junho 2011


*Percebi que o meu texto “Inadequações” não tinha sido publicado nesse blog. Apenas compartilhei com alguns colegas e amigos quando eu fazia parte de um grupo de discussão… Então, como o meu último texto faz referência a esse, resolvi finalmente publicá-lo. Não sei quais foram os motivos na época que me impediram de fazê-lo… mas antes tarde, do que nunca!

Não tenho muitas lembranças da minha infância. Tenho inveja do meu irmão André, do meu marido Geraldo e suas maravilhosas memórias; eles possuem o dom de descrever com riqueza de detalhes – dia, hora, evento – os fatos dos tempos de menino e adolescência. Minha mãe sempre que deseja lembrar-se de um fato logo diz: – Liga pro André que com certeza ele se lembra! Uma das poucas coisas que me recordo e que tem me acompanhado até os dias de hoje são minhas inadequações. Tentarei me explicar.

Lembro-me da menina extremamente tímida e magricela que eu era. Estudei em colégio de freiras, só para meninas… tentei me adequar, ser igual as meninas mais ‘populares’ do colégio. Mas enquanto elas faziam ballet, eu jogava ‘carimba’ e vollei; enquanto elas gostavam de escrever em seus diários, eu passava as tardes no colégio brincando de spiriball, ou ia jogar futebol com meus irmãos e os meninos da rua; elas gostavam de rosa, e eu de amarelo; elas não entendiam de futebol e eu torcia pelo Flamengo. Percebo mas claro do que nunca antes como eu era inadequada.

Na adolescência tenho mais recordações…. estudei no Marista Cearense, um dos melhores períodos da minha vida! Já era mais desinibida, minha classe tinha meninos e eu já não era tão ‘matusquela’. Mas ainda me sentia inadequada. A fase da adolescência é um periodo onde as meninas ficam mais vaidosas… preocupam-se com a estética, em chamar a atenção dos meninos, e fazem seus grupinhos. No meu caso, tinha outros prazeres… gostava de conversar com os meninos, ia para o colégio com a camisa do Flamengo toda vez que o time do coração ganhava, participava do clube de ciências e olimpíadas de matemática. Mas uma vez eu era inadequada.

O período da faculdade é o que tenho mais lembranças. Cursei durante seis anos o curso de arquitetura e urbanismo. Foi lá que fiz belíssimas amizades que perduram até hoje, conheci muitos lugares do Brasil em viajens com a ‘galera’ – Goiás, Belém, Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo, Ouro Preto, Natal etc. – esperimentei tudo que a vida podia me oferecer. Vivi minha juventude como se cada dia fosse o último – acho que por isso sinto tanta falta deste tempo…

Tentei me adequar de várias maneiras; fui católica, depois participei durante anos da igreja messiânica, fui do movimento estudantil, de diretórios acadêmicos, etc. até roqueira eu fui! Minha religião durante muito tempo foram as músicas do Nirvana, Metálica, Offspring, Red Hot Chilli Peppers, Pixes, Radio Head, Led Zeppelin, Pink Floyd, Beatles, etc…. até que entrei para igreja evangélica.

Lá achei verdadeiramente que tinha me encontrado, não precisaria mais me adequar, pois a promessa de que me aceitariam do jeito que eu era resolveria meus problemas. Deixei amigos, as viagens, as músicas, os sonhos. Fiz outras amizades, conheci outros ‘mundos’, outros sons e sonhos. Me apaixonei verdadeiramente pela proposta do Evangelho, mas nunca me conformei com as respostas simplistas dos meus pastores. Eu era um problema nos cultos de doutrinas, nas escolas bíblicas, nas reuniões de liderança e sem perceber, aos poucos fui novamente me inadequando.

Resolvi então fazer seminário. Foram quatro anos maravilhosos! Minha mãe sempre diz que se eu tivesse me dedicado ao curso de arquitetura o tanto que me dediquei no seminário hoje eu seria um Niemeiyer! Durante este período construí com outros colegas um diretório acadêmico – eu, Flávio, Elton, Thiago e Ítalo – montamos uma revista, um espaço onde colocaríamos nossas ideias, que pretensamente achávamos que mudaria o mundo. Sempre fui inconformada. Era o terror dos professores despreparados e amada por aqueles que gostavam de um boa e calorosa discussão.

Olho para minha vida e percebo que nunca me conformei com o que eu era, com o que eu sabia, com o que os outros me diziam e ensinavam. Tinha desejo de sempre me recriar, de ressurgir, repensar, rever… Acho que por isso me vejo hoje tão diferente daquela menina do colegial tímida e de pernas finas. Perco-me e me acho todos os dias e percebo hoje quão maravilhoso isso tem sido para minha vida!

Tenho hoje trinta anos e sou casada! Percebo que as inadequações me acompanham até hoje. Faço parte de um grupo onde as mulheres são uma minoria… e para piorar não me calo! Falo o que penso, o que não penso, falo direto – sem poesia e sem metáforas – o que torna minhas palavras muitas vezes sem a beleza esperada. Inadequada! Em um mundo onde a subjetividade é comum sou na maioria das vezes objetiva demais.

Penso então em desistir! Em ser como a maioria, simplesmente a mulher de algúem, a filha de alguém, ou ainda no futuro, a mãe de alguém. Não consigo… quero ser Cláudia, correndo o risco de muitas vezes não ser compreendida pelas suas inadequações, mas ainda assim, mais corajosa do que nunca, se posicionando, falando, escrevendo o que pensa e acredita. Na maioria das vezes sem poesia e sem metáforas, de modo claro e objetivo; arriscando-se sempre e instigando as pessoas a sua volta a não se conformarem com suas adequações, a sairem da suas “zonas de conforto”.

Não busco credos, nem catecismos, não quero respotas prontas, procuro uma espiritualidade existencialista, que me sirva agora, para esta vida! Minha fé está mais transbordante e apaixonante do que nunca, minha espiritualidade cada vez mais humana… talvez por isso, me sinto mais inadequada do que nunca… contudo ‘prefiro ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo’!

Cláudia Sales

Por ocasião desse texto, recebi uma das mais lindas demonstrações de carinho que compartilho com vocês!

Ave Cláudia, cheia de graça

Integridade tua, esperança nossa

Bendita sois vós de linhagem escassa

Alegria de quem te conhecer possa

Já sorvi bom bocado desse fel

Inadequada é, de minha pele a cor

No fluir dos dias usei como broquel

Curtir amizade serena com a dor

Intrigante é conhecer-te nas letras

Que te mostram assim tão igual

Nas coisas que fiz, nos risos nas tretas

Folguedos de menino, nada de mal…

Tivesses teu ímpeto contido

Tivesses calado tua ânsia

Não teria eu te conhecido

Não terias tu minha ressonância

Não te cale metamorfose ambulante

Salve! Salve santa inadequação!

Singelo é o som, é doce, abarcante

Da voz que sai de teu coração.

 
19.08.09

Fátima Clara

Não faz muitos anos que escrevi um texto chamado “Inadequações” (agosto/2009). Nesse, escrevo um pouco dos espaços que passei, pessoas que conheci e minhas crises em não conseguir me enquadrar nos padrões estabelecidos e nas expectativas depositadas sobre mim.

Falei, mesmo que de modo superficial, da menina tímida e magricela que preferia os esportes, ao invés das danças; que jogava bola com os meninos e torcia pelo Flamengo, ao invés das brincadeiras de meninas; que participava das olimpíadas de matemática e física, ao invés dos salões de beleza; que preferia ao heavy metal e o punk rock ao pop romântico. Essas e muitas outras inadequações, de fato, fizeram e fazem parte da minha história e as carregarei por toda a vida.

Mas, de uns tempos para cá, um outro tipo de inadequação tem se sobressaído dentre as demais: a inadequação religiosa. É fato que sempre escolhi caminhos pouco trilhados… Optei pelo labor teológico e pelo exercício de repensar a fé. “Uma igreja reformada sempre reformando”, era isso o que eu queria ser… uma espécie de “metamorfose ambulante” que jamais se conformaria com respostas simplistas, não abriria mão da dúvida, do questionamento, do ressignificar.

Sabia que esse caminho seria difícil, mas, sinceramente, nunca imaginei que atrairia para mim tanto repúdio e ojeriza. E pior, dos mais chegados… Sim, porque esperar que os que me conhecem “de ouvir falar” o rótulo de herege, apóstata, idólatra, condenada ao inferno e tantos outros adjetivos que não convém aqui dizer, eu já esperava. Para ser mais sincera, eu não tô nem aí para o que os fariseus de plantão e os defensores da “reta doutrina” dizem ao meu respeito. Mas, honestamente, não esperava isso dos que me conhecem “de comigo estar”. O fato é que me sinto descartável…

Pessoas que conheceram e conhecem minhas obras, que andaram comigo em evangelismos nos Tapebas, que viram de perto meu trabalho com crianças e adolescentes, que escutaram de perto minhas pregações, que me diziam que fui um canal de bençãos para suas vidas, hoje me viram as costas pelo simples fato de pensar diferente da maioria. Criticam-me pelas costas, riem de mim de forma sutil, difamam o meu nome e jogam na lata do lixo anos de companheirismo e respeito. Deixei de ser benção para tornar-me maldição. Mais uma vez, inadequada…

Nessa roda viva, cansei de me explicar, de me fazer entender por aqueles que claramente não o querem fazer. Prometi a mim mesma que o silêncio será minha melhor resposta e o tempo o melhor remédio. Até porque não tenho mais nada a dizer, minhas obras são conhecidas, meu caráter coloco a prova diariamente, e minha fé faz com que eu continue a caminhada. Na angustia lembro-me das palavras de Paulo:

De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos. Trazemos sempre em nosso corpo o morrer de Jesus, para que a vida de Jesus também seja revelada em nosso corpo. (…) Está escrito: “Cri, por isso falei”. Com esse mesmo espírito de fé nós também cremos e, por isso, falamos (…) Por isso não desanimamos. Embora exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo renovados dia após dia, pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles. Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno. (2a. Carta de Paulo aos Corintios 4:8-10;13;16-18)

Sigo adiante na minha jornada, sabendo que é apenas o começo! Peço ao Senhor que renove minhas forças como a da águia; que console minha alma com o Seu santo Espírito, para que eu não me sinta desamparada; que me dê sabedoria para falar, mas também para calar quando for preciso; e que me encha do Seu amor, para que eu não odeie os que me perseguem.

Não posso voltar atras, muito menos parar. O caminho que escolhi para mim é longo e eu mal comecei a trilhar nele. Me encanto a cada passo, fortaleço a minha fé a cada quilômetro percorrido. O solo por onde piso não é os da certeza e do conformismo, e sim o da dúvida e do questionamento. Sei que não descansarei a sombra das multidões… muitas vezes não terei onde “reclinar a cabeça”. Mas não desanimarei!

Sei que encontrarei nesse caminhar quem poderei verdadeiramente chamar de amigo. Sei que encontrarei os “sete mil que não se curvaram a Baal” e com eles ajudarei a construir o Reino de Deus que já está no meio de nós.

RESPOSTA (Maysa)

Ninguém pode calar dentre mim
Esta chama que não vai passar
É mais forte que eu
E não quero dela me afastar

Eu não posso explicar quando foi
E nem quando ela veio
E só digo o que penso, só faço o que gosto
E aquilo que creio

Se alguém não quiser entender
E falar, pois que fale
Eu não vou me importar com a maldade
De quem nada sabe
E se alguém interessa saber
Sou bem feliz assim
Muito mais do que quem já falou
Ou vai falar de mim

 

Depois de toda discussão sobre a lei da união homoafetiva resolvi me pronunciar. Como vocês mesmo devem já terem percebido, eu não sou do tipo que se omite, muito menos que fica em cima do muro. Então, serei  breve no que tenho a dizer quanto a esta questão.

Não usarei aqui, como diria meu querido amigo Marcos Monteiro, de sutileza semântica, nem de complicação linguística. Como geralmente não faço poesia (não que eu já não tenha tentado, ou tenha orgulho disso) e costumo escrever em prosa, vou conversando, mesmo que de modo simplificado, o que pude perceber de todo esse frenesi!

Em primeiro lugar, percebo que Jesus de Narazé se coloca em defesa das minorias. Desde os direitos das mulheres, defendido por Jesus em uma sociedade patriarcal – logo machista – até os direitos dos negros defendidos pelo pastor Martin Luther King Jr., fica perceptível a luta por parte dos que se dizem seguidores do evangelho para dar voz e vez às minorias perseguidas e marginalizadas.

Nada é mais emblemático do que o diálogo de Jesus com a mulher samaritana. “Dá-me de beber”, diz o Galileu. A surpresa foi tamanha que a mulher responde: “como sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?” Como pode uma mulher, samaritana, tendo vivido com vários maridos e, então, amancebada com o último, dar de beber ao próprio Deus?

Simples. Jesus não estava preocupado com sua reputação diante dos sacerdotes de plantão, nem mesmo de seus discípulos – que também não viram com bons olhos o gesto de seu mestre. O seu compromisso não era com a reputação, mas sim com a justiça e a dignidade humana. E nós que nos afirmamos seguidores dEle deveríamos fazer o mesmo.

Em segundo lugar, entendo que o evangelho é a filosofia do amor contra qualquer indiferença. Como diria Lulu Santos, deveríamos considerar “justa toda forma de amor”, ou ainda nas palavras de Milton Nascimento e Caetano Veloso “qualquer maneira de amor vale amar; qualquer maneira de amor vale a pena; qualquer maneira de amor valerá”. Contudo, não é este o entendimento que configura a concepção da maioria dos religiosos sobre o assunto. Pelo contrário, expressam-se com ojeriza, de uma forma a repulsar ostensivamente toda manifestação amorosa que não se enquadre no padrão estabelecido tradicionalmente por seus moldes pretensamente inquestionáveis.

Nunca vi tanto ódio sendo destilado por pessoas do meio evangélico, que se dizem defensoras do amor incondicional de Deus. Escondendo-se por trás de um discurso do “amo o pecador, mas odeio o pecado”, se acham no direito de julgar, demonizar, “crucificar”.

Assumem o papel de juiz e de modo desumano querem a qualquer preço separar o que é “joio e o que é trigo”, e dar a palavra final sobre a vida e espiritualidade das pessoas. Sendo assim, poderíamos ser reconhecidos como a religião do amor, se nossas práticas só refletem ódio e guerra? Ao que parece, existe é certo prazer sádico em condenar ao inferno…

E em terceiro lugar, a luta pela justiça é algo que deve garantir o bem estar de todos independentemente de raça, crença ou sexualidade. Jesus, em seu mais famoso sermão nos ensina que “bemaventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados” (Mateus, 5:6). Em outras palavras, a justiça deveria ser algo tão imprescindível para nós quanto à vontade de comer! Fome de justiça!

Contudo, o que parece latente no movimento evangélico é que a “luta pela justiça” só deve ser perseguida se esta incorrer em benefício particular de alguma forma… algo totalmente mesquinho e anticristão, uma vez que no cristianismo o princípio fundamental que nos identifica é a busca do bem estar do outro (“eu vim para servir, e não para ser servido”).

Esquecem-se (ou por ignorância não sabem) que a justiça não está a favor de um grupo, ou uma classe social, raça, partido político, etc. Não se pode falar de promoção da justiça sem falar de respeito e na igualdade de todos os cidadãos. Todavia, isso só pode ser possível por intermédio da preservação dos direitos em sua forma legal e da sua aplicação.

Antes de sermos negros, gays, evangélicos, petistas, amarelos, viúvos, crianças, budistas, mulheres, velhos, ou qualquer outro rótulo que nos classifique e nos distinga, somos seres humanos criados à imagem e semelhança de Deus, cidadãos com deveres e direitos que devem ser garantidos para o bem estar de todos e o exercício da cidadania. Todos nós temos (ou deveríamos ter) o direito de nascer, comer, estudar, morar com dignidade, casar, descasar, ir, vir, expressar-se, etc. Essa é a nossa luta! Garantir que todos possam exercer seus direitos na sua plenitude. Nisso fazemos justiça e somos saciados!

Quero ainda dizer que este texto não reflete nenhuma ideia institucional, ele é fruto de uma reflexão pessoal. Falo isso porque não quero que vinculem minhas palavras a nenhuma denominação religiosa, e nem usem meus escritos como pretexto para sistematizar o pensamento de alguma instituição com o intuito de rotulá-la. De jeito nenhum! Tudo o que penso e escrevo é de minha responsabilidade e não me envergonho de expor a quem quer que seja.

Sei que causarei o repudio de muitos e tantos outros me rotularão de herege. Não me incomodo com isso. Meu compromisso não é com uma tradição engessada que não ousa reinventar-se historicamente, e sim com a justiça, o amor e o evangelho de Jesus que não faz acepção de pessoas. Termino esse texto com uma poesia do meu amigo Jeyson Rodrigues[1], companheiro de fé, luta e resistência:

BELEZ’ENTRE CURVAS

Eis um corpo de femininas curvas
Tocando outro corpo, outras femininas curvas
Curvas que tocam deslizando: música
Dança das curvas ao som
Ao som gerado entre curvas
Amor em curvas, toques e músicas

Se dois femininos corpos em curvas
Se amam e desejam tocar-se
Que as curvas de uma, misturem
Às belas curvas da outra
E que os dedos dedilhem, tocando
As cordas, os braços, as bocas
Enquanto fluem das curvas
A arte amada, em notas agudas
Na feminina música de quem ama
O feminino corpo de sons em curvas

Se as curvas se amam e querem o toque
Que se toquem, que se amem, nuas
Que se desliz’em sonoros, dedilhados
No amor dum só gênero, artístico
Na arte erótica do amor entre curvas
Que se sonorizam e artem
Que se amam, se tocam
Que se querem e se deixam tocar-se

Toda curva é bela
Todo amor é santo
Todo toque é arte
Toda nudez é pura
E o amor que se curva
À belez’entre curvas
É amor artístico, belo e amante
É amante do amor
Da feminina beleza
E da belez’entre curvas

Cláudia Sales


[1] Teólogo pluralista, estudante de Ciência das Religiões pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, e de Ciências Sociais pela Universidade Federal de Alagoas. Lecionou História do Cristianismo no Seminário Teológico Batista de Alagoas. Livre-pensador. Blog: http://jeysonrodrigues.blogspot.com/

Faz exatamente 13 anos que conheci e me congrego (de alguma forma) na igreja Betesda e naquela época, meados de 1998, eu já escutava de forma encantada o seu discurso de vanguarda e percebia notoriamente as insatisfações dos mais conservadores e a euforia dos mais progressistas. Mas, ainda que dividida entre essas dua alas (ou melhor dizendo, rótulos), existia, mesmo que de forma ilusória, um espírito de unidade e uma tentativa de se construir uma identidade para a Betesda.

Lembro-me bem que, ainda na gestão do nosso querido Allison, essas questões sobre identidade, teologia, poder, fundamentalismos, liberalismos borbulhavam pelos corredores. Claro que não foi do dia para noite que muitas igrejas decidiram que não queriam mais caminhar junto com a Betesda, esse foi um processo lento, mas continuo.

Anos se passaram para que um dos piores traumas para a Instituição Betesda acontecesse de fato. Rachas, “amizades” desfeitas, pessoas magoadas… muita coisa aconteceu. Mas, algo de positivo poderíamos tirar de todo esse processo doloroso: em 2007, pastores e membros, especialmente os da Betesda do Ceará, tiveram uma rica oportunidade de se pronunciarem e escolherem que caminhos gostariam de trilhar.

Em tese, e só em tese mesmo, quem resolvesse ficar na Betesda do Ceará, não estaria simplesmente abraçando as ideias de sua igreja local, ou protegendo os interesses do seu “pequeno vaticano” particular. Quem se propôs a ficar estaria disposto a continuar a andar numa trilha sem volta, um caminho de reflexão que na grande maioria das vezes desagradaria a um público evangélico fundamentalista, conservador, bairrista e preconceituoso.

Um caminho estreito, árduo, que não tem a “glória” das multidões, a aceitação da mesa dos escarnecedores, nem o sucesso financeiro prometidos pelos pseudos televangelistas de plantão. Não seríamos mais chamados para pregar nos grandes eventos gospel, nossos nomes seriam muitas vezes difamados… mas, em contrapartida, esse caminho estaria comprometido com a promoção da justiça e a construção de um mundo melhor hoje, um Reino de Deus que se instaura por intermédio de mãos e pés de carne.

Infelizmente, quando olho hoje para a Betesda do Ceará o que vejo? Visualizo “franquias” fragmentadas e fundamentadas no cada um por si (e Deus por todos?), tentando a todo custo (questão de sobrevivência) aparecer novamente no cenário gospel, querendo “limpar-se” da “queimação de filme” que os afastaram da lógica evangélica (mas que nos trouxeram para mais próximo de Deus e do próximo). Negam assim, uma história de luta e resistência, de reflexão e companheirismo, em prol da lógica capitalista religiosa, do individualismo e do “se vira nos 30”.

Aliás, uma franquia é mais coerente do que temos aqui hoje no cenário da Betesda do Ceará. Porque quem deseja abrir uma franquia, seja ela qual for, no mínimo precisa acreditar no produto que está se propondo representar. Ter confiança na qualidade e respeitar a marca.

Digo tudo isso porque me sinto enlutada. De certa forma, a autonomia das igrejas Betesda do Ceará traz um desligamento da Betesda de São Paulo e o que restará aqui não passará de uma propaganda enganosa da Instituição Betesda, que sempre terá como referência o nome de seu maior representante Ricardo Gondim (mesmo que se tente negar, ou apagar isso).

Ao invés de se juntarem e fortalecerem uns aos outros para persistirem nessa caminhada, que sabíamos que não seria fácil, e que seria estreito, optaram pelo caminho largo, mais fácil e confortável de trilhar, porém, que traz como consequência mais isolamento, segregação, dicotomia entre Sudeste – Nordeste e que joga no lixo toda a luta e história de uma igreja que SEMPRE optou andar na contramão da lógica mercadológica e dogmática evangélica.

Declaro aqui que eu não concordo com esse isolamento “elegante” e decido continuar andando pelo caminho que escolhi em 1998. O caminho da reflexão e rupturas, o caminho da dúvida e das incertezas (pois só assim a fé faz sentido), o caminho mergulhado na Graça de Deus que anuncia o Reino que já está no meio de nós.

Ricardo, conte com meu apoio e carinho. Não continuo caminhando com você apenas pelo que você pensa, diz, ou escreve. Não quero apenas caminhar com sua teologia; quero caminhar com gente como você que erra, acerta, volta, repensa, constrói, desconstrói, perdoa, chora, ri, abraça, beija, ama. A grandiosidade da sua humanidade é o que mais me encanta e me convida a caminhar junto! Não abaixo, nem tão pouco acima, mas ao lado, como uma igual. Sinto-me honrada de fazer parte dessa história chamada Betesda. História essa escrita não com tinta, mas com o sangue e as lágrimas dos que persistem nessa eterna e constante construção.

Grata.

Cláudia Sales

O melhor ainda está por vir”

Inclina os teus ouvidos, ó Senhor, e responde-me, pois sou pobre e necessitada.

Guarda a minha vida, pois sou fiel a ti. Tu és o meu Deus; salva a tua serva que em ti confia!

Misericórdia, Senhor, pois clamo a ti sem cessar.

Alegra o coração da tua serva, pois a ti, Senhor, elevo a minha alma.

Tu és bondoso e perdoador, Senhor, rico em graça para com todos os que te invocam.

Escuta a minha oração, Senhor; atenta para a minha súplica!

No dia da minha angústia clamarei a ti, pois tu me responderás.

Nenhum dos deuses é comparável a ti, Senhor, nenhum deles pode fazer o que tu fazes.

Todas as nações que tu formaste virão e te adorarão, Senhor, glorificarão o teu nome.

Pois tu és grande e realizas feitos maravilhosos; só tu és Deus!

Ensina-me o teu caminho, Senhor, para que eu ande na tua verdade; dá-me um coração inteiramente fiel, para que eu tema o teu nome.

De todo o meu coração te louvarei, Senhor, meu Deus; glorificarei o teu nome para sempre.

Pois grande é o teu amor para comigo; tu me livraste das profundezas do Sheol.

Os arrogantes estão me atacando, ó Deus; um bando de homens cruéis, gente que não faz caso de ti procura tirar-me a vida.

Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e misericordioso, muito paciente, rico em amor e em fidelidade.

Volta-te para mim! Tem misericórdia de mim! Concede a tua força a tua serva e salva o filho da tua serva.

Dá-me um sinal da tua bondade, para que os meus inimigos vejam e sejam humilhados, pois tu, Senhor, me ajudaste e me consolaste.

 

12 de junho de 2011.