heitor

Meu textão de dia dos namorados desse ano não será para meu marido Geraldo… Vai para a pessoinha mais linda que pude conhecer e ter o prazer de gerar: o Heitor. Ontem ele chegou pra mim pedindo para comprar chocolates para ele levar para o colégio e dar para uma “paquerinha” dele. Fiquei sem palavras! O que dizer para uma criança de 5 anos que se diz gostar de uma colega de escola?

Perguntei para ele o que era paquerar. “Sabidamente” ele foi me dizendo, como se quisesse se defender: “- Criança não namora, mas, pode ficar olhando durante a aula para uma menina que ele gosta e isso é paquerar”.  Rubem Alves, em uma das suas crônicas, diz que “é através dos olhos que as crianças tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo. (…) As crianças não vêem “a fim de”. Seu olhar não tem nenhum objetivo prático. Vêem porque é divertido ver”. Deve ser por isso que pra o Heitor paquerar é FICAR OLHANDO MUITO PARA QUEM SE GOSTA.

Mesmo receosa do que os pais da menina poderiam pensar, fui a uma loja de chocolates e pedi que ele escolhesse o que ele quisesse para dar. Ele se dirigiu a um coração rosa cheio de bombons e disse: – É esse! Comprei (claro que tive que comprar outro chocolate pra ele) e ele foi satisfeito para casa. Coloquei no embrulho uma etiqueta e escrevi “Criança não namora, mas demonstra amor” e ele assinou com próprio punho no final.

Hoje de manhã, o levei pra a escola (atrasados como sempre) e fui deixa-lo na sala. Nessas horas percebo mais do que nunca que mãe é bicho besta! Sabe aquele frio no pé da barriga? Quase tive uma crise de ansiedade. E se a menina não receber o presente? E se ele não tiver coragem de entregar? E se…? Muitos “e se” povoaram minha mente do portão da escola até a porta da sala. O nervoso tomou conta de mim. Enquanto isso, Heitor ia tranquilamente fazendo seu caminho, como se hoje fosse um dia como qualquer outro – próprio da ingenuidade das crianças. Porque pra mim, hoje foi um divisor de águas: deixei de ser a namorada do meu filho. Sonhei tanto com esse dia e quando ele chegou doeu (vou ter muita coisa para falar na próxima sessão da terapia). Lembrei-me mais uma vez de Rubem Alves, em uma outra crônica, quando ele diz que o “amor é isto: a dialética entre a alegria do encontro e a dor da separação”.

Ao chegar na sala, chamei a professora para alertá-la das cenas dos próximos capítulos. Heitor, que de bobo não tem nada, percebendo do que poderia se tratar o assunto da conversa, foi logo soltando: trouxe chocolates para AC (melhor deixar o nome dela em segredo)!  A professora riu e tentou agir naturalmente pedindo que ele fosse guardar a mochila. Vendo a minha aflição tentou me tranquilizar dizendo que nessa idade é normal esse tipo de atitude.

Quase que forçadamente tive que sair da sala (porque se fosse pelo meu gosto estaria lá ate agora) e ir trabalhar. Ele não entregou o presente na minha frente. Foi me deixar no portão de saída das salas do Infantil 5, me deu um beijo selinho e disse que me contava tudo quando eu chegasse em casa. Sai com um nó na garganta. Uma vontade de chorar imensa. Desabei no carro na frente do Geraldo, que na tentativa de me consolar disse: – Ele tá crescendo, finalmente desapegando mais de ti. Meu mundo caiu.

Mas o que esperar de uma criança que em casa tem a experiência de ver pais que se amam? Que no dia-a-dia se respeitam, demonstram carinho e cuidado um para com o outro? A criança imita o exemplo dos adultos. Percebo que em parte o Heitor externa o que presencia em casa:  um casal, que apesar das dificuldades, diferenças e defeitos, se ama e demonstra carinho um pelo outro. Presente maior eu não podia esperar hoje, de ver que o amor se ensina amando. E mais, finalmente entender que “quem não pode suportar a dor da separação não está preparado para o amor. Porque o amor é algo que não se tem nunca. É evento de Graça.” (Rubem Alves)

FELIZ DIA DOS NAMORADOS!

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