Por Cláudia Sales

Eu sou conhecida, pelos os de casa, como uma pessoa que é 8 ou 80. Sério, tenho muita dificuldade de ficar no meio termo, de me fazer de ‘política’, de ficar no ‘embromation’, no banho Maria. Quando gosto de algo vou ao 10º céu, mas se não gosto, vou ao mais profundo circulo do inferno de Dante!

Já tentei (e continuo tentando) mudar, mas o máximo que consegui foi melhorar… só um pouquinho. Aquela frase do Dr. House me persegue: “ninguém muda”, mais cedo, ou mais tarde, quem eu sou vem a tona. Tipo aquela crônica do Rubem Alves, O Albergue (vale a pena ler).

Pois bem, esta semana tive um pequeno contratempo com um aluno de um outro curso lá na Metodista. Até aí tudo bem, desentendimentos são normais – especialmente comigo – mas depois eu soube que o dito cujo ficou falado de mim pelas costa, bem baixinho para que eu não ouvisse.

Minha cunhada que escutou todo o ‘babado’ quando estávamos indo para casa delatou o desagradável incidente. Aí fiquei muito P da vida. Gente, tive um ódio tão grande que quase infarto! Não tem coisa que me tire mais do sério do que não poder me defender… saber que falam de mim pelas costas sem permitir-me o direito de defesa.

Fiquei tão transtornada no momento que passei o restante da noite arquitetando o que eu iria fazer com o individuo na próxima semana para me vingar. Como dizia Chico Anísio transfigurado em Beto Carneiro, o vampiro brasileiro: “minha vingança será maligna”!

Mas confesso que hoje, depois da raiva momentânea, fiquei pensando como eu desperdiço meu tempo com coisas besta. Quase perco minha noite de sono arquitetando uma ‘vingança’ para desmoralizar aquele que me ‘esfaqueou’ pelas costas! Foi aí que me lembrei da ressurreição de Jesus e resolvi escrever este texto.

Jesus, depois de conviver três anos com 12 amigos chegados, é traído por um deles por 30 moedas de prata. Talvez, no afã de acelerar a vinda do Reino de Deus, Judas entrega seu rabi colocando-o em perigo extremo para assim, obrigar Deus a intervir. Bem, o tiro saiu pela culatra e o final dessa história todo mundo já conhece: morte de cruz.

Pessoas, de verdade, se você fosse Jesus e tivesse todo o poder de fazer o que quisesse não apenas com Judas, mas com Pedro que se acovardou, os sacerdotes fariseus, com Pilatos que foi ‘diplomático’, com a multidão que gritava – CRUCIFÍCA –  o que você faria? Sem espiritualizar a coisa, qual seria o primeiro impulso?

Eu confesso que provavelmente mandaria fogo do céu e me vigária daqueles que me traíram, por que esse é nosso primeiro impulso, nem que depois, de cabeça mais fria, a gente acabe relevando, ou se arrependendo do que falou… Mas, mesmo quando deixamos ‘passar batido’ nós nos isolamos porque no fundo, não queremos nos decepcionar novamente. A gente até diz: “Não tenho mais raiva não. Eu perdoei, mas ele lá e eu aqui. Não quero mais papo”. Não é assim?

É por isso que Jesus me fascina! Depois de uma vida de entrega as pessoas e especificamente aos judeus (“Deixa primeiro que os filhos fiquem saciados, porque não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos” – Marco 7:27), e tendo recebido a ingratidão e traição, Jesus tem a nobreza de retribuir o mal que lhe fizeram com um bem maior!

E aí a passagem de João faz todo o sentido, quando o evangelista diz: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (João 1:11-12). Em vez de ficar decepcionado com os relacionamentos, com as pessoas, se isolar, Ele quer mais! Ele quer TODO MUNDO.

Neste sentido, a ressurreição é Deus gritando que ainda que nós o ‘matemos’ em nossas vidas, Ele insiste em estar conosco “todos os dias” e que se antes Ele caminhava ao nosso lado, agora Ele caminha dentro de nós. Na ressurreição compreendo o que João quer dizer quando afirma “amou de tal maneira”, ou ainda, nas palavras de Pe. Zezinho:

Um certo dia, a beira mar

Apareceu um jovem Galileu

Ninguém podia imaginar

Que alguém pudesse amar do jeito que ele amava

Contudo, quero ainda esclarecer aqui que, ressurreição não é simplesmente reanimar alguém morto; a ressurreição de Jesus é muito mais que tornar vivo um cadáver de três dias em um sepulcro. A ressurreição é uma revolução que transforma a morte em possibilidade de uma nova vida, mais densa e plena. Assim, nas palavras de Leonardo Boff, “não a morte e a cruz têm a última palavra, mas a vida e a ressurreição”.

Não vivemos para morrer, mas sim para um dia ressuscitarmos, assim com Ele ressuscitou. Este é o presente generoso da ressurreição de Cristo: “um viver mais, melhor e para sempre”, superando, de uma vez por todas a morte. “Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição” (Romanos 6:5).

(…)

Porque a Morte é a Ressurreição,
a Libertação,
a Comunicação total
com o Amor total.

Leonardo Boff