novembro 2010


Por Cláudia Sales

Eu sou conhecida, pelos os de casa, como uma pessoa que é 8 ou 80. Sério, tenho muita dificuldade de ficar no meio termo, de me fazer de ‘política’, de ficar no ‘embromation’, no banho Maria. Quando gosto de algo vou ao 10º céu, mas se não gosto, vou ao mais profundo circulo do inferno de Dante!

Já tentei (e continuo tentando) mudar, mas o máximo que consegui foi melhorar… só um pouquinho. Aquela frase do Dr. House me persegue: “ninguém muda”, mais cedo, ou mais tarde, quem eu sou vem a tona. Tipo aquela crônica do Rubem Alves, O Albergue (vale a pena ler).

Pois bem, esta semana tive um pequeno contratempo com um aluno de um outro curso lá na Metodista. Até aí tudo bem, desentendimentos são normais – especialmente comigo – mas depois eu soube que o dito cujo ficou falado de mim pelas costa, bem baixinho para que eu não ouvisse.

Minha cunhada que escutou todo o ‘babado’ quando estávamos indo para casa delatou o desagradável incidente. Aí fiquei muito P da vida. Gente, tive um ódio tão grande que quase infarto! Não tem coisa que me tire mais do sério do que não poder me defender… saber que falam de mim pelas costas sem permitir-me o direito de defesa.

Fiquei tão transtornada no momento que passei o restante da noite arquitetando o que eu iria fazer com o individuo na próxima semana para me vingar. Como dizia Chico Anísio transfigurado em Beto Carneiro, o vampiro brasileiro: “minha vingança será maligna”!

Mas confesso que hoje, depois da raiva momentânea, fiquei pensando como eu desperdiço meu tempo com coisas besta. Quase perco minha noite de sono arquitetando uma ‘vingança’ para desmoralizar aquele que me ‘esfaqueou’ pelas costas! Foi aí que me lembrei da ressurreição de Jesus e resolvi escrever este texto.

Jesus, depois de conviver três anos com 12 amigos chegados, é traído por um deles por 30 moedas de prata. Talvez, no afã de acelerar a vinda do Reino de Deus, Judas entrega seu rabi colocando-o em perigo extremo para assim, obrigar Deus a intervir. Bem, o tiro saiu pela culatra e o final dessa história todo mundo já conhece: morte de cruz.

Pessoas, de verdade, se você fosse Jesus e tivesse todo o poder de fazer o que quisesse não apenas com Judas, mas com Pedro que se acovardou, os sacerdotes fariseus, com Pilatos que foi ‘diplomático’, com a multidão que gritava – CRUCIFÍCA –  o que você faria? Sem espiritualizar a coisa, qual seria o primeiro impulso?

Eu confesso que provavelmente mandaria fogo do céu e me vigária daqueles que me traíram, por que esse é nosso primeiro impulso, nem que depois, de cabeça mais fria, a gente acabe relevando, ou se arrependendo do que falou… Mas, mesmo quando deixamos ‘passar batido’ nós nos isolamos porque no fundo, não queremos nos decepcionar novamente. A gente até diz: “Não tenho mais raiva não. Eu perdoei, mas ele lá e eu aqui. Não quero mais papo”. Não é assim?

É por isso que Jesus me fascina! Depois de uma vida de entrega as pessoas e especificamente aos judeus (“Deixa primeiro que os filhos fiquem saciados, porque não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos” – Marco 7:27), e tendo recebido a ingratidão e traição, Jesus tem a nobreza de retribuir o mal que lhe fizeram com um bem maior!

E aí a passagem de João faz todo o sentido, quando o evangelista diz: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (João 1:11-12). Em vez de ficar decepcionado com os relacionamentos, com as pessoas, se isolar, Ele quer mais! Ele quer TODO MUNDO.

Neste sentido, a ressurreição é Deus gritando que ainda que nós o ‘matemos’ em nossas vidas, Ele insiste em estar conosco “todos os dias” e que se antes Ele caminhava ao nosso lado, agora Ele caminha dentro de nós. Na ressurreição compreendo o que João quer dizer quando afirma “amou de tal maneira”, ou ainda, nas palavras de Pe. Zezinho:

Um certo dia, a beira mar

Apareceu um jovem Galileu

Ninguém podia imaginar

Que alguém pudesse amar do jeito que ele amava

Contudo, quero ainda esclarecer aqui que, ressurreição não é simplesmente reanimar alguém morto; a ressurreição de Jesus é muito mais que tornar vivo um cadáver de três dias em um sepulcro. A ressurreição é uma revolução que transforma a morte em possibilidade de uma nova vida, mais densa e plena. Assim, nas palavras de Leonardo Boff, “não a morte e a cruz têm a última palavra, mas a vida e a ressurreição”.

Não vivemos para morrer, mas sim para um dia ressuscitarmos, assim com Ele ressuscitou. Este é o presente generoso da ressurreição de Cristo: “um viver mais, melhor e para sempre”, superando, de uma vez por todas a morte. “Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição” (Romanos 6:5).

(…)

Porque a Morte é a Ressurreição,
a Libertação,
a Comunicação total
com o Amor total.

Leonardo Boff

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Por José Barbosa Junior 


A eleição de Dilma Rousseff trouxe à tona, entre muitas outras coisas, o que há de pior no Brasil em relação aos preconceitos. Sejam eles religiosos, partidários, regionais, foram lançados à luz de maneira violenta, sádica e contraditória.

Já escrevi sobre os preconceitos religiosos em outros textos e a cada dia me envergonho mais do povo que se diz evangélico (do qual faço parte) e dos pilantras profissionais de púlpito, como Silas Malafaia, Renê Terra Nova e outros, que se venderam de forma absurda aos seus candidatos. E que fique bem claro: não os cito por terem apoiado o Serra… outros pastores se venderam vergonhosamente para apoiarem a candidata petista. A luta pelo poder ainda é a maior no meio do baixo-evangelicismo brasileiro.

Mas o que me motivou a escrever este texto foi a celeuma causada na internet, que extrapolou a rede mundial de computadores, pelas declarações da paulista, estudante de Direito, Mayara Petruso, alavancada por uma declaração no twitter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!”.

Infelizmente, Mayara não foi a única. Vários outros “brasileiros” também passaram a agredir os nordestinos, revoltados com o resultado final das eleições, que elegeu a primeira mulher presidentE ou presidentA (sim, fui corrigido por muitos e convencido pelos “amigos” Houaiss e Aurélio) do nosso país.

E fiquei a pensar nas verdades ditas por estes jovens, tão emocionados em suas declarações contra os nordestinos. Eles têm razão!

Os nordestinos devem ficar quietos! Cale a boca, povo do Nordeste!

Que coisas boas vocês têm pra oferecer ao resto do país?

Ou vocês pensam que são os bons só porque deram à literatura brasileira nomes como o do alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do Rego e Ariano Suassuna, dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, ou então dos cearenses José de Alencar e a maravilhosa Rachel de Queiroz?

Só porque o Maranhão nos deu Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, Ferreira Gullar, José Louzeiro e Josué Montello, e o Ceará nos presenteou com José de Alencar e Patativa do Assaré e a Bahia em seus encantos nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo?

Isso sem falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos do genial  Chico Anysio, do eterno trapalhão Renato Aragão, de Tom Cavalcante e até mesmo do palhaço Tiririca, que foi eleito o deputado federal mais votado pelos… pasmem… PAULISTAS!!!

E já que está na moda o cinema brasileiro, ainda poderia falar de atores como os cearenses José Wilker, Luiza Tomé, Milton Moraes e Emiliano Queiróz, o inesquecível Dirceu Borboleta, ou ainda do paraibano José Dumont ou de Marco Nanini, pernambucano.

Ah! E ainda os baianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado pelo “carioca” Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, 1 e 2.

Música? Não, vocês nordestinos não poderiam ter coisa boa a nos oferecer, povo analfabeto e sem cultura…

Ou pensam que teremos que aceitar vocês por causa da aterradora simplicidade e majestade de Luiz Gonzaga, o rei do baião? Ou das lindas canções de Nando Cordel e dos seus conterrâneos pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Lenine? Isso sem falar nos paraibanos Zé e Elba Ramalho e do cearense Fagner…

E Não poderia deixar de lembrar também da genial família Caymmi e suas melofias doces e baianas a embalar dias e noites repletas de poesia…

Ah! Nordestinos…

Além de tudo isso, vocês ainda resistiram à escravatura? E foi daí que nasceu o mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros á força opressora do branco que sabe o que é melhor para o nosso país? Por que vocês foram nos dar Zumbi dos Palmares? Só para marcar mais um ponto na sofrida e linda história do seu povo?

Um conselho, pobres nordestinos. Vocês deveriam aprender conosco, povo civilizado do sul e sudeste do Brasil. Nós, sim, temos coisas boas a lhes ensinar.

Por que não aprendem conosco os batidões do funk carioca? Deveriam aprender e ver as suas meninas dançarem até o chão, sendo carinhosamente chamadas de “cachorras”. Além disso, deveriam aprender também muito da poesia estética e musical de Tati Quebra-Barraco, Latino e Kelly Key. Sim, porque melhor que a asa branca bater asas e voar, é ter festa no apê e rolar bundalelê!

Por que não aprendem do pagode gostoso de Netinho de Paula? E ainda poderiam levar suas meninas para “um dia de princesa” (se não apanharem no caminho)! Ou então o rock melódico e poético de Supla! Vocês adorariam!!!

Mas se não quiserem, podemos pedir ao pessoal aqui do lado, do Mato Grosso do Sul, que lhes exporte o sertanejo universitário… coisa da melhor qualidade!

Ah! E sem falar numa coisa que vocês tem que aprender conosco, povo civilizado, branco e intelectualizado: explorar bem o trabalho infantil! Vocês não sabem, mas na verdade não está em jogo se é ou não trabalho infantil (isso pouco vale pra justiça), o que importa mesmo é o QUANTO esse trabalho infantil vai render. Ou vocês não perceberam ainda que suas crianças não podem trabalhar nas plantações, nas roças, etc. porque isso as afasta da escola e é um trabalho horroroso e sujo, mas na verdade, é porque ganha pouco. Bom mesmo é a menina deixar de estudar pra ser modelo e sustentar os pais, ou ser atriz mirim ou cantora e ter a sua vida totalmente modificada, mesmo que não tenha estrutura psicológica pra isso… mas o que importa mesmo é que vão encher o bolso e nunca precisarão de Bolsa-família, daí, é fácil criticar quem precisa!

Minha mensagem então é essa: – Calem a boca, nordestinos!

Calem a boca, porque vocês não precisam se rebaixar e tentar responder a tantos absurdos de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado por tantos anos pelo próprio país, vocês tirarem tanta beleza e poesia das mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol.

Calem a boca, e deixem quem não tem nada pra dizer jogar suas palavras ao vento. Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção desse povo maravilhoso, de tantas cores, sotaques, religiões e gentes.

Calem a boca, porque a história desse país responderá por si mesma a importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, na música, nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu povo falou mais alto e fez valer a máxima do escritor: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte!”

Que o Deus de todos os povos, raças, tribos e nações, os abençoe, queridos irmãos nordestinos!

 

Fonte: http://www.crerepensar.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=204&Itemid=26