Não é novidade a minha paixão por histórias em quadrinhos e, por isso mesmo, mantenho o hábito prazeroso de sempre comprar revistas, álbuns e literatura do gênero. Nesta semana, fiz novas aquisições para meu acervo quadrinístico. Mas, contrariando meus hábitos, não comprei exemplares da Turma da Mônica ou qualquer outra publicação do Maurício de Sousa; nem adquiri mais uma edição de Mafalda ou Snoopy; não escolhi nenhum super-herói do universo Marvel ou DC Comics.

Radicalizei, comprei uma coleção de revistinhas em formato mangá (desenho japonês) que conta, de modo bem interessante, as narrativas bíblicas. Adquiri três volumes: o primeiro, descreve os fatos narrados nos Evangelhos sobre o ministério de Jesus; o segundo, relata a conversão de Paulo e seus feitos registrados no livro de Atos dos Apóstolos; e o terceiro, conta fatos do Antigo Testamento, da Criação até Moisés.

Como eu já conhecia os dois primeiros volumes e tinha dado uma espiadinha, resolvi ler o terceiro intitulado “Mangá Motim”. Estava tudo indo bem, realizando minha leitura despretensiosa, querendo apenas relaxar e me entreter, até que cheguei na história da torre de Babel. Não que nessa versão eu tenha visto algo diferente do que já conhecia do relato bíblico. Mas, quando li a expressão “vamos construir uma torre até os céus! Ficaremos famosos e não seremos espalhados pela face da terra”, foi inevitável o pensamento: meu Deus! Essa é a manifesta pretensão das igrejas hoje em dia!

No contexto evangélico, as igrejas assemelham-se, conscientes ou não, a Babel. Possuem o ardente propósito de construir e perpetuar suas denominações, enclausurando-se cada vez mais nas quatro paredes, querendo com isso fama, poder e prestígio. Quanto maior sua Babel mais cheias de si ficam.

Seus líderes, em especial, acham-se os donos da verdade, chegando inclusive a tomar o lugar do próprio Deus; tornam-se arrogantes, não ousam a enxergar a sociedade a sua volta, como se a realidade girasse, exclusivamente, em torno de si. A obsessão pela fama, aliada à pretensa noção de pureza identitária, os levam a “não se espalhar”, ou seja, dividir o poder.

Esqueceram-se da missão da igreja que, de acordo com o teólogo Juan Luis Segundo, é ser sinal de salvação, e conscientizar o ser humano que o amor de Deus já se manifesta no mundo e os convida à prática do bem. Ao invés disso, tais líderes, transformaram a missão em números que só servem para aumentar o “prestígio” de suas babéis. “Quantos membros sua igreja possui?” “Quanto ela rende por mês?” tornam-se questões relevantes e recorrentes, entre outras de mesmo teor, ao referir-se ao desempenho de uma comunidade eclesiástica.

Nesse modelo missiológico, as pessoas não precisam ser conscientizadas, elas apenas precisam comparecer às reuniões, celebrações, eventos e cultos, tudo com o intuito de não permitir que elas se espalhem novamente. Juan Luis Segundo (in SOARES, 2005, p. 54) adverte que:

Para ser fiel à sua missão de transmitir a Palavra de Deus, a Igreja deve subordinar o fator numérico à qualidade de sua presença e significação, expressar a metamensagem da revelação com gestos concretos de amor, traduzir sempre de novo esta (meta)mensagem diante de novas circunstâncias históricas, construir-se como comunidade real e manter um constante diálogo com o mundo. A essência e função da Igreja definem-se pelo serviço e diálogo com o mundo, dado que a verdade proveniente da revelação, que ela anuncia, é maior que ela a Igreja mesma.

Para isso, as denominações teriam que abandonar seus projetos megalomaníacos, a lógica babelística que as configuram, em direção de outro projeto que tem como características o serviço, o diálogo e o amor. Nesta nova proposta não há espaço para vaidades individuais, projeções denominacionais, disputas pelo poder, enclausuramento ascético, imbecilização dos fiéis, perpetuação de dogmas e doutrinas, individualismo e egoismo.

Para os que continuam insistentemente a construir suas torres de Babel, edificando seus impérios, achando-se com isso, a própria manifestação da divindade na terra, o Senhor admoesta que “irá confundir os idiomas para que os grupos não se entendam”, com a esperança de que assim, e só assim, através da respeitosa atitude dialógica, finalmente compreendam a sua missão, espalhem-se e façam diferença na sociedade onde se inserem.

Bem, a confusão já começou… Minha esperança é que um dia todos entendam.

Cláudia Sales