Mais um ano morre e com sua morte muitos sonhos nascem para o ano que se inicia. Final de ano, fim de um ciclo, tempo de retrospectiva, deixamos para trás os projetos que de certa forma não deram certo, fazemos novas amizades, procuramos novos amores, recomeçamos a viver! Tenho a impressão de morrer e renascer a cada ano como uma Fênix e com uma vantagem, a esperança de que tudo vai ser melhor do que no ano que morreu…

Existe uma espécie de mágica, mística, encantamento, superstição, chamem do que quiserem, envolvendo o rito do Ano Novo… Sem dúvidas, um dos ritos de passagens mais fascinantes, pois une todas as culturas, povos e raças. De certa forma, depois do Natal cristão, todos nos tornamos pagãos e voltamos a ver a história de maneira cíclica, pedindo aos deuses um recomeço abençoado!

Claro que existem outras místicas que envolvem o fim de um ano… Não poderia esquecer das profecias apocalípticas, o fim do mundo, o Armagedom! Quem não se lembra da virada do milênio? Muitos esperavam a segunda vinda do messias e o arrebatamento da igreja! Afinal, dois mil é um número emblemático… É quase sete vezes 285,71428571428571428571428571429! Porque não?

Quero, então, aproveitar este último texto do ano e falar mais um pouco sobre a volta de Jesus e o seu Reino entre nós. Esse foi um assunto que sempre me intrigou na igreja… Aliás, algumas afirmações de Jesus me fazem crer que o Seu Reino já está no meio de nós, assim como a Sua presença é real.

As pessoas esperam a volta de Jesus como se Ele tivesse ido para um lugar bem distante, que elas chamam de céu (que fica em cima?), e um dia, que ninguém sabe, Ele vai decidir “descer” e estará conosco para todo o sempre. Nesse hiato entre ressurreição e volta de Jesus, a igreja espera passivamente, seguindo a lógica do quanto pior melhor! Ou seja, que venham as catástrofes, as guerras, as atrocidades mais terríveis, pois são sinais da vinda Jesus! Lutar contra essas coisas seria o mesmo que retardar o retorno do messias tão esperado!

Particularmente, acho essa ideia um absurdo! Um contrassenso total ao evangelho pregado pelo próprio Cristo. Mas, a pergunta que não quer calar é: Ele já não está em nosso meio? Sua presença não é real? Sua promessa quando diz que “Eis que eu estou convosco todos os dias” (Mateus 28:20) não é verdadeira?

Alguém poderá dizer que o Jesus escatológico esperado será visto por todos! Contudo, retruco que a igreja está tão cega no seu egoísmo e comodismo, que seus olhos estão como que com escamas e aí, apenas alguns conseguem contemplar a revelação plena que pode ser vista a olho nu por todos que realmente nasceram do espírito. Como diria o próprio Jesus “(…) tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. (…) Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus 25:35-40)

O Cristo encarnado no rosto e no suor do necessitado é uma revelação tão escandalosa quanto à mensagem da cruz. Pode parecer escândalo para os líderes religiosos, loucura para os fundamentalistas, mas para os que são sensíveis a esta mensagem é poder e sabedoria de Deus.

E quanto ao Seu reino? Quando interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, Jesus não foi claro o suficiente dizendo-lhes que o reino de Deus não vem com aparência exterior, não está aqui, ou ali, pois o reino de Deus está em nosso meio, ou melhor, está dentro de cada um de nós? (Lucas 17:20,21)

Se o reino já chegou, como anunciara Lucas, então o Reino de Deus não é um conceito abstrato, muito menos, um local que pode ser encontrado geograficamente, mas sim uma atitude de responsabilidade para com a vida! Como diz Jon Sobrino: “O que Jesus quer dizer ao anunciar a chegada do Reino é que as coisas não podem continuar como estão e que não melhorarão se deixadas por conta de sua inércia e evolução interna (…) não é mera transformação, da interioridade do homem, mas uma reestruturação das relações visíveis e tangíveis entre os homens, é uma autêntica libertação do homem em todos os níveis” (Cristologia a partir da América Latina).

É lutar por uma vida justa, onde não exista o pobre (pois deles é o Reino dos céus), a dominação do ser humano sobre outro ser humano. O reino nos chega como uma convocatória para uma profunda conversão a fim de buscarmos, incessantemente, a justiça, a fraternidade e a paz, pois, “o Reino que não é um mundo totalmente outro que este, mas esse mesmo, porém totalmente novo e renovado” (Leonardo Boff, Jesus Cristo libertador).

Alguns podem me chamar de herege, ou ainda, que perdi a fé nos “mistérios” de Deus, mas tenho a impressão de ter mais fé que muitos religiosos que preferem não chegar atrasado para o seu culto a socorrer um “samaritano”. Somente com muita esperança e fé é que é possível acreditar que a construção do Reino de Deus é viável em nosso meio; somente com muita fé, olho ao meu redor e ainda assim, posso contemplar a Jerusalém que desce do céu; somente com fé, eu consigo orar “venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.

Se ainda acredito no Reino de Deus? Claro que sim! E o contemplo como Leonardo Boff e Clodovis Boff: “a cidade santa, a nova Jerusalém que desce do céu, só pode assentar-se na terra, se os homens, imbuídos de fé e de paixão pelo Evangelho, unidos a todos os sedentos e famintos de justiça, lhe tiverem criado as disposições humanas e condições materiais. Só então a terra não será outra terra e o céu outro céu, mas sim, novo céu e nova terra. O velho com suas opressões terá passado. O novo será dom de Deus e conquista do esforço humano. Continuará na eternidade o que se iniciou na história: o Reino dos libertos, como irmãos e irmãs, na grande casa do Pai” (Como Fazer Teologia da Libertação).

Que no ano que se inicia, possamos trazer para cada vez mais perto de nós, a Jerusalém que desce do céu!

Cláudia Sales

(Claudinha)