Tentei, juro que tentei não escrever este texto. Desviei minha atenção de várias maneiras sem sucesso. Experimentei ler meu livro do Lobão, depois arrisquei desenhar uma das mulheres maravilhosas criadas por Will Einer em Spirit e por fim fui assistir um filme. Tudo para não escrever este texto. Não porque eu o achasse uma besteira, mas porque acredito que mais uma vez darei muro em ponta de faca! E cá estou eu, escrevendo este texto…

Não vou negar que minha inquietação iniciou-se hoje pela manhã; depois que pasmado, Geraldo me acordou dizendo: “Tu não sabe o que aconteceu com o Japão!!! Uma Tragédia! Uma tsunami arrasou com parte daquele país!” Se não fosse pela palavra JAPÃO juraria que estaria tendo um déjà vu!

Passei o dia acompanhando a tragédia que assolou o mundo hoje; hora porque estava empenhada em estar atualizada sobre as notícias, hora porque as notícias chegavam sem que eu as procurasse. O fato é que durante todo o dia não se falou em outra coisa! Uma onda de solidariedade e compaixão pelas vítimas pairava nitidamente no ar. Seja pela internet, rádio, televisão, chegando a ser o assunto principal inclusive em gabinetes de beleza (hoje eu fui fazer as unhas e não se falava em outra coisa), todos mostravam-se, inclusive eu, pasmos, impotentes, tristes, alguns revoltados, outros resignados com a notícia.

Mas até então, eu não tinha grandes pretensões de escrever este texto. Tive algumas ideias, pensei alto outras vezes, e só! Minhas entranhas começaram a se “virar” somente depois que comecei a acompanhar alguns comentários nas redes sociais, sem falar dos e-mails que chegaram sobre o assunto e que me deixaram (mais uma vez) de cabelo em pé!

Diante de tanta coisa ruim que aconteceu no dia de hoje, descobri que a “grande revolta” do universo evangélico brasileiro não estava no sofrimento das vítimas japonesas, muito menos, na dor dos familiares que tiveram seus entes queridos ceifados por essa DESgraça, mas, a atenção de muitos estava focada na tentativa de defender a “soberania” de Deus, e Sua onisciência! Fiquei paralisada… sem reação com tamanha insensibilidade… com tamanha dureza de coração.

Pouco importa se Deus sabe ou não o futuro, ou se Ele podia ou não ter evitado essa catástrofe, o fato é que a tragédia aconteceu, foi real e a pergunta correta deveria ser: o que nós podemos fazer? Do que adianta uma soberania que não contemple o amor incondicional a todos? Ou uma onisciência que não considere a dor de um Deus que sofre diariamente com os que sofrem? Reduzir a soberania de Deus ao controle de todas as coisas, é empobrecer o conceito! Acredito que esta só pode ser compreendida a partir do vislumbre de um Deus que insiste em partilhar da fraqueza e do sofrimento do ser humano.

Do que que adianta tantos discursos apologéticos, tantos textos dogmáticos (inclusive este), tantas acusações, condenações??? Para onde isso nos leva? O que de concreto muda, na vida real? Em que nos transformamos em pessoas melhores, mais dignas, solidárias, cheias de compaixão e misericórdia??? De que todo esse embate serve além dos jogos mesquinhos de popularidade, de aceitação, adesão, de seguidores??? O que alguns ganham ao difamar seus semelhantes simplesmente pelo fato desses não pensarem como eles???

Como gosto de dizer e reafirmo: Deus não precisa de defesa! Até onde eu sei Ele não nos contratou como advogados, mas ao contrário, Ele advoga à nossa causa! Por isso, cuidado quando for difamar alguém! Como disse recentemente um amigo meu (nem que seja só de twitter) “ninguém acusa ou defende Deus, acusamos e defendemos a nós mesmos; no fim, queremos demonstrar como nossas convicções valem mais.”

Pronto! Aqui estou eu, mais uma vez escrevendo sobre o assunto, que de velho já caducou! Escrevi o texto! Sem pretensão nenhuma… só um desabafo! Porque no meu íntimo sei que tudo é só vaidade, e esse texto (como diria meu marido)  é tão retórico quanto os dos fundamentalistas… minha esperança é que pelo menos (fazendo uso mais uma vez do meu amigo twitteiro) ele convoque a mim e a outros à solidariedade e me livre dos pedestais da arrogância.

 

Cláudia Sales