobre inculturação, a grande proposta está na prática do diálogo entre as diversas religiões. Como adverte McLaren (2007, p. 276), a fim de evitarmos uma postura errada para com outra religião: “Nossa identidade cristã não deve nos deixar com medo, superiores, isolados, na defensiva, agressivos ou hostis às pessoas de outras religiões. Bem ao contrário”. Significa cultivarmos um diálogo que se traduz em reciprocidade, igualdade de condições e de dignidade de parceiros.

Fundamentação bíblica

Não encontramos na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento, Deus preferindo uma determinada raça ou etnia em detrimento de outra. Contudo, o cristianismo assimilou uma ideologia racista – negro como escravo do branco – do Império Romano, incorporando esse racismo à sua teologia; este pensamento era defendido inclusive por alguns pais da Igreja.

Ambrósio já dizia que “os escravos provêm do pecado como Cam, o filho de Noé, o primeiro que por culpa própria recebeu o nome de escravo” (MIGNE, Patrologia Latina, citado por HOORNAERT,1984, pp.16,17). “A cor dos etíopes significa as trevas da alma e sua hediondez que se volta contra a luz, deixa envolver por escuridão, é mais parecida à noite do que ao dia” (MIGNE, Patrologia Latina, citado por HOORNAERT, 1984, pp.16,17); Agostinho de Hipona afirmava ainda que “esse nome (escravo) provém da culpa, não da natureza” (De Civitate Dei, citado por HOORNAERT, 1984, pp.16,17); Orígenes ainda diz que, “se negro é associado ao pecado, constitui uma espécie de estado de pecado permanente, que afeta os que vivem além do rio Etíope, que foi atingido por excessivos pecados e malícias, e resultaram escuros” (MIGNE, Patrologia Grega, citado por HOORNAERT, 1984, pp. 16,17).

A escravidão dos negros foi justificada, utilizando o Antigo Testamento, como uma espécie de maldição divina de trabalhar “com o suor do teu rosto” (Gn. 3:19). Desta forma, os africanos seriam descendentes de Caim (irmão de Abel), ou então de Cam, amaldiçoado por ter descoberto a nudez do pai, Noé (Gn. 9:25-27). No Novo Testamento, outras passagens foram utilizadas para ensinar os escravos a obedecerem aos patrões (Cl. 3:22-24; Ef. 6:5-9; 1Pe. 2:18-21). “Felizes os servos que o patrão encontrar vigiando” (Lc. 12:37). “Carreguem os fardos uns dos outros” (Gl. 6:2). Neste sentido, seria um ato de caridade cristã comprar a liberdade dos negros.

Entretanto, o que realmente vemos nos registros bíblicos é que desde o início das comunidades cristãs os africanos têm forte participação, como podemos ver, por exemplo, Simão de Cirene, o primeiro discípulo a carregar a cruz após Jesus (Mc. 15:21), nome etíope descrito por Lucas (At. 8:26-40), que marca a entrada do primeiro africano negro na Igreja, confirmando, assim, que os negros estiveram presentes nas origens da Igreja antes dos europeus e nos integrantes africanos na comunidade de Antioquia (At. 11:20 e 13:1). Ainda podemos citar a carta de Paulo à Filemon, como um dos escritos mais belos sobre a libertação dos escravos. Entretanto, a maioria dos negros nem imaginam que a sua presença na igreja é mais antiga do que a própria missão de Paulo à Europa, achando que sua participação é recente (COMBLIN).

Percebemos então que a Bíblia não é um livro de um determinado povo, ou raça, ela destaca a presença de várias etnias, inclusive os negros em suas narrativas, seus costumes, cultura e maneira de cultuar a Deus fazendo valer o texto do apóstolo Paulo em Gl. 3:28: “Desse modo não há diferença entre judeus e não judeus, entre escravos e livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo”. A Bíblia propõe, então, um cristianismo:

(…) acolhedor das outras religiões do mundo, e não uma ameaça. Deveríamos ser vistos como um protetor de suas heranças, um defensor de inimigos comuns, não um dos inimigos. Assim como Jesus veio originalmente não para destruir a lei, mas para cumpri-la, não para condenar as pessoas, mas para salvá-las, creio que ele vem hoje não para destruir ou condenar coisa alguma (nada, exceto o mal), mas para redimir e salvar todas as coisas que podem ser redimidas e salvas (McLAREN, 2007, p. 281).

Nos nossos dias, muitos têm se mobilizado para mudar o quadro teológico quanto ao afrodescendente. Muitos esforços estão sendo feito para que uma teologia do negro seja elaborada e assimilada. A Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo, por exemplo, em sua consulta sobre Cultura negra e teologia na América Latina pediu um “enegrecimento do teólogo”, ou seja, que as lutas de resistência sejam levadas em consideração, o passado cultural, as práticas religiosas e outros aspectos de tradição africana (ASETT, 1986).

A Segunda consulta ecumênica de teologia e culturas afro-americana-caribenha, em novembro de 1994, realizada em São Paulo, elaborou um texto sobre Bíblia e comunidades negras, formulando alguns pressupostos para uma hermenêutica negra:

A bíblia relata a manifestação de Deus como libertador na cotidianidade dos oprimidos e oprimidas, sem se importar com sua etnia, mas sim com sua situação existencial de opressão e exclusão. É um Deus que escuta e atua junto delas e deles na transformação da história (Ex 3,7-10) e não está de acordo com sua marginalização e exclusão (ANDRADE e outros, 1994, p.2).

Um dos motivos que gerou grande resistência para com as culturas africanas no Brasil foi o processo de aculturação, por meio do qual os símbolos cristãos foram absorvidos pela religiosidade negra, resultando no sincretismo da religião afrobrasileira que conhecemos hoje.

Infelizmente, nas igrejas pentecostais ainda não existe nenhum trabalho oficializado com relação ao negro. Existem algumas manifestações  de pessoas e organizações oriundas dessas igrejas, mas sem nenhum vínculo com as denominações ou oficialização por suas lideranças. É um dado lastimável, uma vez que é nas igrejas pentecostais que se encontra a maior parcela de afrodescendentes, não por que esse segmento optou pelo negro, mais pelo negro ter optado pelo pentecostalismo e por, paradoxalmente, este ter se identificado melhor com essas denominações.

Precisamos, urgentemente, de uma leitura bíblica que devolva a cidadania à cultura negra afrodescendente e uma teologia que reflita “criticamente sobre os fundamentos e a coerência interna de sua própria tradição de fé” (SOARES, 2008, p. 34). Para isso, devemos eliminar de uma vez por todas qualquer leitura que condene a população negra à escravidão e fazer uma leitura bíblica que afirme a igualdade de todas as raças e etnias, logo, contra a escravidão de qualquer indivíduo ou grupo étnico.

Este é o momento do negro descobrir e assumir sua negritude e, assim, possuir uma nova postura diante de si, da vida e da sociedade refletindo numa fé revolucionária e transformadora. Possuindo uma releitura bíblica, que percebe a proposta de Deus para a humanidade, onde os negros estão incluídos, poderemos ver Deus, no rosto negro cheio de esperança, esperança de libertação (SANT’ANA).

Sendo assim, uma teologia do negro se preocupa com o resgate de sua dignidade, criada à imagem e semelhança de Deus. Para tal, é imprescindível que conheçamos a sua história, anseios, dores, sofrimentos, alegrias e esperanças (ROCHA). Somente desta forma poderemos vivenciar a experiência de Deus sob o olhar de quem foi e é marginalizado, e descobrir através dos seus símbolos e cultura o Deus que é contra toda injustiça e opressão e que é Deus de justiça, igualdade e liberdade.


[1] Filipenses 4: 8 (Nova Versão Internacional).

TEXTO 3:

INCULTURAÇÃO DO EVANGELHO:

DESAFIO MISSIOLÓGICO JUNTO AOS AFRODESCENDENTES (2)

O corpo

Nossa teologia evangélica, influenciada pela filosofia grega, é uma teologia de negação do corpo. Atribuímos ao corpo tudo o que é mal – o pecado, as paixões ao que é material, o mundo, entre outros – enquanto atribuímos ao espírito aquilo que é bom – a santidade, o amor às coisas de Deus, o Reino celestial, entre outros – é como se o corpo fosse a prisão do espírito e ansiássemos o quanto antes a redenção de Deus.

Esquecemos, contudo, que Deus nos criou conforme sua imagem e semelhança: corpo e espírito vivente; e mais, esquecemos que esse próprio Deus se fez carne, ou ainda, corpo, e habitou entre nós e vimos a sua glória, como a glória que ele tem junto ao Pai[1]; esquecemos que esse Deus Corpo ressuscitou não só no espírito, mas também na Sua carne (corpo) e que esse Deus nos dará ainda um outro corpo, corpo este mais excelente do que o que Ele próprio nos deu, como os pais da igreja declararam no Credo Apostólico, “creio na ressurreição do corpo e na vida eterna”. Sobre isso, Jürgen Moltmann (2008, pp.66,67), o teólogo da esperança, nos diz:

“Todas as obras de Deus terminam na corporeidade” dizia Friedrich Oetinger, e eu acrescento: nesta terra. Deus formou as pessoas a partir da terra; nós somos criaturas da terra. A palavra de Deus se tornou “carne”; Cristo morou corporalmente entre nós; o Espírito de Deus é derramado sobre “toda carne”. (…) Com corpo vivo e vivido não designamos o corpo sem alma como um objeto, órgãos cientificamente objetivados e seu tratamento medicinal, mas o corpo experimentado e vivido, com o qual eu sou subjetivamente idêntico: eu sou corpo – este corpo sou eu, isso é minha constituição corporal e minha história de vida. Vida neste sentido significa a vida vivida, não a não-vivida; a vida afirmada, não a vida negada; significa a vida amada e aceita. Vida verdadeira é a corporeidade que eu sou: vida não vivida é a corporeidade alienada que eu tenho. (…) Segundo a história da criação, nós temos que aceitar plenamente a imagem e semelhança divinas em termos masculinos e femininos, em toda a sua corporeidade, e nos alegrar com o Deus vivo como corpo e alma (Sl 84:3).

Nesse sentido, temos muito a aprender com a cultura negra. Ao invés de pensarmos uma teologia e, por consequência uma liturgia, apenas para o espírito, relegando o corpo (até mesmo a questão da sexualidade), ou mesmo deixando de cuidá-lo como templo de manifestação da graça divina, precisamos, urgentemente, elaborarmos e vivenciarmos uma espiritualidade corporificada que enalteça a Deus.

Para a religiosidade negra, o corpo em si já é sagrado; é comum observarmos o uso do corpo nas festas religiosas; as danças são um meio para celebrar aos orixás. O uso do corpo sem culpa, sem vergonha, percebendo que o corpo é também instrumento para adorar ao Criador.

A valorização da corporeidade humana é assumida de forma marcante por Jesus, desde a sua encarnação; as curas corporais que realizava e, até mesmo após a morte, em sua ressurreição, através da qual o corpo humano é glorificado, mas continua sendo corpo humano. A partir disso, devemos, junto à valorização do corpo, promover a redenção de toda “a tessitura dos viventes e do espaço vital da terra” (MOLTMANN, 2008, p.66); ou seja, precisamos desenvolver “uma nova espiritualidade do corpo e dos sentidos”, genuínas atitudes de valorização do corpo, da terra e da natureza, pois todos entrelaçam-se e dependem um do outro. Não é possível ter felicidade se evitarmos questões tão essenciais.

A linguagem

Desde a chegada dos primeiros protestantes até os dias de hoje, a linguagem tem sido um problema para alcançar o negro no Brasil. Primeiro foi a questão da língua propriamente dita, que fez com que a pregação ficasse limitada ao estrangeiro, como diz Oliveira (2004, p. 56):

Quando chegou ao Brasil, não sabia falar português, e isso lhe criou muitas dificuldades em seu objetivo de atingir os brasileiros com a mensagem, já no início de seu trabalho missionário. Assim, limitou-se a pregar aos ingleses, mas sem deixar de enfrentar alguns transtornos para a realização dos cultos.

Mesmo antes, o catolicismo romano, com suas idiossincrasias européias, não comunicava sua espiritualidade numa linguagem que fosse compreendida pelos negros. Conforme a revista Aventuras na História (2009, p. 32), ao abordar a questão da escravidão, em específico os hábitos religiosos cotidianos entre senhores e escravos na Casa-grande, “na sala as orações eram feitas em latim. Os africanos reinterpretavam: Resurrexit sicut dixit (‘ressuscitou, como havia dito’) virou, na prática, ‘reco-reco, Chico disse’”.

Depois, a linguagem que as igrejas históricas adotaram atendia as classes média e alta, não atingindo as camadas mais populares da sociedade – nas quais o negro sempre esteve significativamente presente. Oliveira (2004, p. 57), ainda acrescenta a este respeito:

Percebe-se que até os dias de hoje as igrejas históricas encontram alguma dificuldade para atingir os negros brasileiros. (…) A linguagem das igrejas históricas, de modo geral, não atinge de forma tão eficaz os excluídos e mais pobres da sociedade brasileira, propondo-se, hoje em dia, a ser mais atrativa para pessoas de classe média e alta.

E por fim, mesmo o pentecostalismo com toda sua linguagem rudimentar, e por vezes simplória, também não foi um movimento que incorporou o negro, pois com o seu discurso escatológico, longe da realidade e problemas do mundo, não construiu uma linguagem de aproximação com a cultura afrodescedente.

Portanto, uma linguagem que acolha a negritude tem que se aproximar mais da realidade vivida por eles – realidade esta das periferias e favelas; não estamos falando aqui de uma linguagem descuidada, mas popular e que seja cheia de amor, como expressão do evangelho de Cristo. Uma linguagem que revela a presença de Deus junto ao negro mais por atos que por palavras. O que conta aqui são as atitudes, porque são elas que, de fato, forjam a identidade e o ser do homem.

Em muitas situações percebemos o envolvimento de Jesus em prol da vida humana, sobretudo em condições ameaçadoras, seja pela fome, por doenças, pela pobreza ou pela discriminação. Essa linguagem das boas novas chega às pessoas em forma de ação, e revela a intensidade do seu engajamento na luta e na promoção da vida; além do que, tamanho engajamento assume características de culto e de louvor a Deus.

A música

A musicalidade é uma das características mais marcantes dos afrodescendentes. A música os remete, ou ainda, traduz um pouco de sua ancestralidade.

No Brasil colonial, nas senzalas, quando anoitecia, o som dos tambores e tamborins preenchia o espaço. Os senhores de engenho permitiam essas manifestações, pois acreditavam que isso diminuiria as chances de revolta; mal sabiam que era aos sons dos tambores que os negros escravizados reafirmavam sua identidade, compartilhavam suas dores, relembravam da força de seus ancestrais – reis e rainhas – e cantavam a esperança da libertação.

A música de matriz africana foi, durante muito tempo (e ainda é em alguns espaços), marginalizada entre os evangélicos brasileiros, ao assumirem uma reação contrária quanto à utilização de instrumentos característicos da cultura negra como, por exemplo, o pandeiro, o chocalho, o atabaque, entre outros.

Hoje, verificamos que pouquíssimos cantores evangélicos despertaram para uma musicalidade mais afrobrasileira; seja pela utilização de instrumentos característicos, ou pela influência rítmica, ou mesmo por composições que dizem respeito à identidade cultural africana, ampliando e resgatando algumas das infinitas formas de adorar a Deus e rompendo a barreira dos preconceitos culturais. Entre estes artistas poderemos citar João Alexandre, Carlinhos Veiga, Márcio Cardoso e Glauber Placa; este último, contemplando em seu repertório, no CD Outras Praias, músicas de matriz africana, como por exemplo, Tatana Biso[1] (PLAÇA, 2008).

Nesta música, Jesus Cristo aparece como figura central, objeto de atenção, respeito e adoração, um kairos[2] na história dos negros, um Deus conosco, solidário com a luta, com a dor, com a vida; um Deus negro.

Em Jesus podemos contemplar todas as possibilidades experienciais da história do negro; dores e alívio, perseguição e libertação. Na bíblia, a imagem do Servo sofredor[3] sempre vem associada à imagem do libertador. Desta forma, para os negros afrobrasileiros, Cristo não está distante e sua mensagem ganha mais sentido e vigor; é símbolo contra o sofrimento e sinal de libertação.

6.5. A liturgia

O Candomblé foi a religião trazida pelos escravos para o Brasil. De teologia essencialmente africana ela mantém o culto aos orixás[4], exercendo também um papel social de identidade para as comunidades negras no Brasil. É uma expressão rica em suas celebrações e crenças.

Ainda hoje, esta manifestação conserva muitos símbolos africanos, tradições, e muitos elementos da cultura africana. Sobre a importância do candomblé para o povo negro à época da escravidão, Manzatto (1994, p. 284) nos explica:

Historicamente, o candomblé transformou-se em um lugar de resistência dos negros escravizados e explorados frente à sociedade que os dominava; trata-se, pois, de um culto que ajuda o povo negro e escravo a afirmar-se em sua dignidade humana e a buscar libertação; nesse sentido, ele não se opõe ao evangelho de Jesus, embora possam existir outros pontos sobre os quais o candomblé e o cristianismo tenham posições diferentes ou mesmo divergentes.

Contudo, apesar da riqueza que esta religião de origem africana representa, percebemos que ainda hoje existe muita discriminação da sociedade de um modo geral. Muitos membros do candomblé não declaram isso publicamente dizendo-se freqüentador de outras religiões, tais como a católica ou evangélica. Muitos são ainda os que vêem a religião afrobrasileira como folclore, ou ainda superstição, quando não, algo ligado ao culto de demônios.

O espaço litúrgico, no entanto, deve ser o espaço onde a comunidade ouve o que Deus tem a falar, é o espaço onde se dá o encontro com o transcendente; logo, este espaço deve gerar alegria, prazer, aconchego e, acima de tudo, liberdade de expressar-se através de costumes e cultura, tudo o que há de melhor nos ritos e símbolos; é o local da fraternidade por excelência.

O que vemos em nossos cultos é que, quando negros adentram no espaço litúrgico seja ele católico, ou evangélico, ele é embranquecido e dominado culturalmente. Isso fica claro pela ausência de traços afros na liturgia dessas denominações que adotam ainda hoje, os moldes culturais europeu e norte-americano. Um negro fiel não pode se reconhecer numa prática litúrgica que não assimila nada da sua cultura. Uma liturgia verticalizada e excessivamente racionalizada de matriz européia, ou norte-americana, não lhe diz nada a respeito às suas dores, seu cativeiro, suas lutas e resistência. Uma liturgia euro-estadunidense – do branco opressor – é a própria condenação, discriminação e domesticação do negro.

Uma liturgia para o negro oportuniza-lhe um espaço de integração, reconciliação e harmonização, como acontece no terreiro de culto africano, espaço por excelência onde todas as pessoas, homens e mulheres, brancos, negros e amarelos, meninos e velhos, se reúnem em contato direto com a natureza, reconciliando-se com o Criador. São celebrações espontâneas, que fogem da rigidez e simetria dos cultos tradicionais; não são livrescas, mas oral, sem explicações excessivas; ao som do atabaque, que para cultura negra é um instrumento sagrado, e com muita dança.

Propomos uma liturgia negra que vá além do instrumental – o que seria simples expressão folclórica – que assuma, de fato, os elementos culturais negros, alicerçada na vitória de Cristo, antecipando as alegrias da libertação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Concluímos, que as igrejas de tradição protestante evangélica, tanto históricas como pentecostais, contribuíram para que a situação de discriminação e marginalização dos negros no Brasil fossem por tanto tempo perpetuadas e que temos uma dívida a pagar. Uma das maneiras de pagarmos essa dívida é propormos uma liturgia de afirmação às raízes étnicas e culturais afrodescendentes, com o intuito de fazer valer o respeito cultural tão fundamental para a construção de uma sociedade igualitária, livre e democrática. A inculturação é um grande passo para isso, uma vez que propõe a reinterpretação dos conteúdos bíblicos, e uma refundição na cultura afrodescendente, nos desafiando a estarmos abertos a novos e inusitados dinamismos hermenêuticos. No campo da reflexão sobre inculturação, a grande proposta está na prática do diálogo entre as diversas religiões, inclusive com a de matriz afrobrasileira.

Somente desta forma poderemos propor uma liturgia e uma teologia do negro, preocupada com o resgate de sua dignidade e cidadania, criado à imagem e semelhança de Deus, para que possamos declarar que Deus é contra toda injustiça e opressão e anseia por justiça, igualdade e liberdade.

Quero terminar apresentando o clamor da negritude brasileira, poeticamente descrito por Leonardo Boff (1988, pp. 11 e 12) em seu Lamento de Cativeiro e Libertação; que nos sintamos desafiados a promover uma sociedade onde o Reino de Deus seja experimentado por todos assim como Ele deseja.

Lamento de Cativeiro e Libertação

Meu irmão branco;

Minha irmã branca;

Meu povo! Que te fiz eu?

E em que te contristei? Responde-me!

Eu te mostrei o que significa ser templo de Deus. E, por isso, como sentir Deus no corpo e celebrá-lo no ritmo, na ginga e na dança. E tu reprimiste minhas religiões afro-brasileiras. E fizeste da macumba caso de polícia.

Eu te inspirei a música carregada de banzo e o ritmo contagiante. Eu te ensinei como usar o bumbo, a cuíca e o atabaque. Fui eu que te dei o samba e o rock. E tu tomaste do que era meu, fizeste nome e renome, acumulaste dinheiro com tuas composições e nada me devolveste.

Meu irmão branco;

Minha irmã branca;

Meu povo! Que te fiz eu?

E em que te contristei? Responde-me!

Eu desci dos morros, te mostrei um mundo de sonhos, de uma fraternidade sem barreiras. Eu criei mil fantasias multicores e te preparei a maior festa do mundo, dancei o carnaval para ti. E tu te alegraste e me aplaudiste de pé. Mas logo, logo, me esqueceste na favela, na realidade nua e crua da fome, do desemprego e da opressão.

Eu te dei em herança o prato do dia-a-dia, o feijão e o arroz. Dos restos que recebia fiz a feijoada, o vatapá, o efó e o acarajé, a cozinha típica do Brasil. E tu me deixaste passar fome. E permites que minhas crianças morram antes do tempo ou que seus cérebros sejam irremediavelmente afetados, imbecilizados para sempre.

Meu irmão branco;

Minha irmã branca;

Meu povo! Que te fiz eu?

E em que te contristei? Responde-me!

Eu fui arrancado violentamente da minha PÁTRIA AFRICANA. Eu conheci o navio fantasma dos negreiros. Eu fui muita coisa, peça, escravo. Eu fui a mãe-preta para teus filhos. Eu cultivei os campos, plantei fumo e a cana. Eu fiz todos os trabalhos. E tu me chamas de preguiçoso, me prendes por vadiagem. Por causa da cor da minha pele me discriminas e me tratas ainda como escravo.

Eu soube resistir, consegui fugir e fundar quilombos, sociedades fraternas, sem escravos, de homens e mulheres livres. Eu transmiti, apesar do açoite em minhas costas, a cordialidade e a doçura à alma brasileira. E tu me caçaste como bicho, arrasaste meu quilombo e ainda hoje impedes que a abolição seja para sempre verdadeira.

Meu irmão branco;

Minha irmã branca;

Meu povo! Que te fiz eu?

E em que te contristei? Responde-me!

REFERÊNCIAS

ARRUPE, Pedro. Ecrits pour évangelizer. Paris, França: DDB, 1985.

ASETT – Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo. Identidade negra e religião – Consulta sobre cultura negra e teologia na América Latina. Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI)/Edições Liberdade. Rio de Janeiro, RJ 1986.

BELLO, Angela Ales. Cultura e religiões: uma leitura fenomenológica. Bauru, SP: EDUSC, 1998.

BOFF, Leonardo. O caminhar da igreja com os oprimidos: do vale de lágrimas rumo à Terra Prometida. 3ª ed. São Paulo: Vozes, 1988.

COMBLIN, José; HOORNAERT, Eduardo; SOARES, Sebastião Armando Gameleira; MELLO, Agostinha Vieira de. O Batismo do ministro da rainha da Etiopia. Negro e a Biblia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1988.

HIGUET, Etienne A. Jesus Cristo, símbolo de Kairos no pensamento de Paul Tillich e nos cultos afro-brasileiros. Revista Eletrônica Correlatio: Publicação da Sociedade Paul Tillich do Brasil e do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, nº 07, mai. 2005.

HOORNAERT, Eduardo. Uma guerra sem trégua: a guerra cultural contra o negro. Revista de Liturgia. São Paulo, SP, nº 66. pp.16,17, nov./dez., 1984.

MANZATTO, Antonio. Teologia e literatura: reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado. São Paulo, SP: Edições Loyola, 1994.

MCLAREN, Brian D. Uma ortodoxia generosa: a Igreja em tempos de pós-modernidade. Trad. Jorge Camargo. Brasília, DF: Palavra, 2007.

___. A mensagem secreta de Jesus: desvendando a verdade que poderia mudar tudo. Trad. Pedro José Maria Bianco. Rio de Janeiro, RJ: Thomas Nelson, 2007.

MOLTMANN, Jürgen. Vida Esperança e Justiça: um testamento teológico para a América Latina. São Bernardo do Campo, SP: EDITEO, 2008.

OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil. São Paulo, SP: Mundo Cristão, 2004.

REVISTA AVENTURAS NA HISTÓRIA. Povo marcado. São Paulo, SP: Abril, maio, edição 70, 2009, p.32.

SANT’ANA, Antonio Olímpio de. O Negro Latino-Americano. Rio de Janeiro, RJ: Tempo e Presença, 1989.

SILVA, Hélio de M. Eze 28:13 não justifica tambores na Igreja Neo-Testamentária. Disponível em: http://solascriptura-tt.org/LiturgiaMusicaLouvorCulto/Eze28.13Nao JustificaTamboresESaxJazzNaIgreja-Helio.htm. Acesso em 15 de maio de 2009.

SOARES, Afonso M. L. No espírito do Abbá: fé, revelação e vivências plurais. São Paulo, SP: Paulinas, 2008.


[1] Pai Nosso. Canto africano de autor desconhecido, originário da República do Congo, na África Central. É cantado pelo povo nas ruas e nas igrejas com danças e roupas coloridas, de maneira espontânea conforme os costumes locais.

[2] Para Tillich, o kairos é o tempo plenificado, o momento do tempo no qual a eternidade irrompe. O eterno é o que irrompe, mas nunca pode ser apreendido ou objetivado. O kairos designa o momento, no qual o eterno penetra o tempo, enquanto o tempo se prepara a receber o eterno. (HIGUET, 2005, p.1)

[3] Is. 42:1-9; 49:1-6; 50:4-11; 52:13 – 53:12; Mt. 12:17-21; Mc. 10:45.

[4] Orixá quer dizer “Coroa Iluminada”; “Espírito de Luz”.