Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

      Num meio-dia de Primavera
      Tive um sonho como uma fotografia.
      Vi Jesus Cristo descer à terra.
      Veio pela encosta de um monte
      Tornado outra vez menino,
      A correr e a rolar-se pela erva
      E a arrancar flores para as deitar fora
      E a rir de modo a ouvir-se longe.

      Tinha fugido do céu.
      Era nosso demais para fingir
      De segunda pessoa da Trindade.
      No céu tudo era falso, tudo em desacordo
      Com flores e árvores e pedras.
      No céu tinha que estar sempre sério
      E de vez em quando de se tornar outra vez homem
      E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
      Com uma coroa toda à roda de espinhos
      E os pés espetados por um prego com cabeça,
      E até com um trapo à roda da cintura
      Como os pretos nas ilustrações.
      Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
      Como as outras crianças.
      O seu pai era duas pessoas –
      Um velho chamado José, que era carpinteiro,
      E que não era pai dele;
      E o outro pai era uma pomba estúpida,
      A única pomba feia do mundo
      Porque nem era do mundo nem era pomba.
      E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
      Não era mulher: era uma mala
      Em que ele tinha vindo do céu.
      E queriam que ele, que só nascera da mãe,
      E que nunca tivera pai para amar com respeito,
      Pregasse a bondade e a justiça!

      Um dia que Deus estava a dormir
      E o Espirito Santo andava a voar,
      Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
      Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
      Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
      Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
      E deixou-o pregado na cruz que há no céu
      E serve de modelo às outras.
      Depois fugiu para o sol
      E desceu no primeiro raio que apanhou.
      Hoje vive na minha aldeia comigo.
      É uma criança bonita de riso e natural.
      Limpa o nariz ao braço direito,
      Chapinha nas poças de água,
      Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
      Atira pedras aos burros,
      Rouba a fruta dos pomares
      E foge a chorar e a gritar dos cães.
      E, porque sabe que elas não gostam
      E porque toda a gente acha graça,
      Corre atrás das raparigas
      Que vão em ranchos pelas estradas
      Com as bilhas às cabeças
      E levanta-lhes as saias.

      A mim ensinou-me tudo.
      Ensinou-me a olhar para as coisas.
      Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
      Mostra-me como as pedras são engraçadas
      Quando agente as tem na mão
      E olha devagar para elas.

      Diz-me muito mal de Deus.
      Diz que ele é um velho estúpido e doente,
      Sempre a escarrar para o chão
      E a dizer indecências.
      A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
      E o Espirito Santo coça-se com o bico
      E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
      Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
      Diz-me que Deus não percebe nada
      Das coisas que criou –
      “Se é que ele as criou, do que duvido.” –
      “Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
      Mas os seres não cantam nada.
      Se cantassem seriam cantores.
      Os seres existem e mais nada,
      E por isso se chamam seres.”

      E depois, cansado de dizer mal de Deus,
      O Menino Jesus adormece nos meus braços
      E eu levo-o ao colo para casa.

      … … … … … … … … … … … … … … … … … … …

      Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
      Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
      Ele é humano que é natural.
      Ele é o divino que sorri e que brinca.
      E por isso é que eu sei com toda a certeza
      Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

      E a criança tão humana que é divina
      É a minha quotidiana vida de poeta,
      E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
      E que o meu mínimo olhar
      Me enche de sensação,
      E o mais pequeno som, seja do que for,
      Parece falar comigo.

      A Criança Nova que habita onde vivo
      Dá-me uma mão a mim
      E outra a tudo que existe
      E assim vamos os três pelo caminho que houver,
      Saltando e cantando e rindo
      E gozando o nosso segredo comum
      Que é saber por toda a parte
      Que não há mistério no mundo
      E que tudo vale a pena.

      A Criança Eterna acompanha-me sempre.
      A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
      O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
      São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

      Damo-nos tão bem um com o outro
      Na companhia de tudo
      Que nunca pensamos um no outro,
      Mas vivemos juntos e dois
      Com um acordo íntimo
      Como a mão direita e a esquerda.

      Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
      No degrau da porta de casa,
      Graves como convém a um deus e a um poeta,
      E como se cada pedra
      Fosse todo o universo
      E fosse por isso um grande perigo para ela
      Deixá-la cair no chão.

      Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
      E ele sorri porque tudo é incrível.
      Ri dos reis e dos que não são reis,
      E tem pena de ouvir falar das guerras,
      E dos comércios, e dos navios
      Que ficam fumo no ar dos altos mares.
      Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
      Que uma flor tem ao florescer
      E que anda com a luz do Sol
      A variar os montes e os vales
      E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

      Depois ele adormece e eu deito-o.
      Levo-o ao colo para dentro de casa
      E deito-o, despindo lentamente
      E como seguindo um ritual muito limpo
      E todo materno até ele estar nu.

      Ele dorme dentro da minha alma
      E às vezes acorda de noite
      E brinca com os meus sonhos.
      Vira uns de pernas para o ar,
      Põe uns em cima dos outros
      E bate palmas sozinho
      Sorrindo para o meu sono.
      … … … … … … … … … … … … … … … … … … …

      Quando eu morrer, filhinho,
      Seja eu a criança, o mais pequeno.
      Pega-me tu ao colo
      E leva-me para dentro da tua casa.
      Despe o meu ser cansado e humano
      E deita-me na tua cama.
      E conta-me histórias, caso eu acorde,
      Para eu tornar a adormecer.
      E dá-me sonhos teus para eu brincar
      Até que nasça qualquer dia
      Que tu sabes qual é.

      … … … … … … … … … … … … … … … … … … …

      Esta é a história do meu Menino Jesus.
      Por que razão que se perceba
      Não há-de ser ela mais verdadeira
      Que tudo quanto os filósofos pensam
      E tudo quanto as religiões ensinam ?