Acho que todos vocês conhecem a estótia do rei nú de Hans Christian Andersen. Rubem Alves reconta a estória introduzindo uns floreados para torná-la mais atual. Queria então compartilhar esta versão com vocês.


“Havia um rei muito tolo que adorava roupas bonitas. Os tolos, geralmente, gostam de roupas bonitas. Pois esse rei enviava emissários por todo o país com a missão de comprar roupas diferentes. Era o melhor cliente da Daslu. Os seus guarda-roupas estavam entulhados com ternos, sapatos, gravatas de todas as cores e estilos. Eram tantas as suas roupas que ele estava muito triste porque seus emissários já não encontravam novidades.

Dois espertalhões ouviram falar do gosto do rei pelas roupas e  viram nisso uma oportunidade de se enriquecerem às custas da vaidade da Majestade. A vaidade torna bobas as pessoas: elas passam a acreditar nos elogios dos bajuladores… Foi isso que aconteceu com um corvo vaidoso que estava pousado no galho de uma árvore com um queijo na boca: por acreditar nos elogios da raposa ficou sem queijo…

Pois os dois espertalhões-raposa foram até o palácio real e anunciaram-se na portaria, apresentando o seu cartão de visitas: “Doutor Severino e Doutor Valério, especialistas em tecidos mágicos.”

O rei já havia ouvido falar de tecidos de todos os tipos mas nunca ouvira falar de tecidos mágicos. Ficou curioso. Ordenou que os dois fossem trazidos à sua presença. Diante do rei fizeram uma profunda barretada, tirando seus chapéus.

“Falem-me sobre o tecido mágico”,  ordenou o rei.

Um dos espertalhões, o mais loquaz, se pôs a falar.

“Majestade, diferente de todos os tecidos comuns, o tecido que nós tecemos é mágico porque somente as pessoas inteligentes podem vê-lo. Vestindo um terno feito com esse tecido Vossa Majestade será cercado apenas por pessoas inteligentes, pois somente elas o verão…”

O rei ficou encantado e imediatamente contratou os dois espertalhões, oferecendo-lhes um amplo aposento onde poderiam montar os seus teares e e tecer o tecido que só os inteligentes poderiam ver..

Passados alguns dias o rei mandou chamar o ministro da educação e ordenou-lhe que fosse examinar o tecido.  O ministro dirigiu-se ao aposento onde os tecelões estavam trabalhando.

“Veja, excelência, a beleza do tecido”, disseram eles com a mãos estendidas. O ministro da educação não viu coisa alguma e entrou em pânico. “Meu Deus, eu não vejo o tecido, logo  sou burro…” Resolveu, então, fazer de contas que era inteligente e começou a elogiar o tecido como sendo o mais belo que havia visto.

“Majestade”, relatou o minsitro da educação ao rei, “o tecido é incomparável, maravilhoso. De fato os tecelões são verdadeiras magos!” O rei ficou muito feliz.

Passados mais dois dias ele convocou o ministro da guerra e ordenou-lhe que examinasse o tecido. Aconteceu a mesma coisa. Ele não viu coisa alguma. ” Meu Deus”, ele disse, ” não sou inteligente. O ministro da educação viu e eu não estou vendo…” Resolveu adotar a mesma tática do ministro da educação e fez de contas que estava vendo. O rei ficou muito feliz com a seu relatório. E assim aconteceu com todos os outros ministros. Até que o rei resolveu pessoalmente ver o tecido maravilhoso. Mas, como os ministros, ele não viu coisa alguma porque nada havia para ser visto. Aí ele pensou:  “Os ministros da educação, da guerra, das finanças, da cultura, das comunicações viram. São inteligentes. Mas eu não vejo nada! Sou burro. Não posso deixar que eles saibam da minha burrice porque pode ser que tal conhecimento venha a desestabilizar o meu governo…” O rei, então, entregou-se a elogios entusiasmados ao tecido que não havia.

O cerimonial do palácio determinou então que deveria haver uma grande festa para que todos vissem o rei em suas novas roupas. E todos ficaram sabendo que somente os inteligentes as veriam. A mídia, televisão e jornais, convidaram todos os cidadãos inteligentes a que comparecessem à solenidade.

No Dia da Pátria, a cidade engalanada, bandeiras por todos os lados, bandas de música, as ruas cheias, tocaram os clarins e ouviu-se uma voz pelos alto-falantes:

“Cidadãos do nosso país! Dentro de poucos instantes a sua inteligência será colocada à prova. O rei vai desfilar usando a roupa que só os inteligentes podem ver.”

Canhões dispararam uma salva de seis tiros. Ruflaram os tambores. Abriram-se os portões do palácio e o rei marchou vestido com a sua roupa nova.

Foi aquele oh! de espanto. Todos ficaram maravilhados. Como era linda a roupa do rei! Todos eram inteligentes.

No alto de uma árvore estava encarapitado um menino a quem não haviam explicado as propriedades mágicas da roupa do rei. Ele olhou, não viu roupa nenhuma, viu o rei pelado exibindo sua enorme barriga,  suas nádegas murchas  e  vergonhas dependuradas. Ficou horrorizado e não se conteve. Deu um grito que a multidão inteira ouviu:

“O rei está pelado!”

Foi aquele espanto. Um silêncio profundo. E uma gargalhada mais ruidosa que a salva de artilharia. Todos gritavam enquanto riam: ” O rei está nu, o rei está nu…”

O rei tratou de tapar as vergonhas com as mãos e voltou correndo para dentro do palácio.

Quanto aos espertalhões, já estavam longe e haviam transferido os milhões que haviam ganho para um paraíso fiscal…”


Rubem Alves escreve ainda um outro final para a história:

“O rei está pelado!

Foi aquele espanto. Um silêncio profundo. Seguido pelo grito enfurecido da multidão.

“Menino louco! Menino burro! Não vê a roupa nova do rei! Está querendo desestabilizar o governo! É  um subversivo, a serviço das elites!”

Com estas palavras agarraram o menino, colocaram-no numa camisa de força  e o internaram num manicômio.

Moral da estória: Em terra de cego quem tem um olho não é rei. É doido.

Vocês devem estar se perguntando: por que postar esta estória? Me atrevo então a escrever um outro final! Se tiver um melhor compartilhe conosco!

“O rei está pelado!”

Foi aquele espanto. Um silêncio profundo. Seguido pelo grito enfurecido da multidão.

“Cala boca menino! Você está escandalizando a todos! Ninguém está interessado em perceber a nudez do rei, é constrangedor para nós… não sabemos lhe dar com esta situação! Queremos parecer inteligentes, nos fingimos que o rei esta vestido, e ele finge que acredita! Pronto! Simples assim!”

Com essas palavras, agarraram o menino e o silenciaram expulsando-o do reino.

Moral da estória:
A História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo. (Napoleão Bonaparte)

Quem se atreve a mostrar a nudez do rei?

Claudinha


Há alguns anos, por volta de 2001, fiz um curso para tornar-me evangelista de crianças e, assim, capacitar-me para trabalhar tanto no ministério infantil da igreja onde me congregava na época, como em um projeto missionário no qual investi quatro anos de minha juventude, entre os índios Tapebas, localizados em Caucaia, região metropolitana de Fortaleza.

Em tal curso (imagino que muitos já saibam qual é), aprendemos a escrever esboços para o culto infantil, tínhamos aulas de canto, comunicação visual (disciplina esta que no ano seguinte tornei-me professora na mesma instituição), evangelismo pessoal, memorização de versículos, etc… Além destas, tínhamos disciplinas de cunho dogmático: doutrina do Espirito Santo e doutrina da salvação.

Na disciplina de doutrina do Espírito Santo, a ênfase estava nos frutos do Espírito; já a que estudava a doutrina da salvação, era enfatizada a predestinação do ser humano e a inquestionável doutrina do pecado original, sendo esta última de maior peso, uma vez que ela fundamenta(va) a existência do referido curso.

A lógica era muito simples: todos nós nascemos em pecado, este herdado de Adão; logo, as crianças eram “adãozinhos” precisando de conversão urgente, para se livrarem do mármore do inferno! Para amenizar o show de horrores, os professores ensinavam que existia, entretanto, uma tal fase da inocência onde a criança não consciente ainda do seu pecado poderia ser salva. Mas a questão era: como saber se a criança ainda está na sua fase de inocência? Principalmente em nossos dias onde as crianças se “adultizam” mais rápido do que nunca antes? Daí a urgência das Boas Novas aos pequeninos. O pecado de Adão poderia levá-los ao inferno… Durante anos acreditei nisto.

A doutrina do pecado original pretende dar explicações sobre a origem da imperfeição humana, do sofrimento e da existência do mal; foi sistematizada por Agostinho, no século V, e tinha como fundamento a hereditariedade do pecado de Adão. Este, criado à imagem e semelhança de Deus, pecou e por isto, Deus tirou-lhe seus dons sobrenaturais, passando dali por diante a ser mortal, e seus dons naturais foram maculados.

Fundamentado no versículo paulino de Romanos 5:12, “Eis porque, como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram…” Agostinho declarou que a culpa de Adão era transmitida de geração à geração. Mais tarde a igreja oficial adotou esta ideia como um dogma – “pecado, que é morte da alma, se propaga de Adão a todos seus descendentes por geração e não por imitação, e que é inerente a cada indivíduo” – daí a necessidade do batismo infantil, ‘pro menino não morrer pagão’.

Para Agostinho e, consequentemente, para a Igreja Católica, o batismo das crianças é um sacramento impressindível. Ora, se o ser humano depois do pecado de Adão, trouxe para dentro de si o pecado original, ele precisa ser purificado, ser lavado. Nós, evangélicos, que temos horror a tudo que é católico, também demos nosso jeitinho para nos livrar do pecado original.

É verdade, não batizamos crianças, pois acreditamos que o batismo é uma decisão que se faz conscientemente, sabendo as implicações, responsabilidades e consequências (o que os católicos fazem no sacramento da crisma, ou seja, a confirmação do batismo), mas apresentamos as crianças à igreja, impomos as mão sobre elas como se aquele ato as purificassem de todo mal e as blindassem de problemas futuros (doenças e desastres). Não tenho problema nenhum com o ritual da apresentação de crianças na igreja, só questiono os objetivos que estão nas entrelinhas…

Hoje, sinceramente, não consigo mais olhar para um recém-nascido e ver um “adãozinho”. Um ser que precisa aceitar o quanto antes a Jesus por que pode, se morrer, ir para o inferno pelo pecado herdado de Adão. Como se o pecado fosse (como me ensinaram) um fator genético, por isso, passado de geração em geração; de pai para filho.

Partindo do princípio que Adão e Eva, de fato, existiram, o pecado que eles cometeram foi só deles, e nós não carregamos este carma conosco. Como posso pagar pelo que não cometi? Como ser condenado pelo que o outro fez? Daí a ideia de pensarmos que o que herdamos de Adão foi o seu mal exemplo, sua desobediência.

Adão foi criado como qualquer outro ser humano, com liberdade de escolha, mortal, sujeito às dores e males. Ele tinha livre-arbítrio para escolher o que queria fazer com sua vida. Pois, se assim não o fora, como explicar que um ser criado à imagem de Deus justo, poderia ser tentado? Ou pior como poderia ceder à tentação? Como um ser criado sem desejos maus poderia, de repente, ser mutável em relação ao pecado? Somente admitindo os desejos e a liberdade à condição humana.

Deus expulsou Adão e Eva do Jardim para que eles não comessem da Árvore da Vida e tornassem-se imortais; logo, eles eram mortais desde o início. Neste sentido, a morte não é o castigo do pecado, e sim parte natural de nossa existência, desde o início da criação. A morte é questão vital! Ela faz parte da condição humana, mesmo que para nós seja difícil aceitar este fato.

O ser humano é livre, a exemplo de Adão, sendo capaz de escolher entre o bem e o mal. A universalidade do pecado e do mal no mundo pode ser explicada pela fraqueza humana em escolher o que destrói, mata, fere e não, propriamente, pela corrupção da vontade humana pelo pecado.

Não herdamos o pecado original; contudo, percebemos que os pecados das gerações passadas tornam-se exemplos para a geração atual. A nossa vontade é livre para cooperar com Deus na busca da santificação e para poder seguir o exemplo de Cristo. Quanto às crianças, preocupo-me apenas em ensiná-las (e com elas aprender!) os valores do Reino de Deus e Sua justiça, porque sei que delas “já é o Reino dos céus”!

Cláudia Sales

Texto de Paulo Brabo

O Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça, mas tratamos muito rápido de corrigir essa sua peculiaridade. Miríades e miríades de edifícios ao redor do mundo, tendo pouco em comum seja por dentro ou por fora, seja em concepção ou execução, requerem austeramente para si o status de templos, igrejas e congregações cristãs. Esses edifícios a as assembléias que abrigam devem ser interpretadas, supõe-se, como evidência forte e palpável de que Jesus e sua mensagem permanecem relevantes para a nossa época – seriam evidência, para um mundo incrédulo, de que ele está no meio de nós.

De quem foi a idéia de chamar essas pequenas assembléias e seus lugares de reunião de “igrejas”? De quem foi a idéia de sugerir que essas pequenas assembléias deveriam durar indefinidamente? De quem foi a idéia de sugerir que o reino de Deus e a autoridade da sua boa nova deveriam ser de alguma forma comprovados ou evidenciados pelo número, pela devoção ou pelo nosso sucesso na multiplicação dessas unidades administrativas?

Do Novo Testamento não foi.

O Filho do Homem, como se sabe, gastava praticamente todo o seu tempo ensinando sobre a formidável natureza do reino de Deus e provendo evidência da sobrenatural proximidade desse reino da vida real. Ele não ofereceu mais do que comparações para definir a misteriosa natureza desse reinado de Deus, mas sabemos através dessas indicações que trata-se de projeto muitas vezes mais amplo, ambicioso e abrangente do que aquilo que o próprio Jesus chama, uma vez ou outra, de sua igreja – assim mesmo, sempre no singular.

A categórica ordem final de Jesus aos seus seguidores foi que saíssem pelo mundo fazendo discípulos – não plantando edifícios, não fundando assembléias, não multiplicando unidades administrativas. O livro de Atos e as cartas dão testemunho das soluções a que recorreram os seguidores de Jesus para colocar em prática essa convocação.

Sabemos por esses registros que, por razões estratégicas, os discípulos em construção reuniam-se em grupos, invariavelmente na casa de alguém. A esses agrupamentos as cartas dão ao nome de “a igreja que reúne-se na casa de [alguém]” ou “a igreja em [tal cidade]“. Estava em andamento a primeira fase de implantação (ou, talvez em melhores termos, do descobrimento) do reino de Deus na terra.

A questão é que com o tempo esses agrupamentos passaram de meio a fim. A inércia e a acomodação adiaram o reino: os ajuntamentos temporários e estratégicos da igreja passaram de alguma forma a ser conhecidos e reconhecidos como “igrejas”, entidades em si mesmas que requeriam manutenção e incessante validação para permanecerem relevantes. Logo esses entrepostos foram protegidos por uma camada do verniz da religiosidade que o próprio Jesus procurara demolir; seus edifícios passaram a ser conhecidos, anacronicamente, como “templos” e seus líderes como “sacerdotes”. Acabamos criando uma vaca sagrada que ao mesmo tempo nos embaraça e temos dó de imolar.

O que seria necessário para que os cristãos passassem a encarar a igreja local como meio precário para um fim cujo sucesso prescinde necessariamente do meio? O que seria necessário para que passassemos a ver as igrejas locais como bombas-relógio no sentido mais positivo do termo – empreendimentos projetados para terem um começo, um meio e um glorioso fim? O que seria necessário para que passassemos a ver o cenário de uma igreja fechando definitivamente as suas portas com esperança ao invés de horror – como evidência, na verdade, de que as portas do inferno não prevaleceram finalmente contra ela? Quando seremos capazes de dizer “é hora de descermos desse monte” ao invés de “façamos aqui tendas”? O que seria necessário para que reagíssemos ao anúncio do fim com a expectativa confiante de Jesus ao invés do “de modo nenhum isso aconteça” de Pedro?

O reino de Deus está no meio de nós, Jesus anunciava, por isso toda espécie de desintegração, mesmo daquilo que nos parece mais caro, deveria ser vista como bem-vinda. Na perspectiva mais ampla da boa nova, a mais bem intencionada estirpe de empreendimento espiritual deve ser capaz de abraçar e planejar integralmente a sua precariedade. Como o grupo dos doze discípulos, como a igreja de Jerusalém, como o próprio Jesus, deveríamos ser capazes de conviver de forma criativa e expectante com a perspectiva de uma morte anunciada.

Minha curiosidade para compreender a Graça de Deus vem desde o início de minha caminhada ‘religiosa’. Lembro-me muito claramente de quando fiz a Primeira Comunhão e da insistência em confessar-me; sem exagero, em dois dias procurei o padre umas cinco vezes!

O que uma criança com dez anos poderia fazer de tão pecaminoso? Mas o raciocínio era simples: ensinavam-nos que não poderíamos participar da celebração eucarística em pecado e que, na confissão, o padre poderia nos tornar aptos para tal rito. Mas, percebi que a confissão não tinha poderes mágicos; assim, depois de confessar-me, não conseguia ficar sem brigar com meu irmão, ou desobedecer minha mãe, ou querer possuir os papéis de carta da minha colega de sala, entre outras coisas que poderiam me contaminar e comprometer minha comunhão com Deus.

Naquela época acreditava que só existia uma igreja, uma maneira de crer e ver o mundo, uma só maneira de ter comunhão com Deus, uma única maneira de salvar-me. Quando cresci, percebi que existiam outros credos, outras manifestações religiosas – entre elas o movimento evangélico – outras culturas; e me espantei: eram belas! Saí do catolicismo romano por causa de sua arrogância, da sua falta de humildade em não perceber nas outras expressões a Graça de Deus.

Entrei na igreja evangélica ainda muito jovem, por volta dos vinte anos, e percebi que o discurso não era muito diferente. Ficava horas conversando com meu pastor sobre o destino final dos povos tribais africanos e indígenas, dos budistas, hindus, muçulmanos e dos homossexuais. A resposta obtida sempre era a mesma: o inferno! A construção para se chegar a esta brilhante conclusão era até bem feita, redondinha… seria perfeita se não fosse perversa, vingativa e mesquinha.

Durante anos ajudei a propagar esta lógica. Conforme este entendimento, Deus nos criou bons e pecamos; preferimos o mal. No entanto, Deus só nos aceita se o pedirmos desculpas. Mas, não serve qualquer desculpa; tem que ser de uma única forma, senão não vale. E a culpa não é de Deus, é nossa… Quem mandou vacilar? Não é Deus que nos condena, nós nos condenamos; a culpa é toda de Adão e Eva!

Esta explicação que por muito tempo fez a minha cabeça, não faz mais o menor sentido. Como consegui conciliar, durante tanto tempo, um Deus amoroso com essa lógica perversa? Talvez a resposta esteja com Comblim[1] quando nos explica que a religião está relacionada com o poder e este deixa as pessoas cegas…

Penso, hoje, que a questão da exclusividade e monopólio da salvação está muito mais relacionada com nossa intolerância religiosa, do que com o evangelho de Jesus, pois Deus revela-se em sua Palavra como aquele que mantém sua Graça gratuita destinada a todos. A intolerância nasce da dificuldade que a igreja tem (sempre teve) de compreender a implicação universalista da mensagem do evangelho.

Foi exatamente esta intolerância, a qual Morin[2] chamaria de barbárie religiosa, que fechou a escola de Atenas, matou inúmeros mouros e ‘bruxas’, destruiu civilização e culturas indígenas e africanas – tudo em nome da salvação da alma, com o intuito de limpar o mundo daqueles que poderiam, de alguma forma, contaminar esta salvação.

Aos que ousaram pensar diferente deste ‘puritanismo’ e tentaram (e tentam) trabalhar com interpretações diferentes do discurso hegemônico sobre a salvação da humanidade restou à perseguição, a imposição de uma ortodoxia impiedosa, numa tentativa neurotizante de tentar corrigir os ‘desvios’, isolando estes da comunidade e silenciando-os em nome da religião do amor.

Segundo Queiruga[3], podemos ter três posturas quanto a este tema: o exclusivismo que é admitir uma única revelação real e verdadeira; o inclusivismo que não exclui nem verdade nem salvação nas demais religiões (K. Rahner); e o pluralismo que considera que todas as religiões são iguais e equivalentes em seu valor salvífico. Prefiro, concordando com Queiruga, ficar com a segunda opção, que possibilita o diálogo sem cair num relativismo.

Não podemos mais defender uma salvação concentrada unicamente na tradição cristã ante um mundo carente da presença salvadora de Deus. Creio, com cada vez mais tranquilidade, que não existe religião que não tenha algo específico que seja alguma dimensão de Deus, pois o desejo dEle é se manifestar a todos. Neste contexto, faz sentido crer num Deus pessoal amoroso e que perdoa sem condições (inclusive os inimigos), que “faz nascer o sol sobre os bons e os maus” (Mt 5:45) e que “quer que todos os homens [e mulheres] se salvem” (1 Tm 2:4).

Neste sentido, não estamos mais diante da “lógica do privilégio” e sim diante da “estratégia do amor” (Queiruga). Um Deus que entrega sua existência a todos. A lógica do privilégio nasce da “eclesialização do cristianismo” fechado em si mesmo, pouco maleável e com uma teologia pouco aberta à novidade da história (Morin), a estratégia do amor nasce de um Deus que não faz acepção de pessoas.

Se realmente acreditarmos no amor imensurável de Deus e que Este se revela a todos, em todas as tradições e culturas, e que os povos recebem esta revelação em e através de sua sensibilidade religiosa, poderemos ter um cristianismo menos soberbo e mais humilde, e admitir que seja possível aprender e aperfeiçoar nossa espiritualidade a partir do outro, tirando Deus e a Sua infinita e radical salvação da possessão exclusivista dos cristãos.


[1] Quais os desafios dos temas atuais? (Editora Paulus)

[2] Cultura e barbárie européias. (Bertrand Editora)

[3] O diálogo das religiões (Editora Paulus)

Poderes malignos, ou demoníacos podem ser facilmente encontrados em quase todos os tipos de religiosidades, em todas as épocas e lugares. É só observarmos na arte onde inúmeras imagens foram pintadas inspiradas em forças ameaçadoras da vida. Nestas obras, a imaginação popular tem a liberdade de criar figuras, cores, símbolos, na tentativa neurotizante de explicar e dominar o incompreensível: a origem do caos, da desordem, da desgraça, do mal, da doença e da morte.

Uma das exceções para tal fenômeno encontra-se exatamente na religiosidade judáica, a começar pelo termo “demônio” que não encontra lugar na língua hebráica, sendo este de origem grega. Não existe uma única palavra do Antigo Testamento para indicar o Mal e Satanás como personificação, sendo  sua imagem e identidade fruto de uma grande mistura cultural, religiosidade popular e simbolismo poético.

Na Septuaginta, versão grega do AT, e no Novo Testamento o termo diábolos(diabo), de raíz semita, significa literalmente “alguém que atira alguma coisa no caminho de alguém”, e Satanás remete apenas ao papel de adversário, ou ódio/ rancor entre irmãos (Gn. 27:41; 50:15), ou entre pastores de ovelhas (Gn. 26:20); em sua origem, a palavra satanás era somente um apelido comum para homens e mulheres,  o inimigo terreno, o adversário que ameaça. Satanás é, originalmente, um ser humano.

Ao lermos o AT percebemos Deus exigindo ser adorado por Israel como único Deus, tendo este, portanto, exclusividade. Sendo Javé único, Ele se apresenta como sendo tanto a origem do bem, como a do mal, “Eis que hoje eu ponho diante de vós a bênção e a maldição” (Dt. 11:26). Sendo assim, na tradição pré-israelita, a teologia oficial suprime os demônios transferindo os traços demoníacos a Javé. Os hebreus ainda não conhecem a noção de um poder do mal absoluto, independente, paralelo e antagônico a Deus.

Em Jó, Satanás aparece como um dos “filhos de Deus”, um membro de sua corte, do Seu conselho celestial que juntamente com Ele governa o mundo. Satanás seria uma espécie de “olheiro ou fiscal do Rei”, não sendo, portanto, inimigo ou adversário de Deus. Ele aje de acordo com as ordens divinas, sempre dentro do permitido por Deus. Portanto, ainda não existe a idéia de uma personificação do mal. Entretanto, aqui começa mudar a teologia hebraica. O mal não é mais atribuído à pessoa humana e começa a aparecer uma influência externa, ligada a Javé. Começa-se a questionar a afirmação de que Deus (Javé) é autor do bem e do mal. Mesmo assim, ainda não existe a idéia de uma personificação do mal.

Nos livros de Isaías e Ezequiel há quem relacione Satanás ou o Diabo com Lúcifer (“o portador da luz”), apoiado na sátira contra o rei da Babilônia (Is. 14:4-23) e do rei Tito (Ez. 28:1-19). Para estes dois textos vale ressaltar que ambos utilizam-se de um mito antigo do deus Attar (textos de Ugari), semelhante ao mito grego de Faeton, como metáfora ao que iria acontecer com estes reis concretos e reais, que acumularam riquezas e poder por intermédio da opressão e violência. Estas histórias nada têm a ver com histórias de anjos bons e maus ou da personificação do mal; os textos não mencionam Satanás ou Diabo.

Com o retorno dos hebreus do cativeiro babilônico, devido ao contato com outros povos e outras tradições religiosas, a compreensão que tinham sobre o papel de Satanás começa a mudar; de mensageiro de Deus, passa a ser o adversário de Deus, e vai se tranformando em inimigo de Deus. Aqui o mal transcende o humano tranformando-se em uma entidade autônoma e contraposta a Deus. Para exemplificarmos esta mudança de paradigma basta comparar os textos do censo populacional que Davi fez, registrado nos livros de Samuel e Crônicas. No livro de 2 Samuel, escrito antes do cativeiro babilônico, o autor afirma que “a ira do SENHOR se tornou a acender contra Israel; e incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai, numera a Israel e a Judá” (24:1); já no livro de 1 Crônicas, datado pós-cativeiro, escrito provavelmente por Esdras, o autor afirma sobre o mesmo fato que “Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar a Israel” (21:1). Você pode até se perguntar: “a bíblia se contradisse?”; eu responderia: “Não! A teologia do povo mudou!”.

Somente na época de Jesus, Satanás ou Mastema torna-se o princípio metafísico do mal, chefe de um reino, oposto ao de Deus, com súditos (demônios, espíritos malignos), podendo ser adorado como deus. Um dos motivos para isto, provavelmente, foi o contato dos judeus com o politeísmo e, principalmente, com o dualismo greco-romano. Podemos observar, mais uma vez, esta mudança de paradigma a partir dos muitos textos apocalípticos que já existiam (e eram famosos) na época de Jesus. Nestes textos, dava-se muita importância aos demônios, mas eram apenas histórias populares e literárias. Satanás aparece neles, como também no Apocalipse de João e na tentação de Jesus retratada nos evangelhos, como um ser abstrato, sem forma concreta.

Somente depois que os apóstolos morreram é que os cristãos demonizaram os deuses pagãos Asmodeu, Astaroth, Baal, Baal-Berith, Dagon, Moloch entre outros que, para os hebreus, eram apenas estátuas, transformando a figura abstrata de Satanás em algo concreto e personificado. Um exemplo disto é o deus Poseidon dos gregos que foi demonizado; e seu tridente, um mero instrumento de pesca, tornou-se um símbolo do mal.

Tudo isto me faz pensar que o diabo, tal como o compreendemos atualmente, é uma construção mítica e cultural na história judaico-cristã, não sendo, portanto, um ser compreendido desde sempre pelo povo hebreu e muito menos apresentado por Deus desde o Gêneses. Esta construção foi internalizada pelo cristianismo que soube (e sabe) muito bem aproveitar-se de Satanás como uma das armas mais eficientes de barbárie cristã (Morin). É só lembrar das mulhes (principalmente) e homens queimados na fogueira por estarem possuídos pelo diabo na Idade Média (em Bamberg, sede do episcopado, foram queimados cerca de 600 pessoas em um só ano); dos infiéis encapetados mulçumanos que foram massacrados durante as cruzadas cristãs a fim de Jerusalém ser finalmente “liberta” (mais de 70.000 assassinatos); a escravização e genocídio dos negros e indígenas sem almas e possessos de demônios oriundos de suas práticas religiosas pagãs, etc.

E quem acha que a barbárie dos cristãos em nome do Diabo acabou, engana-se. Pois, em nossos dias, até Deus toma as dores dos cristãos, servos fiéis por excelência, e manda catástrofes naturais arruinarem os povos idólatras, filhos da ira de Deus e, portanto, filhos do Diabo. Ou pior, existe ainda os que defendem a ideia de que é o Diabo mesmo que manda essas catástrofes, pois, conforme esse entendimento, o dito cujo veio para “matar, roubar e destruir”… tudo dentro da permissão de Deus! Me pergunto, que lógica doentia é esta que leva pessoas a acharem que Deus e o Diabo são ‘comparsas’ em espalhar horror sobre o mundo, principalmente se for pobre, negro, índio, crianças, velhos…??? Sinto muito, para com os que se escandalizam com minha opinião, mas abandonei esta lógica a muito tempo!

Claudinha

Ler:

  1. KILPP, Nelson. Os poderes demoníacos no Antigo Testamento. Estudos Bíblicos: Diabo, Demônio e Poderes Satânicos. Rio de Janeiro: Vozes, 2002, nº 74, p. 23-36.
  2. SCHIAVO, Luigi. O mal e suas representações simbólicas. Estudos de Religião: Apocalípticas e as Origens Cristãs. São Paulo: UMESP, 1985, vol. 1, p.65-83.

Olá pessoas!!!!

Acho que ainda não compartilhei com você da minha paixão por histórias em quadrinhos! Sou uma eterna apaixonadas por este veículos de comunicação de massa… desde as histórias da Turma da Mônica (Maurício de Souza), Turma do Pererê (Ziraldo), Turma do Charlie Brown (Schulz) até qudrinhos mais adultos como Mafalda (Quino), Maus (Spiegelman – ganhador do Prêmio Pulitzer), Spirit (Eisner), Bone (Jeff Smith), entre outros. Sem deixar de lado, é claro, os super-herois!!!! Homem-aranha, Quarteto Fantastico, X-Men, Hulk, Homem de Ferro e o meu preferido SURFISTA PRATEADO!!!

Existe algo mágico nos super-heróis. Tirando aqueles que são perfeitos até demais (Super-homem, Capitão América, Ciclope), a grande maioria deles possuem as mesmas fragilidades que nós. Por exemplo, o Homem-Aranha é o jovem e inseguro Peter Park, Hulk é um cientista que não saber controlar o ‘monstro’ que existe dentro dele, Homem de Ferro é o maior fabricador de armas de fogo do mundo, Wolverine é um cara que só sabe resolver seus conflitos numa boa briga, e assim por diante. São heróis frágeis,  eles são como nós… cheios de altos e baixos.

Não apenas os personagens são facinantes, mas o enredo, quando bem elaborado, é capaz de nos arrebatar como toda boa literatura. Não foi a toa que Maus ganhou o Prêmio Pulitzer de literatura. Quro então compartilhar com vocês uma das minhas revistas favoritas, com meu personagem favorito o Surfista Prateado.

Entre 1988 e 1989, foi publicada uma edição especial do Surfista Prateado, escrita por Stan Lee e ilustrada por Jean Giraud Moebius, intitulada Parábola. Nela, Galactus, uma entidade cósmica conhecida como “o Devorador de Mundos”, vem à Terra para destruí-la e se alimentar da sua energia. Para isso, Galactus permite que as pessoas façam o que bem desejarem em seu nome para, assim, encontrarem a “salvação” – o plano é permitir que a humanidade se aniquile por meios próprios. Nesse ínterim, surge seu ex-arauto, o Surfista Prateado, questionando o direito de Galactus de atacar a Terra com um estratagema tão ardiloso.

A revista vale não apenas pelo seu roteiro recheado de diálogos filosóficos e porque não teológicos, mas também pela excelente ilustração do desenhista francês Moebius. Essa é uma das mais belas histórias em quadrinhos de super-heróis já criadas. Definitivamente, não é leitura apenas para crianças…

Segue abaixo um trecho da história e em seguida um link onde quem se interessar baixar a HQ; tentei colocar em anexo a revista completa mas não sei por quais motivos o e-mail sempre volta.

Embaixador 1: “Nós fomos visitados por dois seres do espaço. Um, tratado como um deus. O outro, para nossa perpétua vergonha, desprezado e condenado. Mas, finalmente, enxergamos a verdade. O surfista é o verdadeiro salvador das estrelas”.
Surfista: “Não! Nenhum homem pode ser colocado acima dos demais. A chama divina está em todos … ou em ninguém”.
Platéia: “Que humildade. A verdade essência da pureza. Só pode ser um santo. Você deve nos liderar! Oriente-nos. Seremos seus discípulos”.
Surfista (pensando): “Isto é loucura! Eles desejam um líder. Assim como uma criança espera o leite materno. É por isso que se tornam presas fáceis dos tiranos e déspotas. Por que eles não procuram a verdadeira fé em sim mesmos? Por que buscam outro que lhes mostre o caminho?”.

Baixe a revista por aqui: http://www.4shared.com/file/92406707/fcfb169b/Surfista_Prateado_-_Parbola.html?cau2=403tNull

Bjos e espero que se divirtam e gostem!

Claudinha

Fiquei “matutando” nesta semana  – depois de ver tanta doidice gospel na net – sobre a identidade do movimento evangélico. Percebo a preocupação de muitos com esta questão: a identidade. Na Betesda mesmo, tenho escutado que estamos passando por uma “crise de identidade” e que temos que “reforçar as trincheiras” para a construção de uma “identidade sólida”! Pois bem, é sobre a identidade que eu quero conversar um pouco.

Relacionamos a identidade a tudo aquilo que somos – eu sou negra; eu sou flamenguista; eu sou casada – contudo esquecemos que quando afirmamos que somos algo, implicitamente também dizemos o que não somos – não sou branca; não sou botafoguense; não sou solteira. Por que é importante perceber isto? Porque toda vez que eu falo de identidade, tenho que falar de diferença.

Identidade e diferença estão interligados. São categorias do mundo cultural e social, sistemas simbólicos criados por nós e resultados de atos de criação linguistica, ou seja, pela fala, pela linguagem. Sem linguagem não existe identidade, nem diferença.

A linguagem por sua vez é formada por signos que não fazem sentido isoladamente, que não possuem valor absoluto e por isto é uma estrutura instável, frágil (Derrida). Posso dar um exemplo bem simples: quando eu digo MESA – junção de quatro letras (signos) – por mais que eu entenda o seu significado, o conceito nunca irá substituir o objeto ao qual ele se refere. A palavra MESA é uma espécie de marca, ou sinal que está no lugar do objeto mas nunca coincide com ele. Daí a fragilidade da linguagem e, por consequência, da identidade.

Além disto, identidade e diferença não são processos definidos aprioristicamente, são impostos; não convivem de modo harmônico, são disputados a fim de garantir o acesso aos bens sociais, aos benefícios e privilégios; estão ligados às relações de poder. Por intermédio da identidade e diferença eu me distinguo dos demais e assim posso dizer quem pertence e quem não pertence ao grupo, quem fica dentro e quem fica fora, classificamos (somos os melhores!) e normatizamos (processo este mais sutil do poder que tem a pretensa ideia de homogenealização).

Por isto, em vez de tentarmos fixar, estabilizar uma identidade para a Betesda (algo complicado ao meu ver pelos motivos já citados), pergunto-me se não seria possível subverter cada vez mais a identidade, desestabilizá-la, ou melhor desorganizá-la para possibilitar o questionamento dos sistemas que lhe dão suporte (sustentação), evitando assim o engessamento de nossas propostas e ideias, proporcionando espaços para a contestação do que tem se mostrado de modo hegemônico e naturalizado no contexto evangélico; evitando classificações, separações sejam ela de gênero, raça/etnia, a fim de produzir novas e renovadas (muitas) identidades, sem medo da diversidade.

O problema não está na busca de uma identidade, mas no risco (e tentação) de tentar estabilizá-la, naturalizá-la tornando-a instrumento de manipulação e segregação. Daí o nosso cuidado de permitir que esta permaneça sempre em movimento, dialogando com outras identidades, pemitindo ser sempre revisitada, questionada e reconfigurada.

Cláudia Sales

Assisti um filme que deixou-me em êxtase, UM HOMEM BOM (Good no original). Uma adaptação para o cinema de uma peça do escocês Cecil Philip Taylor. Conta a história do professor universitário de literatura John Halder que não era bem sucedido; casado com uma mulher neurótica, pai de dois filhos, com uma mãe portadora de uma doença mental e um sogro resmungão. Essa situação familiar sugava toda sua vida, dividida entre as aulas da universidade, cuidar da mãe, cozinhar para os filhos e esposa e ainda aguentar as piadas do sogro. Seu escape dava-se em conversas com seu amigo Maurice, um psicanalista judeu, bem sucedido, desenrolado, solteiro e que gostava de viver intensamente cada momento de sua existência; em outras palavras, tudo o que ele queria ser, mas não tinha coragem devido as responsabilidades à sua volta.

O filme se passa na Alemanha da década de 30, no período de ascensão nazista. Trata de uma Alemanha que tentava se reerguer da crise econômica que intalou-se desde a Primeira Grande Guerra. Essa crise é percebida na casa de Halder; pouco dinheiro, muita sopa de legumes. O clima da casa sempre é muito escuro, depressivo e opressivo. É exatamente por isso que Hitler, neste período, vai ser visto como uma espécie de salvador de discurso revanchista.

A vida do professor Halder muda quando duas coisas surpreendem sua “roda-viva”: primeiro, uma de suas alunas se apaixona por ele. Anna é bem mais nova que Halder, bonita, inteligente, possui vontade de viver. É descrita no filme como uma representação de uma verdadeira mãe ariana. A segunda coisa é um convite que recebe do partido nazista para escrever um ensaio sobre a eutanásia. Halder há um tempo tinha escrito um romance, uma ficção, onde um marido mata a esposa, com uma doença incurável, por amor; Hitler queria justificar a eliminação de indesejáveis (doentes mentais, deficientes físicos, homoxessuais, etc) com um discurso humanista, solidário.

O filme não se trata de mais uma reconstrução da Alemanha nazista, nem pretende ser um filme de época. Busca mostrar a tentativa de um homem comum em adequar-se em um mundo louco, injusto, confuso, de crises existenciais. É a crise de cada um de nós que é exposta através de Halder. É a história sobre como desejos individuais podem refletir no destino da coletividade. Muita gente viu no nazismo uma oportunidade de subir na vida, não pensando duas vezes em aproveitá-la. Hitler não surgiu do nada, como costumamos ver nos filmes de época, ou nos livros de história; o apoio da sociedade ao partido nazista teve grande importância em sua ascensão. O questionamento era: “Algo que deixa as pessoas tão felizes pode ser ruim?”

Quem é o homem bom? Uma pessoa que é aparentemente apática, que não aguenta mais a rotina da vida em família, tanto é que decide trocar a esposa por uma mulher bem mais jovem, a esposa ariana exemplar; deixa de cuidar também da mãe fazendo com que ela volte a morar sozinha; com uma certa relutância entra para o partido nazista e é promovido na universidade, mesmo  acreditando, em segredo, que Hitler é uma piada e que logo irá passar. Enquanto sua vida melhora, a das pessoas em sua volta colapsa. Quando seu grande amigo Maurice precisa de sua ajuda para fugir do país, Halder se acovarda com medo de perder seu cargo, prestígio, segurança e não faz nada. Na falsa realidade que Halder constrói não há necessidade de fugir; tudo está bem. É o homem que escreve um ensaio que seria usado para justificar um falso humanismo na execução de pessoas com deficiências físicas e mentais. Esse é o homem bom (lembrei-me de muitos episódios bíblicos da vida de Davi).

Mas acredito que ele não era bom pelo que fizesse ou deixasse de fazer. Ele era bom porque em derteminado momento do filme ele cai em si… “a ficha caiu” e ele pôde perceber a realidade cruel em sua volta. É muito interessante perceber que em muitos momentos do filme Halder parecia sofrer de alucinações; em momentos de tensão, ou de decisões difíceis ele escutava a música; como se tudo parasse e todos começassem a cantar. Pena que ele não percebeu antes que a música o chamava para enxergar a realidade da vida.

Desta maneira, Halder percebeu que a vida que julgava real era apenas uma ilusão que o anestesiava da existencia, que, a música, a poesia, tentou a todo custo mostrar-lhe a realidade… demorou tempo demais para que ele percebesse que “as alucinações” eram concretas.

O homem bom nos diz muito hoje porque vivemos num contexto em que somos aturdidos pela necessidade de “darmos certo”, inclusive na condição de  pastores e pastoras. Sentimos a necessidade de se adequar em um discurso que foge à realidade da vida, mas que atrae milhares de pessoas numa espécie de fulga da dor. Igrejas que trocam a mensagem da Graça e da liberdade humana por um discurso legalista, controlador, antivida, mas que reforça um mundo de ilusão onde “vai dar tudo certo”, “tudo posso”, “sou vitorioso”, “meus problemas acabaram”, “está tudo bem”.

Entendo o quanto é difícil sentir-se deslocado, não acolhido pelos seus (supostos) pares; o quanto desejamos reconhecimento, fama, dinheiro para viver bem com quem amamos; contudo, devemos pensar que repercursões essa busca terá em nossa vida e na sociedade. Que tipo de pessoas desejamos ter em nossas comunidades? E, mais, que tipo de pessoas desejamos ser perante a vida? Pessoas que estejam prontas a enfrentarem a realidade como ela é e a partir dela construir o Reino de Deus, ou pessoas alienadas, que fingem não sofrerem, com uma vida arrebentada, acreditando numa falsa promessa de uma vida de recompensas após a morte?

Acredito que precisamos mais do que nunca escutar os poetas, a música que sai da boca de pessoas que vivem os dilemas do dia-a-dia, que falam de suas dores, suas alegrias, seus sonhos, suas realizações. A música da vida! Cheia de contradições, mas também de beleza, colorido, esperança. Deus não deseja de nós perfeição; ou que façamos tudo bem direitinho, tudo correto… Ele deseja que possamos dar ouvido à música que nos faz enxergar a realidade para que, verdadeiramente, possamos ser sal e luz deste mundo.

Cláudia Sales

-Vovó de onde mesmo que veio o homem?
- Senta aqui que vou de contar: Quando era bem pequenininha assim mais ou menos da sua idade minha avó que era descendente da África, uma região chamada Daomé, me contou uma história.
Não sei se ainda lembro direito mais vou te contar o que lembro.
-Vovó antes da senhora me conta a história, me diz o que é descendente?

- Descendente é aquele que vem de algum lugar.
- Já sei vovó. Agora a senhora pode continuar a história.
-Há muito tempo atrás os orixás viviam aqui na terra. A terra era habitada pelos orixás. Não existia o homem. Até que um dia Olorum , o dono do céu, resolveu que iria criar o homem para fazer companhia aos orixás. Olorum tentou criar o homem de ar, de fogo, de água, pedra e madeira, mas em nenhum caso deu certo.
- Porque não deu certo vovó?
- Não deu certo porque o homem de ar e de água desaparecia,não tinha forma , o de fogo consumia-se , o de pedra era duro não se mexia o de madeira também.
-E agora vovó o que Olorum fez?
- Na verdade ele não fez nada. Nanã foi quem fez. Ela vendo que todas as alternativas tinham dado errado, se ofereceu para criar o homem. Olorum permitiu. E Nanã poste a fazer o homem. Pegou um punhado de barro foi modelando o corpo as pernas, os braços a cabeça, e tudo que temos hoje. Ela não esqueceu de nada , fez tudo direitinho. Nos deu tudo que precisamos, pernas para andar, mãos para pegar as coisas, olhos para ver… não esqueceu de nada.
- E depois que homem foi feito, o que aconteceu?
- Os homens e os orixás viveram juntos e feliz dividindo alegrias e aventuras na terra.
http://notyelly.blogspot.com/2007/09/origem-do-homem-na-verso-africana.html

A milhares de ano atrás não havia separação entre o Orum (o céu dos orixás) e o Aiê (a terra dos humanos). Homens e os orixás viviam juntos e felizes dividindo alegrias e aventuras. Até que um dia um ser humano tocou o Orum com as mãos sujas. O céu que era branco ficou todo sujo. Vendo toda aquela sujeira Oxalá, que gostava de tudo branquinho bem limpinho, foi reclamar com Olorum, o dono do céu. Olorum irritado com a sujeira que os seres humanos estavam fazendo decidiu separar o céu da terra, a partir daquele momento nenhum ser humano poderia ir para o céu dos orixás e nenhum orixá poderia descer para terra dos seres humanos.

Agora eles viviam cada um no seu mundo. Todos estavam muito tristes, pois não tinha mais com quem brincar. Então os orixás resolveram se reunir e ir falar com Olorum, que acabou permitindo que em vez em quando os orixás retorna-se à terra. Os orixás ficaram muitos felizes porque podiam voltar a terra e os homens mais ainda porque poderiam novamente brincar com os orixás.

Os homens felizes com a notícia resolveram fazer uma festa para receber os orixás. Enquanto os homens tocavam seus tambores, cantavam, davam vivas e aplaudiam convidando todos os seres humanos para a festa, os orixás dançavam e dançavam e dançavam. Os orixás podiam de novo conviver com os seres humanos. Todos estavam muitos felizes. Na festa orixás e os seres humanos dançavam e cantavam.

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