Assisti um filme que deixou-me em êxtase, UM HOMEM BOM (Good no original). Uma adaptação para o cinema de uma peça do escocês Cecil Philip Taylor. Conta a história do professor universitário de literatura John Halder que não era bem sucedido; casado com uma mulher neurótica, pai de dois filhos, com uma mãe portadora de uma doença mental e um sogro resmungão. Essa situação familiar sugava toda sua vida, dividida entre as aulas da universidade, cuidar da mãe, cozinhar para os filhos e esposa e ainda aguentar as piadas do sogro. Seu escape dava-se em conversas com seu amigo Maurice, um psicanalista judeu, bem sucedido, desenrolado, solteiro e que gostava de viver intensamente cada momento de sua existência; em outras palavras, tudo o que ele queria ser, mas não tinha coragem devido as responsabilidades à sua volta.

O filme se passa na Alemanha da década de 30, no período de ascensão nazista. Trata de uma Alemanha que tentava se reerguer da crise econômica que intalou-se desde a Primeira Grande Guerra. Essa crise é percebida na casa de Halder; pouco dinheiro, muita sopa de legumes. O clima da casa sempre é muito escuro, depressivo e opressivo. É exatamente por isso que Hitler, neste período, vai ser visto como uma espécie de salvador de discurso revanchista.

A vida do professor Halder muda quando duas coisas surpreendem sua “roda-viva”: primeiro, uma de suas alunas se apaixona por ele. Anna é bem mais nova que Halder, bonita, inteligente, possui vontade de viver. É descrita no filme como uma representação de uma verdadeira mãe ariana. A segunda coisa é um convite que recebe do partido nazista para escrever um ensaio sobre a eutanásia. Halder há um tempo tinha escrito um romance, uma ficção, onde um marido mata a esposa, com uma doença incurável, por amor; Hitler queria justificar a eliminação de indesejáveis (doentes mentais, deficientes físicos, homoxessuais, etc) com um discurso humanista, solidário.

O filme não se trata de mais uma reconstrução da Alemanha nazista, nem pretende ser um filme de época. Busca mostrar a tentativa de um homem comum em adequar-se em um mundo louco, injusto, confuso, de crises existenciais. É a crise de cada um de nós que é exposta através de Halder. É a história sobre como desejos individuais podem refletir no destino da coletividade. Muita gente viu no nazismo uma oportunidade de subir na vida, não pensando duas vezes em aproveitá-la. Hitler não surgiu do nada, como costumamos ver nos filmes de época, ou nos livros de história; o apoio da sociedade ao partido nazista teve grande importância em sua ascensão. O questionamento era: “Algo que deixa as pessoas tão felizes pode ser ruim?”

Quem é o homem bom? Uma pessoa que é aparentemente apática, que não aguenta mais a rotina da vida em família, tanto é que decide trocar a esposa por uma mulher bem mais jovem, a esposa ariana exemplar; deixa de cuidar também da mãe fazendo com que ela volte a morar sozinha; com uma certa relutância entra para o partido nazista e é promovido na universidade, mesmo  acreditando, em segredo, que Hitler é uma piada e que logo irá passar. Enquanto sua vida melhora, a das pessoas em sua volta colapsa. Quando seu grande amigo Maurice precisa de sua ajuda para fugir do país, Halder se acovarda com medo de perder seu cargo, prestígio, segurança e não faz nada. Na falsa realidade que Halder constrói não há necessidade de fugir; tudo está bem. É o homem que escreve um ensaio que seria usado para justificar um falso humanismo na execução de pessoas com deficiências físicas e mentais. Esse é o homem bom (lembrei-me de muitos episódios bíblicos da vida de Davi).

Mas acredito que ele não era bom pelo que fizesse ou deixasse de fazer. Ele era bom porque em derteminado momento do filme ele cai em si… “a ficha caiu” e ele pôde perceber a realidade cruel em sua volta. É muito interessante perceber que em muitos momentos do filme Halder parecia sofrer de alucinações; em momentos de tensão, ou de decisões difíceis ele escutava a música; como se tudo parasse e todos começassem a cantar. Pena que ele não percebeu antes que a música o chamava para enxergar a realidade da vida.

Desta maneira, Halder percebeu que a vida que julgava real era apenas uma ilusão que o anestesiava da existencia, que, a música, a poesia, tentou a todo custo mostrar-lhe a realidade… demorou tempo demais para que ele percebesse que “as alucinações” eram concretas.

O homem bom nos diz muito hoje porque vivemos num contexto em que somos aturdidos pela necessidade de “darmos certo”, inclusive na condição de  pastores e pastoras. Sentimos a necessidade de se adequar em um discurso que foge à realidade da vida, mas que atrae milhares de pessoas numa espécie de fulga da dor. Igrejas que trocam a mensagem da Graça e da liberdade humana por um discurso legalista, controlador, antivida, mas que reforça um mundo de ilusão onde “vai dar tudo certo”, “tudo posso”, “sou vitorioso”, “meus problemas acabaram”, “está tudo bem”.

Entendo o quanto é difícil sentir-se deslocado, não acolhido pelos seus (supostos) pares; o quanto desejamos reconhecimento, fama, dinheiro para viver bem com quem amamos; contudo, devemos pensar que repercursões essa busca terá em nossa vida e na sociedade. Que tipo de pessoas desejamos ter em nossas comunidades? E, mais, que tipo de pessoas desejamos ser perante a vida? Pessoas que estejam prontas a enfrentarem a realidade como ela é e a partir dela construir o Reino de Deus, ou pessoas alienadas, que fingem não sofrerem, com uma vida arrebentada, acreditando numa falsa promessa de uma vida de recompensas após a morte?

Acredito que precisamos mais do que nunca escutar os poetas, a música que sai da boca de pessoas que vivem os dilemas do dia-a-dia, que falam de suas dores, suas alegrias, seus sonhos, suas realizações. A música da vida! Cheia de contradições, mas também de beleza, colorido, esperança. Deus não deseja de nós perfeição; ou que façamos tudo bem direitinho, tudo correto… Ele deseja que possamos dar ouvido à música que nos faz enxergar a realidade para que, verdadeiramente, possamos ser sal e luz deste mundo.

Cláudia Sales

-Vovó de onde mesmo que veio o homem?
- Senta aqui que vou de contar: Quando era bem pequenininha assim mais ou menos da sua idade minha avó que era descendente da África, uma região chamada Daomé, me contou uma história.
Não sei se ainda lembro direito mais vou te contar o que lembro.
-Vovó antes da senhora me conta a história, me diz o que é descendente?

- Descendente é aquele que vem de algum lugar.
- Já sei vovó. Agora a senhora pode continuar a história.
-Há muito tempo atrás os orixás viviam aqui na terra. A terra era habitada pelos orixás. Não existia o homem. Até que um dia Olorum , o dono do céu, resolveu que iria criar o homem para fazer companhia aos orixás. Olorum tentou criar o homem de ar, de fogo, de água, pedra e madeira, mas em nenhum caso deu certo.
- Porque não deu certo vovó?
- Não deu certo porque o homem de ar e de água desaparecia,não tinha forma , o de fogo consumia-se , o de pedra era duro não se mexia o de madeira também.
-E agora vovó o que Olorum fez?
- Na verdade ele não fez nada. Nanã foi quem fez. Ela vendo que todas as alternativas tinham dado errado, se ofereceu para criar o homem. Olorum permitiu. E Nanã poste a fazer o homem. Pegou um punhado de barro foi modelando o corpo as pernas, os braços a cabeça, e tudo que temos hoje. Ela não esqueceu de nada , fez tudo direitinho. Nos deu tudo que precisamos, pernas para andar, mãos para pegar as coisas, olhos para ver… não esqueceu de nada.
- E depois que homem foi feito, o que aconteceu?
- Os homens e os orixás viveram juntos e feliz dividindo alegrias e aventuras na terra.
http://notyelly.blogspot.com/2007/09/origem-do-homem-na-verso-africana.html

A milhares de ano atrás não havia separação entre o Orum (o céu dos orixás) e o Aiê (a terra dos humanos). Homens e os orixás viviam juntos e felizes dividindo alegrias e aventuras. Até que um dia um ser humano tocou o Orum com as mãos sujas. O céu que era branco ficou todo sujo. Vendo toda aquela sujeira Oxalá, que gostava de tudo branquinho bem limpinho, foi reclamar com Olorum, o dono do céu. Olorum irritado com a sujeira que os seres humanos estavam fazendo decidiu separar o céu da terra, a partir daquele momento nenhum ser humano poderia ir para o céu dos orixás e nenhum orixá poderia descer para terra dos seres humanos.

Agora eles viviam cada um no seu mundo. Todos estavam muito tristes, pois não tinha mais com quem brincar. Então os orixás resolveram se reunir e ir falar com Olorum, que acabou permitindo que em vez em quando os orixás retorna-se à terra. Os orixás ficaram muitos felizes porque podiam voltar a terra e os homens mais ainda porque poderiam novamente brincar com os orixás.

Os homens felizes com a notícia resolveram fazer uma festa para receber os orixás. Enquanto os homens tocavam seus tambores, cantavam, davam vivas e aplaudiam convidando todos os seres humanos para a festa, os orixás dançavam e dançavam e dançavam. Os orixás podiam de novo conviver com os seres humanos. Todos estavam muitos felizes. Na festa orixás e os seres humanos dançavam e cantavam.

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Certo dia olhei no espelho e vi minha imagem muito nítida refletida. No dia anterior eu o tinha lavado com bastante capricho. Tirei manchas de batom e pasta de dente, a poeira e manchas que geralmente os respingos da água da torneira deixam. Ele estava simplesmente limpo! Foi aí que eu percebi… nossa, quanto eu mudei!

Não estou me referindo a crise dos trinta anos – que para ser sincera ainda não engoli – aquela sensação de não estar mais na casa dos vinte; nem estou falando dos quilinhos a mais que deixaram minhas formas mais ‘barrocas’; nem das linhas de expressão que antes eu nunca tinha notado. Olhava fixamente minha imagem no espelho e pensava: meu Deus, como eu mudei!

Não me reporto também aos apelos estéticos que geralmente nós mulheres fazemos. Não estava me referindo aos meus cabelos com menos cachos devido a “escova inteligente” que a dona Francisca fez; nem aos inumeros produtos para maquiar que tenho – rímel, lápis, sombra, blush, delineador, batom, gloss, pó compacto, base e tantos outros que não me recordo agora. Estava com a cara limpa e olhava para aquela imagem no espelho e quase não me reconheci.

Não era também culpa da luninosidade. Alguém pode estar pensando que tinha pouca luz, ou que a lâmpada não ajudava, ou ainda que teria naquele exato momento faltado energia elétrica – o que impossibilitaria de reconhecer minha imagem. Não! Definivamente, era uma bela manhã de sol cearense. O Sol estava perfeito naquele dia, tanto que notei o que nunca tinha percebido em mim.

Todos os dias quando acordo, olho para o lado esquerdo do colchão para ver se o marido já saiu para o trabalho, me levanto, falo com minhas cadelas e vou ao banheiro para escovar os dentes. Mas antes de escovar, me encosto na pia e me olho no espelho. Fico lá parada uns trinta segundos antes de pegar a escova. Diariamente via-me sem perceber nada diferente. Até aquela manhã.

Naquele dia percebi o quanto tinha mudado!

Vi no espelho uma imagem quase que deformada e perguntava:

- Por que fiquei assim? Por que quase não me reconheço mais? Por que deixei que meu semblante defigurasse a esse ponto? O que eu poderia ter feito? Que escolhas eu deixei de fazer? Em que figura estou me tranformando?

Fiquei estática. Imóvel. Catatônica. Simplesmente não aceitei o fato de ter me permitido ficar semelhante a tudo aquilo que outrora afirmava ser desprovido de beleza.

Eu pude ver!

Tinha me descuidado; tinha me deixado levar pelas palavras, sem ação. Como elas conseguem desfigurar um ser humano! Isso porque elas transformam um idealizador em um mentiroso; num hipocrita; num cínico. Meu Deus, não conseguia me ver!

Quando eu estava para desistir de me encarar no espelho veio em minha mente o seguinte pensamento: se ainda posso me reconhecer, mesmo que com dificuldades, é porque ainda estou lá! Algo de minha imagem ainda está preservada… que alívio! Respirei fundo. Nem tudo está perdido; nem tudo foi deformado; nem tudo foi desumanizado.

Naquele instante interroguei à imagem no espelho:

- Como eu posso recuperar minha imagem?

Foi aí que meu reflexo respondeu, quase que de modo imperseptível:

- Práxis!

Claro! Só a práxis transforma sonhos em realidades, ideologias em mudanças concretas, idealizadores em homens e mulheres de Deus. Apenas a teoria colocada em prática em nossa existência é que pode contribuir para uma real transformação da nossa realidade, ou seja da nossa imagem, e da sociedade.

Sabia então que não bastava acreditar num mundo melhor, eu tinha que fazer por onde o mundo ser melhor; não bastava discursar sobre preservação do meio ambiente, eu tinha que fazer minha coleta seletiva de lixo, cuidar melhor do meu jardim, não desperdiçar água, etc; não bastava eu pregar sobre amor, eu tinha que amar as pessoas respeitando-as, aceitando-as, acolhendo-as a exemplo de Jesus.

Naquela manhã percebi que minha imagem dependia muito mais das atitudes do que das alavras, das ações do que das  promessas. Uma boa proposta que não é colocada em prática, não passa de demagogia.

Fiquei ainda em pé de frente para o espelho me olhando mais alguns segundos. Pude ver um caminho longo que teria que pecorrer se quisesse ter meu reflexo no espelho restaurado. Sabia que não seira fácil, contudo tinha a certeza que seria facinante e reapaixonante.

Texto: Rm. 8:28-39

Vivemos em um contexto evangélico meio maluco. Maluco porque pecebo que quanto mais Deus se esforça para demostrar sua Graça e seu amor para conosco, nós queremos provar a Ele que é por nossos esforços que temos o mérito de sermos alvo do Seu amor. Quanto mais Deus deseja nos chamar de amigos, nós insistimos em agir como servos. Queremos a todo custo (campanhas, votos, sacrifícios, jejuns, etc) provar que é através dos nossos méritos que conquistamos o amor de Deus e somos assim salvos.

O texto em Romanos nos mostra que nada, absolutamente nada, pode nos separa do amor de Deus. Nada que está externo a nós, pode perturbar o nosso relacionamento gracioso com Ele. “Não é o que entra pela boca que contamina o homem; mas o que sai da boca, isso é o que o contamina” (Mt. 15:11); ou seja não é o que está e acontece a minha volta que atrapalha minha comunhão com Deus, mas é o que acontece em meu coração, na minha mente, com os meus sentimentos – é como eu encaro os problemas a minha volta. Não são os problemas em si que nos fazem sentir afastados de Deus e de seu amor, e sim a postura que tomamos diante desses problemas.

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