agosto 2010


Cansei de tentar consertar o que julgava ser “errado”, de tentar consertar as coisas, de tentar ser perfeita, falar somente aquilo que é apropriado, encobrir defeitos, disfarçar descontentamentos, querer que as pessoas sejam éticas e correspondam a minha expectativa, pois a verdade é que ninguém muda. As pessoas, eu, você são o que são.

Não quero ser nem muito justa, muito menos muito sábia… Esse tipo de desejo pode destruir uma pessoa. Assim como não quero ser também uma errante, muito menos tida como doida, pois isso também não trás proveito algum. Quero aceitar o ser humano com seus defeitos e virtudes, suas ‘maquiavelices’ e sua ingenuidade. Pois o que realmente importa é viver bem. Que venhamos a sentir alegria com o que fazemos e com quem nos relacionamos.

Creio que este cansaço me sobreveio no tempo certo! Tudo tem um tempo para a gente compreender melhor as coisas a nossa volta. Todos nós nascemos e morremos, matamos experiências difíceis de nossas vidas e nos curamos delas, choramos e ficamos alegres, ganhamos e perdemos. Tudo acontece igualmente a todos.

Falamos muitas coisas, mas tem época que o silêncio é a melhor resposta. Amamos loucamente uma pessoa e pouco tempo depois a odiamos profundamente. Tem época que fazemos confusão por tudo, mas existe período que preferimos levantar a bandeira da paz. Ou seja, no final das contas, somos todos iguais, bons, ou maus, crentes ou incrédulos, brancos ou pretos, jovens ou velhos, homem ou mulher. E o nosso fim é virar poeira e retornar ao ecossistema…

Meu desejo então é me aproximar de Deus mais sensível a Sua voz, inclinar-me diante a Sua presença a fim de aprender a ser mais parecida com Jesus de Nazaré; não pretendo mais fazer sacrifícios tolos, como se isto O sensibilizasse de alguma forma… Quero aprender adora-lO no silêncio, pois palavra alguma é capaz de traduzir minha devoção. Desejo perceber Deus no meu dia-a-dia, seja no comer e beber, seja no meu trabalho, seja no ócio, pois esta é a maior bênção que Ele reservou para mim.

Aprender a ficar perto dos que sofrem, dos que não possuem reconhecimento algum, dos que passam despercebido pela sociedade. Não tenho mais desejos de estar com os que sorriem somente para agradar, dos que me dão tapinha nas costas, nos ‘banquetes’ onde todos fingem ser meus amigos. Desejo repartir o pouco que tenho com os que precisam e os que desejam receber algo de mim. Quero plantar sem esperar colher, de modo quase que despretensioso.

Em fim, quero desfrutar do amor, graça e misericórdia de Deus enquanto ainda sou jovem e tenho vigor para construir o Reino Deus entre nós.

Cláudia Sales

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A ideia de sacrifício sempre foi muito difícil para mim. Nunca compreendi direito porque devemos sofrer, pagar, ou ainda padecer com resignação a fim de conquistar algo, ou o favor de alguém. É comum, minha mãe mesmo gosta de repetir para mim: “você ainda vai sofrer muito para conquistar o que deseja…”. Tudo bem, eu acredito que o sofrimento faz parte da vida, não existe quem não sofra, ou tenha sofrido durante a caminhada; o que eu não consigo entender é o sofrimento como uma espécie de oferta que eu entrego a existência em troca de benefícios, de conquistas futuras… “o choro pode durar uma noite, mas a alegria….”.

Não seria mais lógico pensar que nossas conquistas e alegrias são frutos de nosso trabalho, e este feito com prazer; será que não chegamos mais longe em nossas realizações quando fazemos o que gostamos? Tudo bem, eu também sei que as coisas não são tão cartesianas assim. Nem sempre colhemos o que plantamos, como nem sempre plantamos o que colhemos… a lei da semeadura é vulnerável as contingencias da vida e é por isto mesmo que a ideia de sacrifício não me entra… pelo menos não dentro desta lógica que estou falando (escrevendo). Definitivamente, não acredito em carma, predestinação, maktub, propósito e sei lá mais o quê!

A coisa fica pior ainda quando a ideia de sacrifício é atribuída a Deus, pelo menos ao Deus que encarnou na pessoa de Jesus. Aí, a coisa complica mais ainda! Vamos recapitular nossa escola bíblica dominical: Deus criou o homem e a mulher, estes por sua vez pecaram e com isso tornaram-se devedores de Deus. Para diminuir a ira de sua divindade estes teriam que constantemente sacrificar animais, derramando sangue para que assim um inocente “pagasse o pato” da dívida que na verdade era deles. Para aumentar mais ainda meu desespero, matar animais para Deus não foi suficiente, Este exigiria um sacrifício humano. Como não havia “sacrifício perfeito” entre a humanidade, Deus se encarna em Jesus, e é imolado pelo próprio Pai para mais uma vez servir de “bode expiatório” em favor da dívida de todo mundo. Eu não acredito que você nunca tenha pensado nisso… questionado essa lógica. Deus planeja, desde a eternidade como matar seu próprio filho!

Aí você me pergunta: “Como pensar em outra lógica?” Bem, eu não tenho a verdade, muito menos a interpretação correta, nem tenho a pretensão de convencer ninguém a pensar como eu penso, mas, tentarei de modo resumido explicar meu modo de enxergar toda esta história…

Para começar, é notória desde o Antigo Testamento uma briga entre as escolas sacerdotal e profética. A primeira era responsável pelo sacrifício e de oferecê-lo a Deus. Você pode até argumentar que o problema desta escola estava no sacerdote e não no sacrifício, mas aí você terá que acreditar que o recebimento da oferta depende do sacerdote e não da intenção do seu coração. Vou dar um exemplo para ficar mais claro o que quero dizer: vamos supor que você é um crente devoto e que entrega seus dízimos e ofertas a igreja com um coração grato e cheio de boas intenções em ajudar na obra de Deus e o seu desejo é que o Senhor veja sua intenção e receba a sua oferta. Mas, sem você saber, seu pastor é um canalha! É um péssimo marido e pai, não paga suas dívidas, se aproveita da boa vontade de sua membresia, etc… Você acha que Deus não olhará sua oferta por causa do pastor? Claro que não, entendeu?

Por outro lado, temos a escola profética. Estive relendo os profetas e percebi que a grande maioria deles denunciam a lógica do sacrifício. Isaías (1:11-13; 16-18), Jeremias (6:20; 7:21), Oséias (8:11-14; 9:4), Amós (5:21-26), Miquéias (6:6-8), Zacarias (7:3-10) e Malaquias (1:10; 2:13-14) falam diretamente desta questão, e os demais, na minha maneira de ver, também reforçam a falência do sistema sacrificial, contudo de modo mais sutil. Se lermos com cuidado todos os profetas iríamos perceber que Deus não quer de nós sacrifício, derramamento de sangue (holocausto) e sim que pratiquemos a justiça, acolhamos os pobres e que semeemos a paz.

Ora, se Deus não quer mortes nem que derramemos sangue e sim que nossas ações revelem a Sua glória, como ele poderia preparar o holocausto de seu próprio filho? Quando leio nas Escrituras que Jesus entregou a sua vida, até a morte e esta de cruz, eu sinceramente não penso na morte em si, mas sim na vida! É a vida que Ele entregou: seu exemplo, seu caráter, suas palavras e ensinamentos, suas obras, A VIDA! Ele dedicou a Sua vida para nos ensinar como ser “cartas vivas” que que glorifiquem a Deus e que traga o Reino aqui para terra, como já está no céu.

Somos salvos pela Sua vida! Ele sustentou os ideiais do Reino de Deus até o fim; mesmo ameaçado pela morte, Jesus não se acovarda, segue adiante no que acredita. Tem a nobreza de morrer pelo o que é digno. Como eu falei no início deste texto, nem sempre colhemos o que plantamos. Jesus plantou com sua vida amor, perdão, solidariedade, inclusão, sabedoria, paz, longanimidade, misericórdia, e colheu com isso a inveja dos sacerdotes, a imparcialidade dos poderosos e a rejeição do povo. Aí eu pergunto: quem colocou Jesus em uma cruz? NÓS, e a nossa necessidade de “bodes expiatórios”, para que alguém leve uma responsabilidade que é na verdade nossa!

Acredito que a morte de Jesus foi fruto da maldade humana. Quando contemplo o Cristo na cruz penso “a que ponto chegamos” “matamos o nosso Deus”. A ideia de sacrifício humano é tudo o que Deus não quer! A história de Abraão e seu filho Isaque ilustra muito bem isso. Abraão acha que Deus realmente não vai poupar a vida de seu filho e o leva para um rito que provavelmente ele já tinha visto em sua terra natal (Caldeus – Babilônia); Deus por sua vez monta toda aquela cena para mostrar a Abraão que Ele era diferente das outras divindades conhecidas. Deus não queria sacrifício humano, queria um coração disposto a caminhar com Ele e ser seu amigo.

A cruz virou uma espécie de fetiche entre os cristãos, como se ela em si tivesse poderes sobrenaturais e ao olharmos para ela PLAFT! estaríamos salvos, como um passe de mágica. Pura ilusão. Isso faz com que estes mesmos cristãos ignorem o exemplo de Jesus; olham tanto para morte que relegam a vida a segundo plano. Acho que é por isso que existem tantos crentes de péssimo testemunho…

Não somos salvos pelo sangue derramado, mas pela VIDA que é derramada e transborda em nós! O que tem poder de nos transformar e salvar, principalmente de nós mesmos, é o exemplo de Cristo, é olhar para Ele na cruz, não como um fetiche, mas como alguém que levou as últimas consequências aquilo que acreditava como sendo “bom, perfeito e agradável”. Muito antes de Jesus encarnar, Deus já nos revelara que são as Suas misericórdias a causa de não sermos consumidos, Ele é um Senhor gracioso que deseja que tenhamos a coragem de entregar nossa VIDA, a exemplo do Mestre, para a construção do Reino de Deus, custe o que custar.

Cláudia Sales

A terceira linha de pesquisa proposta pelo CEPESC, “protestantismo e candomblé” se constitui como um desafio, diante de uma violência simbólica responsável por atos de intolerância de diversas naturezas.

As relações entre o protestantismo e o candomblé são complexas, especialmente em sua vivência prática. Afastamento, antagonismo, intolerância, marcam a maior parte das posturas dos grupos protestantes, encontrando-se, porém, mesmo que raramente, atitudes dialogais.

O candomblé no Brasil se caracterizou como religião de resistência da cultura negra, fortalecendo-se gradativamente, em uma forçada clandestinidade, até ser admitida como expressão legítima de religiosidade do povo, tanto quanto as religiões cristãs e todas as outras religiões.

Por outro lado, ainda é generalizado o preconceito que concebe o candomblé, junto com outras religiões de matriz africana e indígena, como forma inferior “primitiva” de culto, sendo a demonização dos orixás um exemplo desse tipo de atitude.

Um olhar não preconceituoso pode enxergar bondade e beleza, ali onde se espera sempre conflito e ambigüidade. O sofrimento causado pela intolerância religiosa nos convida a rever atitudes. Tolerância e respeito são desejáveis urgentemente, mas insuficientes para dar conta da totalidade do fenômeno do qual nos acercamos.

A celebração do outro é o caminho para admitir que a alteridade não ameaça a minha identidade, mas é condição e possibilidade da mesma. A festa da humanidade precisa das diferenças para continuar sendo festa.

Pr. Marcos Monteiro

http://madoniram.blogspot.com/2010/08/protestantismo-e-candomble.html