dezembro 2010


Mais um ano morre e com sua morte muitos sonhos nascem para o ano que se inicia. Final de ano, fim de um ciclo, tempo de retrospectiva, deixamos para trás os projetos que de certa forma não deram certo, fazemos novas amizades, procuramos novos amores, recomeçamos a viver! Tenho a impressão de morrer e renascer a cada ano como uma Fênix e com uma vantagem, a esperança de que tudo vai ser melhor do que no ano que morreu…

Existe uma espécie de mágica, mística, encantamento, superstição, chamem do que quiserem, envolvendo o rito do Ano Novo… Sem dúvidas, um dos ritos de passagens mais fascinantes, pois une todas as culturas, povos e raças. De certa forma, depois do Natal cristão, todos nos tornamos pagãos e voltamos a ver a história de maneira cíclica, pedindo aos deuses um recomeço abençoado!

Claro que existem outras místicas que envolvem o fim de um ano… Não poderia esquecer das profecias apocalípticas, o fim do mundo, o Armagedom! Quem não se lembra da virada do milênio? Muitos esperavam a segunda vinda do messias e o arrebatamento da igreja! Afinal, dois mil é um número emblemático… É quase sete vezes 285,71428571428571428571428571429! Porque não?

Quero, então, aproveitar este último texto do ano e falar mais um pouco sobre a volta de Jesus e o seu Reino entre nós. Esse foi um assunto que sempre me intrigou na igreja… Aliás, algumas afirmações de Jesus me fazem crer que o Seu Reino já está no meio de nós, assim como a Sua presença é real.

As pessoas esperam a volta de Jesus como se Ele tivesse ido para um lugar bem distante, que elas chamam de céu (que fica em cima?), e um dia, que ninguém sabe, Ele vai decidir “descer” e estará conosco para todo o sempre. Nesse hiato entre ressurreição e volta de Jesus, a igreja espera passivamente, seguindo a lógica do quanto pior melhor! Ou seja, que venham as catástrofes, as guerras, as atrocidades mais terríveis, pois são sinais da vinda Jesus! Lutar contra essas coisas seria o mesmo que retardar o retorno do messias tão esperado!

Particularmente, acho essa ideia um absurdo! Um contrassenso total ao evangelho pregado pelo próprio Cristo. Mas, a pergunta que não quer calar é: Ele já não está em nosso meio? Sua presença não é real? Sua promessa quando diz que “Eis que eu estou convosco todos os dias” (Mateus 28:20) não é verdadeira?

Alguém poderá dizer que o Jesus escatológico esperado será visto por todos! Contudo, retruco que a igreja está tão cega no seu egoísmo e comodismo, que seus olhos estão como que com escamas e aí, apenas alguns conseguem contemplar a revelação plena que pode ser vista a olho nu por todos que realmente nasceram do espírito. Como diria o próprio Jesus “(…) tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. (…) Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus 25:35-40)

O Cristo encarnado no rosto e no suor do necessitado é uma revelação tão escandalosa quanto à mensagem da cruz. Pode parecer escândalo para os líderes religiosos, loucura para os fundamentalistas, mas para os que são sensíveis a esta mensagem é poder e sabedoria de Deus.

E quanto ao Seu reino? Quando interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, Jesus não foi claro o suficiente dizendo-lhes que o reino de Deus não vem com aparência exterior, não está aqui, ou ali, pois o reino de Deus está em nosso meio, ou melhor, está dentro de cada um de nós? (Lucas 17:20,21)

Se o reino já chegou, como anunciara Lucas, então o Reino de Deus não é um conceito abstrato, muito menos, um local que pode ser encontrado geograficamente, mas sim uma atitude de responsabilidade para com a vida! Como diz Jon Sobrino: “O que Jesus quer dizer ao anunciar a chegada do Reino é que as coisas não podem continuar como estão e que não melhorarão se deixadas por conta de sua inércia e evolução interna (…) não é mera transformação, da interioridade do homem, mas uma reestruturação das relações visíveis e tangíveis entre os homens, é uma autêntica libertação do homem em todos os níveis” (Cristologia a partir da América Latina).

É lutar por uma vida justa, onde não exista o pobre (pois deles é o Reino dos céus), a dominação do ser humano sobre outro ser humano. O reino nos chega como uma convocatória para uma profunda conversão a fim de buscarmos, incessantemente, a justiça, a fraternidade e a paz, pois, “o Reino que não é um mundo totalmente outro que este, mas esse mesmo, porém totalmente novo e renovado” (Leonardo Boff, Jesus Cristo libertador).

Alguns podem me chamar de herege, ou ainda, que perdi a fé nos “mistérios” de Deus, mas tenho a impressão de ter mais fé que muitos religiosos que preferem não chegar atrasado para o seu culto a socorrer um “samaritano”. Somente com muita esperança e fé é que é possível acreditar que a construção do Reino de Deus é viável em nosso meio; somente com muita fé, olho ao meu redor e ainda assim, posso contemplar a Jerusalém que desce do céu; somente com fé, eu consigo orar “venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.

Se ainda acredito no Reino de Deus? Claro que sim! E o contemplo como Leonardo Boff e Clodovis Boff: “a cidade santa, a nova Jerusalém que desce do céu, só pode assentar-se na terra, se os homens, imbuídos de fé e de paixão pelo Evangelho, unidos a todos os sedentos e famintos de justiça, lhe tiverem criado as disposições humanas e condições materiais. Só então a terra não será outra terra e o céu outro céu, mas sim, novo céu e nova terra. O velho com suas opressões terá passado. O novo será dom de Deus e conquista do esforço humano. Continuará na eternidade o que se iniciou na história: o Reino dos libertos, como irmãos e irmãs, na grande casa do Pai” (Como Fazer Teologia da Libertação).

Que no ano que se inicia, possamos trazer para cada vez mais perto de nós, a Jerusalém que desce do céu!

Cláudia Sales

(Claudinha)

 

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

      Num meio-dia de Primavera
      Tive um sonho como uma fotografia.
      Vi Jesus Cristo descer à terra.
      Veio pela encosta de um monte
      Tornado outra vez menino,
      A correr e a rolar-se pela erva
      E a arrancar flores para as deitar fora
      E a rir de modo a ouvir-se longe.

      Tinha fugido do céu.
      Era nosso demais para fingir
      De segunda pessoa da Trindade.
      No céu tudo era falso, tudo em desacordo
      Com flores e árvores e pedras.
      No céu tinha que estar sempre sério
      E de vez em quando de se tornar outra vez homem
      E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
      Com uma coroa toda à roda de espinhos
      E os pés espetados por um prego com cabeça,
      E até com um trapo à roda da cintura
      Como os pretos nas ilustrações.
      Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
      Como as outras crianças.
      O seu pai era duas pessoas –
      Um velho chamado José, que era carpinteiro,
      E que não era pai dele;
      E o outro pai era uma pomba estúpida,
      A única pomba feia do mundo
      Porque nem era do mundo nem era pomba.
      E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
      Não era mulher: era uma mala
      Em que ele tinha vindo do céu.
      E queriam que ele, que só nascera da mãe,
      E que nunca tivera pai para amar com respeito,
      Pregasse a bondade e a justiça!

      Um dia que Deus estava a dormir
      E o Espirito Santo andava a voar,
      Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
      Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
      Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
      Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
      E deixou-o pregado na cruz que há no céu
      E serve de modelo às outras.
      Depois fugiu para o sol
      E desceu no primeiro raio que apanhou.
      Hoje vive na minha aldeia comigo.
      É uma criança bonita de riso e natural.
      Limpa o nariz ao braço direito,
      Chapinha nas poças de água,
      Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
      Atira pedras aos burros,
      Rouba a fruta dos pomares
      E foge a chorar e a gritar dos cães.
      E, porque sabe que elas não gostam
      E porque toda a gente acha graça,
      Corre atrás das raparigas
      Que vão em ranchos pelas estradas
      Com as bilhas às cabeças
      E levanta-lhes as saias.

      A mim ensinou-me tudo.
      Ensinou-me a olhar para as coisas.
      Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
      Mostra-me como as pedras são engraçadas
      Quando agente as tem na mão
      E olha devagar para elas.

      Diz-me muito mal de Deus.
      Diz que ele é um velho estúpido e doente,
      Sempre a escarrar para o chão
      E a dizer indecências.
      A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
      E o Espirito Santo coça-se com o bico
      E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
      Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
      Diz-me que Deus não percebe nada
      Das coisas que criou –
      “Se é que ele as criou, do que duvido.” –
      “Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
      Mas os seres não cantam nada.
      Se cantassem seriam cantores.
      Os seres existem e mais nada,
      E por isso se chamam seres.”

      E depois, cansado de dizer mal de Deus,
      O Menino Jesus adormece nos meus braços
      E eu levo-o ao colo para casa.

      … … … … … … … … … … … … … … … … … … …

      Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
      Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
      Ele é humano que é natural.
      Ele é o divino que sorri e que brinca.
      E por isso é que eu sei com toda a certeza
      Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

      E a criança tão humana que é divina
      É a minha quotidiana vida de poeta,
      E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
      E que o meu mínimo olhar
      Me enche de sensação,
      E o mais pequeno som, seja do que for,
      Parece falar comigo.

      A Criança Nova que habita onde vivo
      Dá-me uma mão a mim
      E outra a tudo que existe
      E assim vamos os três pelo caminho que houver,
      Saltando e cantando e rindo
      E gozando o nosso segredo comum
      Que é saber por toda a parte
      Que não há mistério no mundo
      E que tudo vale a pena.

      A Criança Eterna acompanha-me sempre.
      A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
      O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
      São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

      Damo-nos tão bem um com o outro
      Na companhia de tudo
      Que nunca pensamos um no outro,
      Mas vivemos juntos e dois
      Com um acordo íntimo
      Como a mão direita e a esquerda.

      Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
      No degrau da porta de casa,
      Graves como convém a um deus e a um poeta,
      E como se cada pedra
      Fosse todo o universo
      E fosse por isso um grande perigo para ela
      Deixá-la cair no chão.

      Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
      E ele sorri porque tudo é incrível.
      Ri dos reis e dos que não são reis,
      E tem pena de ouvir falar das guerras,
      E dos comércios, e dos navios
      Que ficam fumo no ar dos altos mares.
      Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
      Que uma flor tem ao florescer
      E que anda com a luz do Sol
      A variar os montes e os vales
      E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

      Depois ele adormece e eu deito-o.
      Levo-o ao colo para dentro de casa
      E deito-o, despindo lentamente
      E como seguindo um ritual muito limpo
      E todo materno até ele estar nu.

      Ele dorme dentro da minha alma
      E às vezes acorda de noite
      E brinca com os meus sonhos.
      Vira uns de pernas para o ar,
      Põe uns em cima dos outros
      E bate palmas sozinho
      Sorrindo para o meu sono.
      … … … … … … … … … … … … … … … … … … …

      Quando eu morrer, filhinho,
      Seja eu a criança, o mais pequeno.
      Pega-me tu ao colo
      E leva-me para dentro da tua casa.
      Despe o meu ser cansado e humano
      E deita-me na tua cama.
      E conta-me histórias, caso eu acorde,
      Para eu tornar a adormecer.
      E dá-me sonhos teus para eu brincar
      Até que nasça qualquer dia
      Que tu sabes qual é.

      … … … … … … … … … … … … … … … … … … …

      Esta é a história do meu Menino Jesus.
      Por que razão que se perceba
      Não há-de ser ela mais verdadeira
      Que tudo quanto os filósofos pensam
      E tudo quanto as religiões ensinam ?