Não faz muitos anos que escrevi um texto chamado “Inadequações” (agosto/2009). Nesse, escrevo um pouco dos espaços que passei, pessoas que conheci e minhas crises em não conseguir me enquadrar nos padrões estabelecidos e nas expectativas depositadas sobre mim.

Falei, mesmo que de modo superficial, da menina tímida e magricela que preferia os esportes, ao invés das danças; que jogava bola com os meninos e torcia pelo Flamengo, ao invés das brincadeiras de meninas; que participava das olimpíadas de matemática e física, ao invés dos salões de beleza; que preferia ao heavy metal e o punk rock ao pop romântico. Essas e muitas outras inadequações, de fato, fizeram e fazem parte da minha história e as carregarei por toda a vida.

Mas, de uns tempos para cá, um outro tipo de inadequação tem se sobressaído dentre as demais: a inadequação religiosa. É fato que sempre escolhi caminhos pouco trilhados… Optei pelo labor teológico e pelo exercício de repensar a fé. “Uma igreja reformada sempre reformando”, era isso o que eu queria ser… uma espécie de “metamorfose ambulante” que jamais se conformaria com respostas simplistas, não abriria mão da dúvida, do questionamento, do ressignificar.

Sabia que esse caminho seria difícil, mas, sinceramente, nunca imaginei que atrairia para mim tanto repúdio e ojeriza. E pior, dos mais chegados… Sim, porque esperar que os que me conhecem “de ouvir falar” o rótulo de herege, apóstata, idólatra, condenada ao inferno e tantos outros adjetivos que não convém aqui dizer, eu já esperava. Para ser mais sincera, eu não tô nem aí para o que os fariseus de plantão e os defensores da “reta doutrina” dizem ao meu respeito. Mas, honestamente, não esperava isso dos que me conhecem “de comigo estar”. O fato é que me sinto descartável…

Pessoas que conheceram e conhecem minhas obras, que andaram comigo em evangelismos nos Tapebas, que viram de perto meu trabalho com crianças e adolescentes, que escutaram de perto minhas pregações, que me diziam que fui um canal de bençãos para suas vidas, hoje me viram as costas pelo simples fato de pensar diferente da maioria. Criticam-me pelas costas, riem de mim de forma sutil, difamam o meu nome e jogam na lata do lixo anos de companheirismo e respeito. Deixei de ser benção para tornar-me maldição. Mais uma vez, inadequada…

Nessa roda viva, cansei de me explicar, de me fazer entender por aqueles que claramente não o querem fazer. Prometi a mim mesma que o silêncio será minha melhor resposta e o tempo o melhor remédio. Até porque não tenho mais nada a dizer, minhas obras são conhecidas, meu caráter coloco a prova diariamente, e minha fé faz com que eu continue a caminhada. Na angustia lembro-me das palavras de Paulo:

De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos. Trazemos sempre em nosso corpo o morrer de Jesus, para que a vida de Jesus também seja revelada em nosso corpo. (…) Está escrito: “Cri, por isso falei”. Com esse mesmo espírito de fé nós também cremos e, por isso, falamos (…) Por isso não desanimamos. Embora exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo renovados dia após dia, pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles. Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno. (2a. Carta de Paulo aos Corintios 4:8-10;13;16-18)

Sigo adiante na minha jornada, sabendo que é apenas o começo! Peço ao Senhor que renove minhas forças como a da águia; que console minha alma com o Seu santo Espírito, para que eu não me sinta desamparada; que me dê sabedoria para falar, mas também para calar quando for preciso; e que me encha do Seu amor, para que eu não odeie os que me perseguem.

Não posso voltar atras, muito menos parar. O caminho que escolhi para mim é longo e eu mal comecei a trilhar nele. Me encanto a cada passo, fortaleço a minha fé a cada quilômetro percorrido. O solo por onde piso não é os da certeza e do conformismo, e sim o da dúvida e do questionamento. Sei que não descansarei a sombra das multidões… muitas vezes não terei onde “reclinar a cabeça”. Mas não desanimarei!

Sei que encontrarei nesse caminhar quem poderei verdadeiramente chamar de amigo. Sei que encontrarei os “sete mil que não se curvaram a Baal” e com eles ajudarei a construir o Reino de Deus que já está no meio de nós.

RESPOSTA (Maysa)

Ninguém pode calar dentre mim
Esta chama que não vai passar
É mais forte que eu
E não quero dela me afastar

Eu não posso explicar quando foi
E nem quando ela veio
E só digo o que penso, só faço o que gosto
E aquilo que creio

Se alguém não quiser entender
E falar, pois que fale
Eu não vou me importar com a maldade
De quem nada sabe
E se alguém interessa saber
Sou bem feliz assim
Muito mais do que quem já falou
Ou vai falar de mim

 

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